A transferência da sede da CBF, um golpe contra o povo

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Bom dia Ricardo. Admiro a grandeza do seu ato,ajudando a divulgar a campanha #OcupaCBF, mas, infelizmente, existe a inviabilidade técnica para o mesmo. A CBF seguiu a doutrina da maioria dos governos de direita das republiquetas que, além de acabar com os ídolos, afastou o povo, fisicamente, da sede do governo. Vai a explicação. O Golpe Militar de 1964, para se consolidar, baseou-se extremamente na localização geográfica do Poder, que era em Brasília, logo, longe dos grandes centros populacionais da época, como Rio e São Paulo. Então, mesmo se o povo e Jango quisessem, não teriam como se unir fisicamente, na Cinelândia ou na Praça da Sé, por exemplo, e lutar contra o mesmo.

Já estive na sede do governo argentino, a Casa Rosada, na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, e na do governo uruguaio, na Plaza Independência, em Montevideo. Assim como o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, em Santiago, as 3 sedes ficam no centro nervoso das maiores cidades do país e, acima de tudo exalam patriotismo e cobrança por parte do povo. Imaginem se hoje em dia a sede do governo brasileiro continuasse a ser o Palácio do Catete, localizado junto ao Centro do Rio? As grandes massas populares teriam condições de exigir muito mais. Mas, ela localiza-se em Brasília. Longe das grandes pressões populares. O mesmo se aplica à CBF. Hoje ela está localizada no bairro da Barra da Tijuca, a 30 Km do centro do Rio.

A Barra, para quem não a conhece, é um dos bairros mais novos e elitizados do Rio. Seus moradores, os chamados “emergentes”, são os novos ricos da cidade. Tem uma arquitetura bem parecida com a dos bairros mais ricos de Miami, na Flórida. Logo, a CBF está, como Brasília, também localizada bem longe da pressão e do clamor populares. Bem diferente de como o era quando localizava-se na Rua da Alfândega, no Centro do Rio. Com isso, episódios de apelo popular como as agressões verbais sofridas pelo técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari, no dia 3 de maio, depois de uma reunião com a comissão técnica na CBF, a três dias da divulgação da lista de final de convocados para a Copa do Mundo de 2002, raramente voltarão a acontecer. Outro fato emblemático foi o das convocações de Zé Carlos, goleiro, e Renato Gaúcho, ambos do Flamengo, em 1988. A torcida do Vasco, time que estava em grande momento à época, exigia a convocação do goleiro Acácio e a não convocação de Renato. E os jogadores convocados tinham que passar pelo meio do povo para adentrar no edifício da CBF. Na hora em que Renato Gaúcho chegou, o foi sob uma vaia histórica, a senhora sua mãe recebeu os adjetivos menos qualificados possíveis e os gritos de “Boneca do Sul” foram em uníssono.

Repito, mais uma vez, o meu pensamento, de quem acompanha o futebol há mais de 50 anos, meio século de vida: O futebol é movido pela paixão. E a paixão emana do torcedor. Então, um dos maiores golpes já dados contra o futebol brasileiro foi a transferência da sede da CBF. Já que, dessa forma, o povo teve o seu clamor cerceado pela distância da entidade aos grandes centros populares.

Sergio Macedo, 53 anos, casado, praticante de corrida, carioca, católico, vascaíno e portelense, formado em Administração de Empresas e Análise de Sistemas pelas Faculdades Nuno Lisboa, RJ. Assim como Romário, nascido no bairro da Vila da Penha. Apaixonado por futebol e samba. Apreciador da boa gastronomia mas também de uma cerveja gelada acompanhada de um bom churrasco de alcatra. Autodidata em Jornalismo Esportivo, sendo discípulo de João Saldanha, Luiz Mendes e Sandro Moreyra. Não cursou Faculdade de Jornalismo, porque essa seria feita durante o período da ditadura militar e seus pais temiam que sua total aversão aos militares, que sempre teve, lhe causasse problemas.

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