Questão de Estado – Por João Gabriel

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Não é pouca coisa.

A semifinal no Itaquerão, o Caldense, o Nordeste ou outros exemplos mostram que os estaduais tem sua importância. Palmeirenses ensurdeceram a vizinhança de perdizes após a defesa de Fernando Prass. Onze guerreiros não se intimidaram frente um Mineirão lotado e, inclusive, jogaram melhor (opinião esta que nem é só minha, é de um atleticano com quem conversei dia desses). Não se pode excluir da conta o trabalho bonito que o canal Esporte Interativo tem feito para o que agora já chamamos de Lampions League, a Copa do Nordeste.

Racionalmente, o único estadual que faz algum sentido é o Paulista, já que existe uma série de times do interior com tradição e até relevância no cenário nacional: apesar de hoje não serem sombra do que já foram, alguns ainda conseguem se manter nas primeiras divisões brasileiras e, vez ou outra, construir um time interessante. O Carioca, apesar de ter tantos (se não mais) times tradicionais como qualquer outro estado brasileiro, vê um passado bonito, mas um presente decadente e um futuro desalentador. Já o Nordeste tem torcidas gigantes e apaixonadas, mas quase nunca times fortes. Minas serve apenas para Cruzeiro e Galo fazerem a final, a não ser vez ou outra que Caldense, Ipatinga ou algum outro é a exceção que confirma a regra e o mesmo pode ser dito do Rio Grande do Sul. É ainda mais difícil defender a existência dos outros estaduais.

Mas ora, qualquer um sabe que futebol é paixão, não razão. Este é o verdadeiro motor deste jogo, não o dinheiro ou os negócios como, cada vez mais, querem fazer ser. Ponte Preta, Guarani, Lusa, Botafogo de Ribeirão, Juventus, Nacional, América, Olaria, Bangu, Volta Redonda, Bom Sucesso… perdoe-me o eixo Rio-São Paulo, mas se só com ele já podemos listar tantas equipes tradicionais, imagine com o Brasil todo? Como deixar isso acabar? Muitos destes times tem apenas os estaduais para disputar e nem assim conseguem pagar as contas. A pura e simples extinção destes campeonatos regionais seria um desastre para o futebol brasileiro, já que este é o verdadeiro celeiro dos craques e, não por menos, temos hoje muito menos craques do que outrora.

Entretanto, é difícil encontrar solução, até Seedorf já tentou. Prolongá-los pelo ano todo? Manteria os clubes em atividade, mas aumentar o número de jogos dos clubes da primeira divisão seria outro crime contra o futebol. Inserir os grandes apenas numa segunda etapa dos estaduais? Talvez funcionasse, mas será que existiria incentivo suficiente para os clubes do interior enquanto isso? Haveria torcida nos estádios? Muito se fala do modelo inglês. Sem dúvida, pode ser o ponto de partida. Com clubes tão tradicionais como os brasileiros (talvez sejam os únicos lugares no mundo com tanta tradição futebolística), são mais de 10 divisões, sendo as quatro primeiras profissionais, as outras mistas, mas todas com público e condições mínimas de jogo. O problema é: só a Premier League já é um Paulistão! São quatro favoritos, mais três fortes com menos chances de títulos, algum em crise e uma ou duas surpresas. Talvez mesclar o modelo inglês com o alemão (veja aqui e aqui), no qual a federação investe pesado em infraestrutura desde a base dos clubes, fornece os árbitros, cria escolinhas de futebol e, como resultado, são campeões aqui no Brasil. Estou aqui para levantar hipóteses, não tenho a intenção (e muito menos o poder) de tomar essa decisão.

São gramados horrendos, estádios ruindo, diretorias ridículas e juízes como o da final paulista (não falo nem de tecnologia, pois esta é outra questão, precisamos apenas de árbitro que expulse o jogador certo!). Isso para não falar de Federações corruptas, deputados da bancada da bola e cartolas que entendem mais de tortura que de futebol. Não sei quem vai ser campeão no domingo, mas seja como for, o futebol no Brasil precisa começar a ser tratado como questão de Estado e isso passa não pela simples extinção dos estaduais, mas pela reestruturação do futebol em âmbito nacional.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

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