Memórias Futebolísticas – José Renato Sátiro Santiago

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Um dia de olé, “caiduro” e Tiquinho

Um cearense nascido em São Paulo, assim me defino.

Uma vez que filho de gata que deu cria dentro de um fogão, é gato e não biscoito, soualencarino.

Minha avó nasceu na capital cearense, já como torcedora do Fortaleza pelo fato de seu tio, Alcides Santos ter sido um dos fundadores do clube das cores da bandeira da França, onde ele teve a oportunidade de estudar.

Meu avô veio do interior, de Russas, já torcedor do maior dos alvinegros, o Ceará Sporting Club, o time das melhores campanhas, como diz seu hino.

Na batalha entre avós, me tornei Vozão dentro de uma família predominantemente tricolor.

Eu e meu avô garantimos a qualidade, os demais, a quantidade.

Desde sempre passava minhas férias em Fortaleza.

Na verdade, melhor falar, na Capital do Ceará, mais do que uma questão de semântica, uma evidência de boa educação.

Em 1987, esta torcida se tornou mais solitária para mim.

Meu avô aceitou a chamada de Deus e partiu para o andar de cima.

O começo do ano de 1988 marcaria minhas primeiras férias sem a presença dele fisicamente.

Marcante.

E foi com este espirito que pela primeira vez fui assistir ao jogo do Vozão em seu campo, o “estádio” Carlos de Alencar Pinto.

Uma experiência nova, pois o Ceará não costumava utilizar seu campo, localizado nos fundos de sua sede, na Rua João Pessoa, para os seus jogos.

A partida amistosa seria contra um tradicional freguês, a equipe do Tiradentes, que era gerida pelo Polícia Militar do Estado.

Tendo em vista atrair torcida, a diretoria alvinegra resolveu divulgar que estaria inaugurando seu novo gramado.

Ainda assim, pensei que seria um jogo tranquilo para assistir.

Peguei o ônibus, vazio, na Rua São Lázaro, a frente da casa da minha avó.

Quando chegou do terceiro ponto, na Parangaba, o ônibus já estava lotado de torcedores alvinegros.

Seria um longo dia, que só estava começando.

Em uma viagem que me propiciou conhecer o que uma sardinha sente em sua lata, cheguei completamente amassado ao estádio.

O jogo teria portões abertos, o que serviu para explicar o porquê de haver tanta gente em um amistoso no meio da semana, à tarde.

Comprei meu “caiduro” (sanduiche com carne moída de origem desconhecida) e fui para a arquibancada.

Na verdade um espaço onde quase 5.000 pessoas se amontavam.

O gramado estava bonito, embora não entendesse o motivo das áreas próximas aos goleiros estarem cobertas com um plástico preto rs rs..

Com as duas equipes já em campo, o arbitro dá o apito inicial.

Um sinal para que todos os presentes se levantassem e passassem a assistir ao jogo de pé.

A proximidade do campo tornava isso obrigatório.

Sob um sol escaldante, no meio de um mar de gente e sob efeito do “caiduro”, assisti o Vozão levar um olé do tradicional freguês, 1 a 3.

A primeira derrota que presenciei do meu alvinegro de coração.

Menos mal que meu avô tenha sido poupado disso.

Ao sair do estádio, vejo um moreninho completamente embriagado causando o maior “auê”.

Tratava-se de Tiquinho, atacante do Vozão, autor do gol do tetracampeonato cearense, dez anos antes, em 1978.

Um dos meus maiores ídolos estava ali na minha frente plenamente entregue, esta sim a minha maior derrota naquele dia.

O ano de 1988 seria difícil para a equipe mais vezes campeã cearense.

Sequer conseguimos chegar as finais do campeonato estadual.

Tivemos que assistir o Tricolor da minha avó, o Fortaleza, o tricolor do meu pai, o Ferroviário e o freguês, Tiradentes decidirem a competição.

Quem ganhou?

Sabe que não me lembro.

José Renato Sátiro Santiago é engenheiro, historiador e autor de livros sobre futebol, dono do maior acervo de memorabilia esportiva do mundo, segundo o livro dos recordes, o Guiness World Records.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!