Seleção de Sectários – Por Ricardo Roca

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O Time

1) Wilson: branco, hétero, classe média, católico, alvinegro, diz que é contra a política;
2) Edílson: negro, hétero, classe média, evangélico, alviverde, admira o Bolsonaro;
3) Marcos: oriental, hétero, classe média alta, agnóstico, sem clube, é PT;
4) Socorro: branca, hétero, pobre, evangélica, alviverde, tem saudade do Maluf;
5) Thiago: branco, homossexual, classe média, ateu, alvinegro, acredita que todos os políticos sejam iguais;
6) Luana: negra, homossexual, rica, sem religião, tricolor, participa da Parada Gay;
7 Neila: latina, hétero, pobre, espírita, alvinegra, lê a Veja (e acredita);
8) Wellington: branco, homossexual, pobre, umbandista, alvinegro, repete o que “ouve por aí”;
9) Vanessa: branca, hétero, classe média baixa, evangélica, rubro-negra, se diz de esquerda;
10) Wagner: branco, hétero, rico, judeu, tricolor, é contra o PT;
11) Fábio: negro, hétero, pobre, católico, rubro-negro, sonha ir para os EUA;
SelecaoSectarios
Tabelinhas
Wilson e Thiago não se conhecem, apesar de torcerem pelo mesmo time; ficaram lado a lado no estádio no último domingo e até pularam juntos e se abraçaram na hora do gol. Estiveram próximos também durante uma briga, quando atiraram pedras contra os rubro-negros Fábio e Vanessa.

Fábio e Vanessa já ficaram uma vez, em um baile na periferia, mas ela se decepcionou quando o viu “forçando a barra” com Neila, que gosta dele. Vanessa acha que mulher tem que “se dar ao respeito” e Neila acredita que “o que tiver que ser, será”.

No culto, Vanessa e Socorro entoam cânticos e louvam a Deus e concordam que a mulher deve ser submissa ao homem. Nas redes sociais, EM CAIXA ALTA, Socorro e Vanessa atacam Thiago e Wellington, por serem homossexuais, o que consideram uma abominação. Nessas discussões, apesar de estarem do mesmo lado, Wellington não conta com a ajuda de Thiago, que “não tem como defender macumbeiros”.

Thiago participa de uma mesma comunidade que Marcos, voltada para questionamentos aos religiosos; a ironia é a tônica dos encontros. Apesar disso, Marcos desconsidera Thiago por sua “alienação política” e Thiago acha que Marcos é “frouxo”, por ser agnóstico.

Wagner já esbarrou com Thiago nas passeatas contra o governo; na empolgação chegaram a pedir a volta dos militares. Socorro e Fábio também estavam por lá. Fábio se considera engraçado, já que muita gente adora suas piadas sobre gays e “loiras burras”. Wagner e Luana são sócios-torcedores de um mesmo clube, mas não sabem disso. Wagner até xingou Luana quando passava de carro e a viu se beijando com outra mulher, a caminho da passeata gay. Não se reconheceram no encontro mensal do movimento negro.

Edílson não participa do movimento negro, que acha uma bobagem. Ele é contra as cotas, compartilha memes sobre meritocracia e acredita que estrangeiros deveriam ficar em seus países de origem. Wagner pensa parecido, apesar de seus pais serem de outro país e terem vindo cedo pra cá, em busca de “uma vida melhor”. Wilson foi seu colega num colégio de padres, mas não se falam mais desde que Edílson mudou de religião.

Wilson, Wagner e Edílson são “pela família” e não consideram que estão traindo suas esposas quando saem com prostitutas, já que essas são “mulheres pra cruzar e não pra casar”. Pra eles, mulher que sai com roupa curta “está pedindo…”. Luana, que pensa exatamente o oposto já humilhou Socorro, quando fazia campanha pelos direitos da mulher. Socorro não quis nem ouvir quando recebeu o convite para participar das reuniões e passeatas.

Wilson, Edílson, Thiago, Luana, Wellington, Vanessa e Wagner já foram a um estádio e já compraram ingresso das mãos de cambistas. Socorro, Neila e Fábio preferem assistir pela televisão, no “gato” da tv por assinatura. Marcos não curte futebol, mas descolou uma boquinha na Federação, onde ele de vez em quando ele aparece para trabalhar.

Todos estão cheios de razão e acreditam num futuro melhor!

#futeboleliteratura

2 COMENTÁRIOS

  1. […] Globalização, produtividade, resultado financeiro… A busca pelo sucesso, geralmente (e erroneamente) traduzida por sua capacidade de consumo acaba por nos amortecer. No mundo corporativo e competitivo não há espaço para dúvidas e titubeios, há sempre a necessidade de acerto. Nesse ambiente, cresce a cada dia a quantidade de pessoas “com certezas” sobre tudo. Briga-se por religião, ideologia, opção sexual, time de futebol, cor da pele, táxis x uber, presidencialistas x parlamentaristas, empresas de telefonia x what´sapp, pt x psdb, tv´s por assinatura x netflix, ‘deboístas’ x ‘tretistas’, monarquistas x republicanos, azuis x vermelhos e quaisquer outras discordâncias e diferenças que possam haver. Está inviabilizado o convívio e formada a seleção de sectários. […]

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