O Falso 9 – Por Ricardo Roca

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“Um fabricante de bonecas sexuais de luxo está apostando na inteligência artificial e na robótica para incrementar seu negócio. Em dois anos, ele espera lançar uma versão capaz de compreender o que o usuário diz e conversar com ele.”
Folha de São Paulo, 05 de julho de 2015

Os tempos dourados passaram e o Psitacus andava meio em baixa, sem resultados relevantes nos últimos anos, décadas. A parceria firmada pelos dirigentes com a universidade da região prometia trazer um pouco de modernidade para a gestão e melhorar um pouco a performance do clube. A princípio o acordo previa intercâmbio com os professores e alunos dos cursos de Educação Física e Fisioterapia para ajudar atletas e comissão técnica e de Administração e Marketing para auxiliar os dirigentes.

Havia, no entanto, um torcedor fanático do clube que atuava como professor no curso de Robótica. Egon vinha pesquisando sobre Inteligência Artificial, já tinha até desenvolvido uma bola com um chip embutido, a Pilkon2235, e estava prestes a dar um passo ainda maior, um humanoide que seria capaz de jogar futebol. Mais do que isso, ele seria programado com habilidades e características de craques do passado.

Não foi difícil convencer os dirigentes do Psitacus a contar com o “novo jogador”. O cuidado com sua aparência foi grande, molde, protótipo e “produto final” planejados meticulosamente, materiais importados, polímeros e látex desenvolvidos com exclusividade; tudo para que seu aspecto fosse o mais real possível e não despertasse suspeitas.
RealBoot
No dia da apresentação, logo após o clube se classificar para as oitavas-de-final do torneio, os torcedores se perguntavam quem seria o contratado e nem mesmo o técnico e os outros jogadores sabiam quem era Fausto, que pediu para ser chamado de F9.

O entrosamento foi imediato e Fausto caiu como uma luva no esquema tático do time, atuando como “falso 9”. Bastaram dois jogos e a classificação para as quartas-de-final para atrair a atenção da mídia e conquistar dois novos patrocinadores. A empolgação era grande e até mesmo um ex-craque de um rival, antes reticente em atuar pelo clube, acabou fechando contrato.

Ele parecia mais humano a cada dia; o sistema de reconhecimento de voz sofria ajustes periódicos, as interações com colegas, dirigentes, imprensa, torcedores, árbitros e bandeirinhas aumentavam seu conhecimento e melhoravam suas atuações. F9 chegava até a demonstrar uma leve arrogância; “marra”, como se diz no meio futebolístico.

O Psitacus chegava à final e tinha nova chance para sair do jejum de títulos que já durava 13 anos. Para a partida final a expectativa era grande, transmissão pela televisão, imprensa de todos os cantos do país e até de jornais estrangeiros.

AnelBolaFausto não apareceu para o jogo, não mandou notícias e não deu sinal de vida, com o perdão do trocadilho. Com sua ausência, o Psitacus não foi páreo para o Cantet, que venceu por 2 x 0 e conquistou o título. Dizem as más línguas que se apaixonou e fugiu com Sofia, que atuava como bandeirinha e tinha posado nua algumas semanas antes.

Homenagem a Moacyr Scliar (como a que já havia sido feita em Juiz Ladrão), escritor gaúcho que foi colaborador do jornal Folha de São Paulo entre 1993 e 2011, onde publicava crônicas de ficção desenvolvidas a partir de notícias reais publicadas no jornal.

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