Memórias Futebolísticas: Antonio Carlos Meninéa

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Futebol, um ritual de emoção!

MenineaMeninoExistem várias formas de entender nossa paixão pelo futebol. Cada apaixonado pelo esporte bretão tem um motivo especial para explicar essa relação. No meu caso, essa relação com o futebol, se resume em uma só palavra, “emoção”.

Minha relação emocional com o futebol brasileiro começou no ano de 1970, por volta dos meus sete anos de idade. Nessa época, assistir um jogo era o maior barato e o resultado era o que menos importava. Obs: Conforme fui crescendo foi importando.

Para os jogos de domingo a tarde existia todo um ritual que dava início a essa “emoção”.

Logo cedo tomávamos o café e nos dirigíamos para a praia de Copacabana, na altura da Rua Figueiredo Magalhães. Claro, sempre rolava uma bolinha. As traves eram enormes e a areia mole fazia não só com que os pés afundassem, mas também cansava uma barbaridade. Jogar na praia era “flórida”!

Ao término da pelada, esgotados, caíamos no mar para esfriar o corpo e pegar umas ondas (no rio se fala pegar jacaré).

Por volta das 12h30, era o momento de ir para casa almoçar. Por volta das 15h30, no máximo, nos dirigíamos para o ponto de ônibus ao lado do Cemitério São João Batista no bairro de Botafogo, para pegar o famoso 434-Grajaú. Essa linha fazia uma grande volta no centro da cidade, levando aproximadamente 45 minutos para chegar ao Maracanã. Essa demora dentro do ônibus era compensada com a deslumbrante vista do Pão de Açúcar e do Aterro do Flamengo com seus campos de pelada. O busão deixava a gente na cara do gol, bem na estátua do Bellini.

Nesse tempo, torcedores rivais com camisas de seus times compartilhavam do mesmo meio de transporte e não rolava nenhuma violência. Era só batucada e cantoria. Tempos de casa cheia com públicos de, no mínimo, 30 mil pessoas, e isso em jogos contra os chamados pequenos. Quem fosse de arquibancada poderia ir para sua torcida ou então ficar no meio de campo onde as duas torcidas se misturavam, tudo na maior paz.
ArqMaraca
Naquela primeira fase do Maracanã totalmente de concreto, as arquibancadas eram como degraus que iam subindo até chegar à parte mais alta do anel superior. O astro Rei era impiedoso com aqueles que não levassem almofadinhas para sentar, assando, literalmente, os traseiros desavisados.

Comia-se de tudo, sorvetes, amendoins, pipocas, porém, o mais gostoso era comer vários cachorros quentes da “GENEAL”, com suco, refrigerantes ou um mate leão. Tudo era maravilhoso, mas o grande ápice era o intervalo. Ah o intervalo, esse curto período de quinze minutos entre o primeiro e segundo tempo. Descontração e divertimento.
DogGeneal
Nesse momento, tínhamos que fazer tudo correndo, ir ao banheiro, comer, beber e ficar um pouco em pé para darmos um descanso ao concreto escaldante.

Depois de satisfeitas as necessidades básicas, rolava a famosa guerra de copinhos. Aqueles que sentavam na parte mais alta da arquibancada, arremessavam copinhos amassados de mate leão na cabeça dos que estavam mais para baixo. Era uma verdadeira guerra e brincadeira. Recordo que certa vez um torcedor depois de receber vários copinhos na cabeça, levantou, virou para trás e cruzou os braços, encarando para ver quem arremessava os malditos copinhos. Como ninguém jogou mais nada, ele virou e sentou. Não demorou e dezenas de copinhos foram arremessados acertando sua cabeça. Esportivamente, ele levantou e foi para outro lado da arquibancada.

Ao término da partida os torcedores rivais se encontravam ainda lá em cima na descida da rampa, se terminasse empatado ninguém era de ninguém, mas se alguém fosse vencedor, pintava muita cantoria e gritaria na comemoração.

Dessa forma, mais um domingo de futebol chegava ao fim, mas no domingo seguinte teríamos mais futebol e um ritual de emoção! Quanta saudade!

Antonio Carlos Meninéa é flamenguista e carioca, autor do livro “1981, o ano mais feliz de nossa vida rubro-negra”, residente em São Paulo desde 1992. Bacharel em Direito pelo Instituto Universidade Mackenzie e funcionário da Justiça do Trabalho ha 29 anos.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!