O Futebol de Várzea e a especulação imobiliária

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O Futebol de Várzea e a especulação imobiliária – Por Giva

Sempre fui um perna de pau. A pelota nunca foi minha amiga, o estranhamento quando ela rolava em minha frente era total. Talvez por isso, quando eu praticava esporte coletivo, depois de tentar a sorte jogando bola, me animava mais com os esportes de bola na mão: voley e hand. Mesmo assim, claro que tenho as minhas memórias de quando joguei futebol, que estão intrinsecamente ligadas a várzea, seja em minha cidade de origem (Catende/PE), ou na cidade do meu exílio (São Paulo/SP).

Claro que a minha entrada nos times só acontecia – como acontece com todo perna de pau – porque eu era o dono da bola, para desespero dos times em que eu jogava. Mas depois alcancei alguma racionalidade e assumi um lugar menos vexatório, o gol; entre as duas barras até que não fazia tão feio, quando estava inspirado.

Em Catende, lembro que o campo disputava com os circos. A alegria momentânea com a chegada dos palhaços nos tirava o melhor campo de várzea, que ficava entre todos os bairros e era ocupado a todo momento pela molecada. Era lá que se formavam os times dos diversos bairros ou escolas. Lá dificilmente acontecia alguma briga, e se ocorresse era logo esquecida.

Quando cheguei em São Paulo fui morar no Jardim São Luiz, zona sul de São Paulo, na porta de entrada do bairro haviam uns 5 campos de várzea que ladeavam a Ponte João Dias, e lá estavam, aos domingos, os melhores boleiros da várzea. Dentre eles Cafu, o Cafuringa, que inclusive se tornou campeão mundial em 1994 e 2002 pela seleção brasileira, capitão do segundo título que participou. Ao erguer o caneco durante a celebração da vitória, Cafu lembrou a sua origem quando levantou a camiseta e, por baixo, tinha uma homenagem ao Jardim Irene (100% Irene), seu bairro de origem. Assim homenageou a periferia brasileira afirmando a sua identidade com o povo, e a quebrada toda se identificou com aquele gesto.
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No Jardim São Luiz havia diversos campos de várzea, os do Jardim Ibirapuera, do Parque Santo Antônio, do Jardim Fim de Semana, o que não faltava eram espaços de lazer e sociabilidade. Claro que algumas pendengas eram resolvidas de uma forma não muito ortodoxa e era possível ouvir alguns tiros e correrias nesses campos mas, por incrível que pareça, naquelas bandas nunca ouvi relato de mortes em decorrência de disputas mal resolvidas, as quais eram sempre colocadas nas costas dos juízes e suas inocentes mães.

Eu jogava em um campinho dos pernas de pau, perto da minha casa. Ali jogavam os moleques que não tinham chance alguma nos campos de destaque da região. Não havia nenhuma cobrança para jogar, em alguns deles tinha no máximo um vestiário bem precário, uma barraquinha que vendia churrasquinho e cerveja (fundamental), era esta infra que dava conta de garantir a alegria da rapaziada e das moças.

Desde que cheguei no São Luiz, sabia que o cartão postal do bairro (os campos da entrada) estava ameaçado por outro cartão postal, que não havia sido construído pela alegria popular e sim pela exploração da mão de obra e do sangue de muitos trabalhadores, que foi o centro empresarial de São Paulo (1977). Este ameaçava o ingênuo aglomerado urbano do outro lado do rio, que havia se estabelecido pela necessidade do povo e que foi sendo expulso dos centros urbanos para ocupar o que lhe havia destinado o capital. Numa sociedade capitalista, na qual o que vale é o lucro, o setor imobiliário e o capital financeiro tinham um outro plano para aquele lugar*, que antes não tinha nenhuma serventia, até que por ali se instalassem escolas, creches, hospitais, postos de saúde, asfalto, água, luz. Toda essa estrutura, fruto da luta dos que desbravaram o território. atendia ao interesse de expansão e exploração do capital.
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Não demorou muito, o primeiro a sucumbir foi o campinho dos pernas de pau. Em pouco tempo foram colocadas estacas, e o concreto redesenhou aquele pedaço de chão, dando início a um processo de verticalização, que ocorreu com menos ou mais velocidade, dependendo da conjuntura e da necessidade do capital.

O foco então se voltou para os campos da entrada do bairro, que não conseguiram conter a pressão e logo cederam a um supermercado que, de uma tacada só, levou mais de dois campos. Daí por diante vimos sumir esses espaços de alegria dos boleiros e de sonhos de muito guris.

Desde a década de 70, o plano de expansão empresarial para toda extensão da Marginal Pinheiros era previsto, portanto, a região já estava demarcada pelo capital e sem espaço para expressão de humanidade.

Aos poucos, foram surgindo os espaços fechados, inclusive espaços públicos tarifados, que mercantilizaram a relação espontânea existente, passando esta relação a ser mediada pelo capital: quem tem mais pode ocupar os melhores campos, quem tem menos paga para utilizar os poucos espaços públicos. Os boleiros passam a ser vítimas das falcatruas de políticos de ocasião e de empresários, que investem fortunas e querem o retorno fácil e rápido.

Essa é uma realidade vivida por toda São Paulo com o futebol de várzea e, imagino, por todos os municípios médios e grandes pelo Brasil, pois foi onde as empreiteiras desenharam seus projetos de cidade que rasgam o céu, asfaltam as cidades, cobrem os rios e impedem que, em pequenos espaços, a sociabilidade aconteça sem a mediação do capital, e que ocorra apesar do capital!

* Construir, na extensão da marginal que vai da Faria Lima até próximo ao Socorro, a nova Avenida Paulista, centro financeiro da cidade e do país.

Givanildo M. da Silva-Giva, militante do Tribunal Popular, Comitê pela Desmilitarização da Policia e da Política, Terra Livre e Amparar

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

Nota do blog: as fotos que compõem essa nota são de Renato Stockler e fazem parte de uma série chamada “Terrão de Cima”. Para conhecer as outras fotos, acesse https://www.behance.net/gallery/17741935/Terrao-de-Cima-Ground-from-above

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o artigo. Conteúdo de qualidade mesmo. Nunca tinha pensado por essa perspectiva. Eu atuo como corretor de imóveis na minha região. Por aqui não temos esse tipo de questão para debate, pois ainda temos muito espaço livre para crescimento da cidade. Porém sempre gosto de acompanhar a perspectiva do que está acontecendo m outras regiões do Brasil também. Parabéns pelo conteúdo.

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