Memórias Futebolísticas: Giovana de Paula

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Se eu te contar, talvez você não acredite. Em uma conversa informal com meu tio, em Minas Gerais, sem relação alguma com futebol, eu comentei: “Nossa… eu me lembro de umas bandeiras, uma multidão em verde e branco… mas não sei o que é”… Eu tinha uns 10 anos de idade, somente. Ele me respondeu: “Foi a final do Campeonato Brasileiro de 1978, Guarani e Palmeiras, na qual o Bugre se sagrou o único campeão brasileiro do interior. Você tinha 3 anos, nós fomos ao Brinco e te levamos”. Ali nasceu um amor que faz parte das melhores memórias da minha vida.

Memórias que começavam sempre da mesma forma. Sair de casa, entrar no carro, colocar o ‘clássico’ CD com o hino do Guarani, no último volume, bandeira para fora do carro, família reunida e, ao nos aproximarmos do Estádio Brinco de Ouro, ainda na Avenida Norte-Sul, em Campinas, e ver aquela ‘massa alviverde’ reunida, entoando seu amor pelo Guarani. Um amor que é nosso. Um amor que não se apaga, não se esquece, não se troca.

Ir ao Brinco era um programa que a minha família costumava fazer. Era sagrado! Era mais fácil nos reunirmos para irmos ao Brinco do que para um almoço de domingo! Era o principal motivo para uma reunião familiar. Eram as nossas energias – minha, da minha mãe, do meu irmão mais novo, da minha cunhada e da minha sobrinha – na mesma sintonia. Era como se o nosso amor em família fosse celebrado ali, no Brinco de Ouro, “a cada nova jornada”, como diz o nosso hino…

Meu pai sempre dizia: “Vocês são loucos”. Ele não entendia que movimento era aquele que nos impulsionava, jogo após jogo, para um sentimento que nos inebriava. Acho que somente um bugrino de verdade, daqueles de ‘um time só’ – como eu – é capaz de entender.

São muitas histórias, difícil demais escolher somente uma… mas e se um dia eu te contar que eu vi o Guarani, em uma semi-final de Campeonato Brasileiro, ganhar do São Paulo por 4×2? Sim… eu vi. Ê… Amoroso e Luisão… Você acreditaria em mim? E de quebra… se eu te contar que eu também vi o Guarani, em uma final de Campeonato Paulista, enfrentar o Corinthians… não de igual para igual, mas de forma superior? Com gol de bicicleta e tudo no Morumbi? (Ê… Neto…). Aí, você acreditaria em mim? No segundo jogo, a grande final, disputada no Brinco, inclusive, eu vi o “pênalti mais pênalti da história do futebol”, parafraseando Milton Neves, em cima do ponta-esquerda (é… naquele tempo ainda havia pontas!) João Paulo, “o interminável”. Quem viu sabe. Eu vi e posso dizer: foi preciso muita ‘força’ dos ‘deuses do futebol’ para levar o título daquele campeonato para o Parque São Jorge.

E se eu te contar a história de um 5×2 do Guarani em cima do Palmeiras? Ê… Edu Lima… Que gol foi aquele, meu filho? Definitivamente, não era fácil para ninguém enfrentar o Guarani.

Ao subir as escadarias rumo ao tobogã do Estádio Brinco de Ouro para contemplar o gramado e a torcida em volta, a música, o som, a bateria da Fúria Independente… nada foge da memória. Ver o Bugre jogar como ele realmente é (grande, forte e determinado) é como você marcar um encontro com o melhor que você tem dentro de você.

Você acredita que pode ser melhor? Você acredita que nem sempre o ‘maior’ vence? Você acredita que sua paixão pode suplantar todas as dificuldades e, definitivamente, empurrar você ao topo? Você acredita na força da superação? Se você acredita, você pode começar a entender o que é torcer para o Guarani Futebol Clube.

Porém, teve uma dia, mais do que especial. Falar dos jogos acima é fácil. Mas levar 30 mil torcedores, para assistir Guarani e Avaí, em uma disputa pela Série B é algo incrível!
Bugre
Para mim, jogo de uma torcida só, envolvia, até então, somente a Seleção Brasileira. Mas, no dia 10 de Setembro de 2005, há dez anos, o Brinco de Ouro inteiro, tobogã e as duas cabeceiras estavam ‘pintadas pela paixão em verde e branco’. Naquele dia pegamos na mão do Bugre e o levamos ao topo, em um lindo 2×0, com gols de Rodrigo Sá e Jonas. Com este resultado, o Guarani encerrou sua participação na 1ª fase do Campeonato Brasileiro série B naquele ano em 3º lugar, garantindo sua classificação para a 2ª fase.

Foram momentos que estão para sempre em nossa história e não se apagam, nunca.

Giovana de Paula é torcedora do Guarani, jornalista formada pela PUC-Campinas e trabalha na Mundo Agro Editora.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!