Garrincha, o Fulni­ô boleiro

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“Um deus nos estádios
Abrindo as retrancas,
Um desengonçado
Que as redes balança.”

Flecha Fulniô

Antonio Nóbrega

Não vi Garrincha jogar em campo, mas sinto uma saudade imensa do seu futebol. Tenho pensado muito naquelas imagens do passado que ainda vejo do Garrincha: seus dribles impagáveis, suas deliciosas histórias e feitos, sempre lembrado por cronistas esportivos, essa saudade da nossa bela arte exercida por um de nossos maiores mestres.

Fato pouco divulgado é que o chamado “anjo torto”, era indígena, o que talvez explique parte da sua não adaptação a essa sociedade, que já exigia que os jogadores seguissem os padrões do enquadramento social.

Não só não suportavam a beleza dos dribles daquele “irresponsável”, que fazia escolhas que escandalizava a moral da época, mas se impunha as impossibilidades, vencendo jogos, campeonatos e copas do mundo.

Nunca a vida pessoal de um jogador teve seus passos tão acompanhados e controlados, como a do Garrincha, principalmente o barulho que foi feito em torno da relação dele com a negra Elza Soares, que diferente de outros famosos jogadores, que preferia negar a sua origem étnica, Garrincha em sua atitude fez questão de afirmar a fundamental aliança entre os indígenas e negros e negras.
GarrinchaFulnio
Os anos da Era pós-garrincha, caracterizada pela a espontaneidade e naturalidade que se impunha pela intuição, que aos nossos olhos era pura magia, foram dando lugar a racionalidade cartesiana, assumindo papel central no futebol, passando a desembelezar aquela plasticidade que nos seduziu e plantou quase que de forma definitiva em nossas almas a paixão pelo esporte bretão.

Vi poucos jogadores que me encantaram tanto quanto Garrincha, mas, alguns times coletivamente, foram tatuados na minha memória. Casos como da Seleção Brasileira de 82 e na mesma época, o ousado e revolucionário time da Democracia Corinthiana, que nos presenteou com um dos mais esperançosos jogadores, Dr. Sócrates.

Mas, o que de fato sempre me preocupou é a dificuldade de outros jogadores assumirem a sua identidade indígena, pois poucos foram aqueles que se identificaram como tal. Não é de estranhar que em uma cultura genocida e de etnocídio, como é a de referência eurocêntrica (e que, infelizmente, compõe a nossa cultura), tem no processo de negar a identidade uma forma de proteção, com a criminosa ajuda da mídia, que invisibiliza os jogadores indígenas (etnocídio), assumindo aquilo que a ditadura na figura do ministro Mario Andreazza manifestou enquanto desejo do regime, que na década de 80 defendia que não mais teria indígena no Brasil.

Claro que esse não é um desejo só dos governos da Ditadura ­Militar, na verdade é um projeto de Estado de continuidade, que rouba as terras, mata, violenta as mulheres, criminaliza, controla e principalmente impõe medo àqueles que vivem e viveram essa situação e muitos se protegem negando a sua identidade, o que facilita definir que os “pardos” que deslizam pelos gramados, são negros e não indígenas.

Esse momento tem aumentado ainda mais a ameaça contra os povos originários, portanto a importância da afirmação identitária, sem medo, assim como preconiza a Convenção 169, é fundamental para fortalecer a luta dos povos indígenas, que tem sido atacado no Congresso Nacional conservador, que prega o ódio aos indígenas, ou seja a nós mesmos, com a aprovação da PEC 215*.

Até o seu fim, Garrincha viveu livre e preso em uma sociedade em que nos ensina a negar, ter medo e em muitos casos a odiar a nossa origem, que não admite que somos um país, também majoritariamente indígena, quando muito o que se admite é a folclorização e caricaturização dos povos indígenas, querendo nos enjaular em um zoológico ou em campos de concentração, que são as reservas.

Por isso é necessário, que tenhamos mais Garrinchas, altivos, guerreiros, criativos, brilhando nos campos, não tendo medo de assumir sua história e identidade, lembrando que “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro”, que nos garante vislumbrar belos e surpreendentes espetáculos, em que os jogadores e jogadoras, se orgulham de suas histórias de luta e resistência para construir uma sociedade justa e livre.

* A PEC 215 é uma proposta a ser inserida na Constituição Federal garantindo ao Legislativo (Congresso BBB da Bala, Boi e Bíblia) o direito de rever as demarcações de áreas indígenas, da mesma forma com que se revê a demarcação de áreas de proteção ambiental ou de qualquer projeto de lei.

Givanildo M. da Silva-Giva, militante do Tribunal Popular, Comitê pela Desmilitarização da Policia e da Política, Terra Livre e Amparar

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