Rasteiras da Vida – Por Ricardo Roca

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Globalização, produtividade, resultado financeiro… A busca pelo sucesso, geralmente (e erroneamente) traduzida por sua capacidade de consumo acaba por nos amortecer. No mundo corporativo e competitivo não há espaço para dúvidas e titubeios, há sempre a necessidade de acerto. Nesse ambiente, cresce a cada dia a quantidade de pessoas “com certezas” sobre tudo. Briga-se por religião, ideologia, opção sexual, time de futebol, cor da pele, táxis x uber, presidencialistas x parlamentaristas, empresas de telefonia x what´sapp, pt x psdb, tv´s por assinatura x netflix, ‘deboístas’ x ‘tretistas’, monarquistas x republicanos, azuis x vermelhos e quaisquer outras discordâncias e diferenças que possam haver. Está inviabilizado o convívio e formada a seleção de sectários.

No começo do mês o menino sírio Aylan Kurdi foi encontrado morto em uma praia; sua família fugia de seu país em busca de uma vida melhor e demoramos demais para lhes estendermos as mãos. No dia 08/09 foi a vez de Osama Abdul Mohsen, também sírio e fugindo do terror, virar notícia. Numa sucessão grotesca de falta de humanidade centenas de imigrantes em fuga foram recebidos(?!) com cassetetes e bombas pela polícia húngara; Osama corria com uma criança em seu colo quando uma cinegrafista da emissora N1TV, também da Hungria, passou-lhe uma rasteira. O vídeo é chocante demais pelo que representa. Deixo apenas duas fotos.
Cinegrafista agrediu solicitantes de refúgio na Hungria
A vida nos dá muitas rasteiras e dá pra afirmar, sem medo de errar, que o mundo é um lugar injusto. Não é uma queixa ou melancolia, apenas triste constatação.

Há alguns dias surgiu a notícia de que Osama trabalha com futebol e que acaba de receber convite para ser treinador de uma escolinha de futebol do Getafe, na Espanha.
OsamaRasteira
O universo do futebol não é melhor do que o “resto” da humanidade, talvez nem mesmo esteja entre os melhores ambientes, mas a linguagem da bola é universal e envolve paixão. É fácil entender a paixão do outro, é campo fértil para a empatia tão em falta.

Isso não vai resolver a situação dos milhões de refugiados e imigrantes pelo mundo, mas mostra que é possível ser solidário, dá esperança a quem mais precisa e a quem também sofre com a dor alheia. Nesses tempos difíceis é necessário acreditar que sempre vai haver alguém a estender a mão a quem precisa.

#futeboleliteratura

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