Negociatas – Por João Gabriel

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Futebol virou negócio.

Não é de hoje. Pode-se tomar como marco a década de 1990, alguns dizem 1980. Um historiador mais empenhado descreverá passo a passo a inserção do futebol no mundo capitalista, desde seu período amador até sua consumação como espetáculo monetário nos dias de hoje. Os mais jovens acham normal bilhões de euros gastos em transações futebolísticas que hoje descrevem um mercado que pouco deixa a desejar a qualquer bolsa de valores. Estratégias monetárias, fundos de investimento, especulação, financiamento… são tantos termos financeiros que rondam o debate futebolístico que em pouco tempo precisaremos adicionar a figura do economista à mesa redonda.

De fato, foi durante os vinte anos citados acima que consolidou-se mundialmente o mercado de exportação e importação de mercadoria, digo, jogadores. Também foi quando o futebol invadiu o televisor, aparelho que cada vez tornava-se mais comum no cotidiano humano. Cada vez mais o tamanho do patrocinador aumentava e o nome do clube diminuía. Galeano, em Futebol ao Sol e a Sombra, aponta, das mais diferentes maneiras, como a marca entra no futebol e, depois, como o futebol se torna marca. Como que espelhando a sociedade, o futebol consuma-se como a Sociedade do Espetáculo de Debord.

Hoje tudo isso nos parece comum. Os torcedores de um clube sem patrocínio master não vêem a hora da camisa ser estampada com uma nova marca, pois hoje é imprescindível a qualquer clube a renda proveniente da sujeira em seus mantos. Mesmo o Barcelona precisou render-se, em 2010, quando fechou o primeiro patrocínio de camisa na história. Parafraseando Cruyff, o jogador de futebol e não de mercado, o Barcelona deixou de ser mais que um clube para tornar-se só mais um clube. Hoje os direitos de transmissão são das principais fontes de dinheiro do futebol, pagando mais de R$22 bilhões de reais pelas próximas três temporadas da Premier League, por exemplo.
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Contudo, o espetáculo não é para todos. Na Europa é cada vez mais frequente a revolta dos torcedores pelo preço dos ingressos; quanto mais caro, mais seleto o grupo dos espectadores e mais sentada fica a arquibancada. A opção torna-se, aqui ou no Japão, assistir pelo televisor. Ou não. Quem quiser assistir seu time no Brasileirão pode ter que pagar R$90,00 reais por uma única peleja no pay-per-view.

Outra prova de que o mercado futebolístico não beneficia o futebol é a Champions League. Acostumado com o baixo nível do futebol brasileiro recentemente, muitas vezes nos refugiamos no futebol europeu – e claro, pagamos por isso; só assim se pode ser bem recebido como refugiado pelos donos do capital europeu. São tantas pelotas europeias em nossa televisão que hoje é comum um jovem que saiba de cor a escalação de um clube inglês, mas não saiba um jogador de clube brasileiro.

Mas graças a recentes negociatas milionárias, esta pode ser a Champions League que ninguém vai ver. A Disney, que até a temporada passada transmitiam o campeonato para o Brasil, perdeu a corrida de R$318 mi pelas próximas três temporadas, que ficaram com a Warner. Não entendeu? A Disney é a dona dos canais ESPN, antigos detentores da Champions, enquanto a Warner, por meio da Turner (detentora de canais como CNN e Cartoon Network) investiu R$80 mi nos canais Esporte Interativo que então abocanhou os direitos de transmissão do maior campeonato da Europa.

Por conta de uma disputa Mickey Mouse e os Looney Tunes – ou entre duas gigantes mundiais -, a Champions League agora será transmitida apenas aos poucos assinantes do EI Plus (serviço de streaming do Esporte Interativo) ou para os outros poucos que assinam pequenas emissoras como a OiTV – estima-se que 16,6 milhões de pessoas não poderão assistir à Champions se a situação se mantiver.

Desde os refugiados sírios até o futebol, não restam provas de que as negociatas bilionárias beneficiam apenas quem delas participa. Por sorte, nós amantes do futebol perdemos apenas um jogo, enquanto outros milhares de refugiados pelo mundo perdem a chance de jogar.

João Gabriel, 19 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.