Memórias Futebolísticas: Marcelo Unti

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Engraçado porque minhas memórias futebolísticas da infância são, em sua maioria, radiofônicas, televisivas ou escritas. Meu pai me levou pouco ao estádio e por várias razões: comodismo, fastio com o futebol dos anos 80 (nasci em 1974) principalmente do nosso Santos, o fato do meu irmão ser corintiano e outras que desconheço. Lembro de ter ido com ele a um Santos 0 x 1 América do Rio no Morumbi em um dia de frio e gol “impedido”. Um jogo da Copinha e mais um ou outro disperso. Quando atingi a idade de poder ir sozinho a um estádio a fase do Santos ainda era pior e santista em São Paulo da minha idade era raro. Um no Santa Luzia (companheiro de jogo até hoje), uns poucos no São Luis e outros mais no Direito da PUC. O irmão era mais novo e corintiano. Era eu quem levava o cara no estádio. Vimos a estreia do Neto (motivo de agradecimento e lembrança 25 anos depois, finais da Copa do Brasil e outros mais.

Talvez por isso sempre fiz questão de levar meus dois meninos aos estádios e hoje só o santista da casa vai porque o mais velho não curte futebol. Já temos memórias inesquecíveis dentro e fora do estádio. Mas como a memória tem que ser minha volto no tempo em que, apesar das dificuldades, nem tudo era espinho.

Se na escola e faculdade os santistas eram esparsos, no clube que frequentava tinha um amigo santista, tão pé-frio quanto eu, o Dudão. Sofremos muito, mas aí veio aquele segundo semestre de 1995. Aquele time desacreditado liderado pelo magro e alto Messias vindo da Tuna Luso. No gol, o filho do Rei. Nas laterais, renegados de São Paulo e Flamengo. Na zaga os perebas de sempre. No meio Gallo e Pintado limpavam o caminho para Vagner, Robert, Jamelli, Marcelo Passos e o autor do gol do título Camanducaia (perdão botafoguenses, mas o campeão moral fomos nós).

Primeiro turno duro e não classificamos e até tomamos uma goleada do Vitória. No segundo turno embalamos e emplacamos um sequência de vitórias que nos deixou perto da classificação para as semifinais. No último jogo sufoco no Pacaembu e os gols contra o Bugre só saíram nos 10 minutos finais. Atlético eliminado e a gente nas semifinais. Saímos do estádio (sim, nossa casa também) felizes depois de 12 anos de nossa última semifinal. O adversário era o Fluminense, timinho de verdade, com Renato, Vampeta e um muito de pereba. Na ida, um assalto no Maracanã, Robert e Jamelli expulsos e 4 x 1 na cachola. No jogo de volta, no NOSSO Pacaembu, precisávamos vencer por 3 gols de diferença. 3 GOLS!!! E desfalcados e, pensava eu, com o estádio vazio.

Mas aí chegou o 10 de dezembro de 1995. Que meu filho me perdoe, mas o maior jogo que vi, ouvi ou senti do Santos ainda é esse. Fomos eu, Dudão, o meu hoje ex-cunhado são paulino e mais 28.000 santistas (tobogã fechado). Tarde linda de verão e a gente lá na arquibancada verde atrás do gol do portão principal. O Messias de cabelo vermelho liderando aqueles heróis de camisa branca, detalhes pretos e patrocínio da UNICOR (bem sugestivo). O jogo começa e o resto é história. Giovanni uma vez e mais outra abre vantagem bem na nossa frente. Faltava só um gol e mais 60 minutos. Aí vem o intervalo. O INTERVALO. O que era aquilo??? Os nossos heróis não deixam o gramado e recebem todos os bons eflúvios daquela massa que sabia que o impossível parecia possível. A energia que passava no vale sagrado era infinita.
IntervaloSantos
O jogo recomeça e Macedo faz a vantagem que precisávamos. Dudão e eu só chorávamos de tanta alegria. Rogerinho põe água no chopp, mas o Messias, camisa 10 e nota 10 decide ser mais genial e Camanducaia e Marcelo Passos marcam 5 x 1 e nos levam à loucura. Parece que tivemos um expulso e tomamos mais um gol mas daí não lembro de mais nada. Só lembro de sair do estádio como se estivesse flutuando. A ladeira da Major Natanael foi subida às lágrimas e ouvindo o Milton Neves dizendo “Santos meu amor”e cantando a música do “Seven Otlim” na velha Pan. Nunca a subida foi tão suave. Nunca vi o Santos tão sublime. Depois, ah depois todos nós sabemos o que houve. Fico com a manchete da saudosa Gazeta Esportiva: SANTOS vice CAMPEÃO.

Marcelo Cavichio Unti é advogado, professor de marketing esportivo, historiador e autor de livros sobre futebol, santista doente, filho de santista doente e pai de um santista mais que doente.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!