Um Brasil Chato – Por João Gabriel

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Vão dizer que sou chato.

O maior pecado do Brasil é não propor o jogo. Foi assim contra a França e mais ainda contra o Chile. Em Paris, enfrentamos uma seleção que valoriza a bola, mas que deixa jogar. Não a toa o jogo foi equilibrado na maior parte do tempo. A seleção de Dunga joga conforme o adversário. Jefferson salvou uma vez, Benzema ajudou em outra, o Brasil atacou apenas porque os franceses permitiram e mesmo assim saiu com três na conta.

Contra o Chile, um desastre. Menos entrosado e com muito menos espaço, o Brasil quase não teve posse de bola, quase não investia no ataque e corria, corria e corria para tentar acompanhar o ritmo dos vigorosos atletas de Jorge Sampaoli. Chilenos não deixaram atacar, brasileiros aceitaram defender. Marcamos em um lance isolado, dos poucos momentos em que houve espaço. O Brasil venceu no jogo e goleou nas faltas cometidas. Perdeu na ofensividade, no número de finalizações e apanhou na posse de bola.

Ao estilo 94, dois fazem a dupla de ataque, enquanto outros nove jogadores devem impedir o gol adversário. É um futebol que não pensa, apenas reage. Sacrifica-se um meio campista para usá-lo de ala esquerdo, como foram Oscar e Phillipe Coutinho. Este segundo pior, pois nada tem para oferecer naquela posição um jogador que gosta de jogar para frente, criando e finalizando. Neymar recebe a bola e não vê ninguém a sua frente para tabelar ou lançar, seus companheiros vem de trás correndo como loucos e suas alternativas são esperar que cheguem ou seguir sem eles. A defesa pouco preocupa, já que é a melhor do mundo. A marcação pressão é mal feita: ao invés de colocar a equipe toda para frente, três ou quatro tentam adiantar-se ao adversário, quase sempre em vão. O drible mais bonito fica com Neymar, o vice com Jefferson e sem terceiro lugar por falta de competidores nesta modalidade.

Como disse Tostão, jogar com duas linhas rígidas de quatro, sem espaço entre elas, sempre foi comum, os ingleses sempre o fizeram, mas agora “virou modernidade”. É nisso que aposta Dunga. Se o adversário permitir, vamos para cima, se não, esperamos o contra-ataque (e cá entre nós, preferimos esta segunda opção). Não é por acaso que esta estratégia é comum: ela dá resultados. Novamente como lembra Tostão, “as estatísticas são essenciais, desde que acompanhadas de rigor crítico”.

O leitor: “Mas estamos invictos, são oito vitórias, seu chato!”. Mas não tenho vontade de ver a seleção, porque nada tem ela de brasileira, exceto lampejos de Neymar ou algum outro que ousa fugir das ordens e atacar. “Jogador bom, agora, não é mais o que desmorona uma defesa com dribles nem o que dá passes decisivos e faz muitos gols. As novas referências são liderança, dedicação, intensidade de jogo, velocidade, dinamismo, várias estatísticas” e viva as palavras de Tostão mais uma vez, este que fazia parte dos que reinventaram o futebol na era Pelé e que agora tem que ver todo seu trabalho esquecido.

Um leitor igualmente chato poderia reclamar que, de tantas aspas que usei, deveria logo ter republicado o artigo do ex-jogador. Pensei nisso, mas o problema é que Tostão não o escreveu para a seleção – na ocasião ele escreve sobre São Paulo e Corinthians. Tantas coincidências são para se pensar; o paralelo ilustra que não só a seleção adota o estilo que agora chamo de arcaico-moderno, mas todo o Brasil, embalado pela “titebilidade” (que tem muitos méritos, assim como Dunga), segue este estilo que já foi superado mais de uma vez na história. Para citar três momentos: o Barcelona de Guardiola, o Brasil de Pelé e a Alemanha que não preciso dizer de quando.

Cada dia mais, 7 a 1 foi pouco.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.