Pátria de Metonímias

0
706

“A mão que toca um violão / Se for preciso faz a guerra”, da música Viola Enluarada, de Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle foi o ponto de partida para que minha saudosa professora Cecília, de língua portuguesa, explicasse o que era uma metonímia.

A metonímia consiste no uso de um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de contiguidade. Em linguagem mais simples, “a parte pelo todo”, o que explica o verso que enaltece “a mão” pela música e a recrimina pela guerra. Quando utilizada com sensibilidade, a metonímia representa uma das mais poderosas figuras de linguagem, recurso estilístico para valorizar o texto. Se é virtuosa na literatura, na música e nas artes de modo geral, não tem o mesmo valor no futebol.

Pois estamos justamente observando o surgimento do futebol metonímia. Vejamos exemplos recentes, Palmeiras e Corinthians tem entre seus milhões de torcedores algumas centenas de bandidos disfarçados de torcida organizada, que brigam nos estádios e nas ruas, causam prejuízos, geram violência e morte. O que propõe os dirigentes e “autoridades competentes”? Punir os poucos marginais? Não, metonimicamente, sugerem realizar um jogo com torcida única.

PatriaChuteiras
Alguns torcedores da Ponte Preta brigaram com policiais na 35ª rodada da Série B, em 2014. Punir os infratores? Que nada, o Superior Tribunal Desportivo (STD) decidiu que o time de Campinas terá que jogar duas rodadas com os portões fechados, sem torcida. Solução similar a aplicada pela Conmebol na última semana contra o San Lorenzo, da Argentina, na partida contra o Corinthians, pela Libertadores.

Como se vê, o fato não ocorre só no Brasil e tampouco rola só no futebol, ainda que por aqui a generalização seja mais forte. Alguns políticos roubam e dizemos que nenhum presta; algo dá errado em nossos estádios e os vira-latas dizem “só no Brasil”, e assim, pouco a pouco, a Pátria de Chuteiras vai se transformando na Pátria de Metonímias.

Imagem: Blog do Rodrigo Mendes – Site NetFlu