Protestos, Liberdade de Expressão e o Politicamente Correto

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Uma enorme confusão de conceitos e preconceitos toma de assalto o Brasil a cada dia. Sexta-feira passeata a favor de um lado, domingo passeata a favor do outro lado. Todas são válidas. Muitos lutaram e outros tantos lutam diariamente para que tenhamos todos o direito de protestar, de nos manifestarmos seja lá pelo que for. Mas tem que valer para todos e tem que ser passíveis de críticas e é nesse ponto que a coisa começa a ficar confusa.

O humorista faz uma piada preconceituosa; alguém critica e voilà, o sujeito diz que está sendo censurado. Ó raios, liberdade de expressão não vale para todos? Réplica, tréplica, quadréplica e assim por diante. Vale tudo? Vale tudo!
Intolerancia
Se fosse apenas essa confusão estaria quase tudo resolvido; a pior é achar que essa liberdade de expressão é um salvo-conduto para tirar as consequências de sua manifestação. Vejamos, o sujeito pode ofender os nordestinos por conta de serem nordestinos? Pode, muitos inclusive o fazem. No entanto, a lei prevê multa, prisão etc. etc. etc.. Rico pode bater panela contra o político A ou B? Pode! Pobre pode ser desinteressado em política? Pode, ainda que seja um tremendo gol contra. Pode xingar o político disso ou daquilo? Pode! É uma tremenda falta de educação e diz mais sobre quem xinga do que sobre o tal político, mas pode. Pode também ser enquadrado como injúria, calúnia, difamação. Você pode se manifestar como quiser e o outro pode também.

Se pode protestar, pode chamar de coxinha, de esquerda caviar, de direita mortadela, não é patrulhamento, é liberdade de expressão. Os limites são impostos pela educação, pelas leis e pelo bom senso, que é onde sempre estão os maiores problemas.

É justamente a falta de bom senso que faz com que surjam o Dia do Orgulho Hétero ou a camisa com o “100% Branco”, que jogam a história no lixo e ignoram totalmente o contexto de discriminação e desigualdade. Falta total de noção e de auto-confiança.
Inconveniente

POLITICAMENTE CORRETO

Ia correndo a aula sobre ética e legislação publicitária e inevitavelmente caímos naqueles anúncios racistas “sem querer” e outros, de cerveja, que mostram mulheres seminuas quando uma aluna meio comentou/meio perguntou: “Professor, o mundo não está ficando muito chato com essa coisa do politicamente correto? Não se pode mais brincar, fazer piada…”. O assunto é perigoso, mas achei que a discussão era válida. Disse que entendia o sentimento dela, mas que do alto da minha brancura, quase transparência, nunca tinha sido parado pela polícia para qualquer “averiguação”, pelo contrário, certa feita policiais entraram num ônibus em que eu estava e foram pedindo para algumas pessoas descerem: todos eram homens e negros. Perguntei ao PM o que havia ocorrido, se estavam procurando algum suspeito específico e “NÃO!”, era apenas uma operação rotineira, para ver se encontram algo de errado. Eu não podia ter feito algo de errado? Acrescentei que nunca tinha visto meu pai ser humilhado em qualquer situação por causa da cor da sua pele; que nunca tinha perdido uma vaga de emprego por ser negro; que meus avós não me contavam histórias chocantes sobre racismo e escravidão. Quando ouço uma piada sobre negros, pessoalmente é apenas uma piada, não um estigma.

Também nunca corri o risco de apanhar na rua por ser gay ou em casa por ser mulher, fora as vagas de empregos, as histórias humilhantes, o salário desigual, nada. Minha condição de homem, hétero, branco, me garante uma quase “imunidade” para esse tipo de situação. Eu não tenho condições de avaliar o que essas pessoas sentem diariamente. Pode ser piada para quem faz, mas não é para quem ouve.

Quando um humorista chama o torcedor do São Paulo de bambi, o do Corinthians de maloqueiro, o do Flamengo de favelado, brinca sobre “loiras burras” ou homossexuais, faz piada chamando negros de macacos e todo o resto do arsenal do Capitão do mato do humor, certamente vai encontrar quem dê risada e talvez até ganhe um talk-show em alguma emissora por aí, mas no fundo ele mesmo sabe que é uma farsa. Quando nós reproduzimos esse comportamento, pode até ter sido apenas com a intenção de brincar, mas estamos carregando junto séculos de opressão e uma carga pesada para quem vive sendo discriminado.
DaniloKingKong
É uma tolice imaginar que somente negros podem ser contra o racismo, pobres contra a pobreza, mulheres contra o machismo; qualquer um com um pouco de empatia e humanidade vai se incomodar com essas situações.

Voltamos a pergunta original, pode? Pode! É sem graça, o pior castigo para um “humorista”, mas pode. É raso e você pode mais; pode esperar o que Henfil esperava “o verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”.

Talvez seja mais difícil, mas acredite, é possível.

O Riso dos Outros

6 COMENTÁRIOS

  1. Politicamente correto é uma coisa tão chata. antigamente fazia se piada sobre qualquer assunto e as pessoas riam, hoje o patrulhamento de tudo torna a vida tão chata. Rir vai ser proibido daqui a alguns anos.
    Parece que ser rico e se manifestar contra politico é crime, como se o fato de ser rico fosse a pessoa ser criminosa. Só aqui mesmo no Brasil, parece que todo mundo tem que ser pobre para depender do estado como uma mãe.
    E como rico rouba tambem pobre rouba, mas é um tratamento desigual. Pobre que rouba tambem tem que ir preso, assim como o rico. A esquerda acha lindo criticar os outros mas quando recebe criticas fica toda com raiva, enfezada, alias hoje estamos assim nessa ”guerra” de uns contra os outros, pois este governo que aí esta é que induziu a isso, joga ricos contra pobres, gays contra heteros, negros contra brancos. Pena que poucos enxergam isso.

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