Império – Por João Gabriel

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O título era pra ser “Império”.

Quando saiu a notícia da prisão de José Maria Marin e mais seis cartolas gigantes da Fifa, imediatamente comecei a pensar neste texto. Já pintava um tom heroico, retumbante e monumental. Frases como “As ruínas da Fifa”, “A queda do Império”, “Blatter é o próximo”, dentre tantas, começaram a pular enquanto construía parágrafos na minha imaginação. Até ensaiei um paralelo com Guerra nas Estrelas, uma relação rocambolesca.

Mas ao passo que a história começava a clarear, a narrativa se tornava mais cômica que épica. Meio ao estilo brasileiro, que teve sua independência causada por uma briga de pai e filho, um dos principais delatores do caso Fifa é Charles Blazer, ou Chuck, ex-secretário geral da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe). Em 2004, Chuck votou pela escolha da África do Sul como sede do mundial de 2010, mas não sem antes assegurar um acordo de 1 milhão de dólares pelo voto. Enquanto os sulafricanos construíam estádios, Chuck percebeu que o dinheiro não caíra em sua conta e descobriu que o intermediador da negociação (alguém do alto escalão da Fifa, mas que não teve nome divulgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos) havia gastado tudo em outras propinas. Fechou-se então um segundo acordo, onde ele receberia menos dinheiro e em três parcelas, cada uma em bancos diferentes espalhados pelo mundo, a última com sete anos de atraso. Publicamente, Chuck nunca reclamou do calote levado, mas não surpreende que tenha trocado informações pelo privilégio da delação premiada, assim que o FBI bateu em sua porta.

Agora, já se perguntaram por que o FBI se meteu com a Fifa? Ora, se tem uma coisa que os Estados Unidos odeiam é que tirem o dinheiro de lá. Por exemplo: o relatório que levou à prisão de Marin cita o contrato de uma empresa estadounidense (Nike) com a CBF. Ao fechamento deste contrato, no início da década de 1990, estariam ligados casos de suborno, pagamento de propina e lavagem de dinheiro, envolvendo pelo menos a Nike, Marin, Ricardo Teixeira e a empresa Traffic USA (mais dinheiro estadounidense envolvido na jogada). Não bastasse isso para irritá-los, os Estados Unidos também perderam a corrida pelas copas de 2018 e 2022. Não é de hoje que o país mais poderoso do mundo vem tentando mandar numa das poucas coisas que nunca mandaram: o futebol. Já que com a bola nos pés não dá, talvez assim eles consigam.

A data da operação parece ter sido escolhida a dedo: dois dias antes da eleição para presidente da Fifa. Ainda abalado pelas prisões de seus companheiros de profissão, Joseph Blatter discursou sobre união e paixão, viu os yankees votarem em seu opositor, o príncipe jordaniano Ali Bin Al Hussein, que conseguiu levar a batalha para o segundo turno pela primeira vez na história. Mas então, desistiu, elegendo Blatter num anti-climax total. Não se sabe por quanto mais (tempo ou dinheiro) o suíço reinará. Adrew Jennings, jornalista britânico e maior desafeto da Fifa, já disse que Blatter “é o próximo”. No passado, Jennings afastou João Havelange e Ricardo Teixeira da presidência da entidade e agora vai atrás de sua tríplice coroa, se possível comemorada com a prisão de um ou mais destes cartolas.

É muito cedo para dizer até onde vão as investigações tanto da polícia suíça quando do FBI. Pode ser apenas mais um caso de abalo sísmico, mas que não derrube a espinha dorsal do jogo sujo, apelido carinhoso dado por Jennings. Entretanto, é a primeira vez que os investigadores são tão poderosos e tão interessados na queda do Império. Se cair, resta saber o que surgirá das ruínas da Fifa. Nos escombros reside o interesse estadounidense: uma “Operação Soccer”, nova “missão democrática” intervencionista que nós latino-americanos sabemos o que significa. O espectro investigado alcança contratos de televisão, patrocinadores, empresas de marketing, federações e pode ir mais longe, respingar em bancos, atingir até a RGT. Quem sabe não tira Ricardo Teixeira de sua casa de verão, ou até Havelange, se este ainda vivo estiver.

No fim, apesar das passagens cômicas, o título “Império” não é um exagero e vai ficar. Contudo, precipita-se quem chama esta de uma narrativa épica. É o início de algo que pode abalar estruturas mundiais, mas enquanto isso, tem gente, inclusive dentro das investigações e dos investigados, que pensa que futebol é só um negócio, ou melhor, só um joguinho.

O mundo sente saudades de ti, Galeano.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

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