Bola Apaixonada – Um romance do futuro – Por Ricardo Roca

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Depois de décadas de estudos, finalmente a Inteligência Artificial (IA) chegava ao futebol; a bola passava a ter um chip embutido capaz de fazê-la aprender e melhorar sua performance a partir de suas próprias experiências. A Pilkon2235 sabia, por exemplo, reconhecer sozinha as condições climáticas, temperatura e umidade relativa do ar, ajustando automaticamente sua pressão ou ainda armazenar informações sobre o estado dos gramados das diferentes arenas (a palavra estádio havia deixado definitivamente de ser utilizada alguns anos antes) para adequar-se aos buracos no campo e as falhas que ainda existiam.

Os pesquisadores definem inteligência artificial como um “sistema” capaz de dotar um objeto com uma espécie de software para que “perceba” seu ambiente e tome atitudes que maximizem suas chances de sucesso. Em outras palavras o objeto, dotado de Inteligência Artificial (IA) era capaz de aprender com o ambiente e com suas interações com os seres humanos.
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A cada nova partida, a Pilkon adquiria mais informações e conhecimentos sobre a prática do futebol. Pouco a pouco ela ia reconhecendo os diferentes estilos de arbitragem, as cores dos uniformes, os cantos das torcidas, o tipo de chuteira dos jogadores… e, sozinha, melhorava sua performance. O trabalho dos árbitros ficava mais fácil a cada jogo, já que a própria bola avisava quando ultrapassava os limites do campo, quando havia algum jogador impedido ou contundido e até mesmo se havia sido tocada com a mão (exceto goleiros, arremessos laterais ou quando o jogo estivesse paralisado).

A crônica esportiva de um modo geral era unânime em apontar que a qualidade técnica dos jogadores continuava a diminuir. Os pernas-de-pau eram maioria e os craques cada vez mais raros. E foi num jogo quase sem importância em que um dos últimos craques do país atuou e tudo começou. Jogavam aurinegros e rubroanis e entre tantos pés, Tuza recebeu um passe, rapidamente limpou a jogada e fez o lançamento. Foram poucos segundos, mas a maltratada Pilkon “sentiu” algo.

Pouco a pouco, jogo a jogo, a sintonia aumentava. Em retribuição ao tratamento que recebia do craque, a apaixonada bola ajustava sua própria trajetória nos chutes de Tuza para que os goleiros não a alcançassem, quicava na frente dos zagueiros para que pudesse ficar mais perto e por mais tempo junto de seu amado, colocava-se um pouco mais “pra lá” ou “pra cá”, criando ângulos que forçavam outros jogadores a tocá-la para “ele”. Sua paixão ia mudando o destino dos jogos, do campeonato e do craque. Ela o amava em silêncio, sem que ele soubesse dos sacrifícios de sua amada.
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Só que a medida que ela o ajudava, ele se afastava. Não, não era algo proposital ou porque ele não a amasse mais, apenas resultado natural do assédio que recebia de torcedores e da imprensa após cada partida. Desde pequeno, Tuza amava a bola, brincava com ela, sonhava com ela, dormia com ela e agora, sobrava pouco tempo para sua verdadeira paixão. A Pilkon foi ficando angustiada, confusa, dividida. Uma verdadeira bola dividida, que decidiu que precisava fazer algo.

No dia da final do campeonato, lá estavam eles, o craque, a bola, os pernas-de-pau, torcedores, jornalistas. Enquanto não sabia o que fazer, a Pilkon manteve-se “neutra”, sem se mexer para favorecer seu craque. No intervalo da partida, com o placar apontando 0 x 0, na saída do campo, ela ouviu que dirigentes do futebol da Oceania, a nova meca do futebol mundial estavam na Arena para observar e contratar Tuza. E tomou sua decisão.

Ao longo de todo o segundo tempo ela fez de tudo para manter-se distante do craque; mais que isso, quando a aproximação foi inevitável, criou toda sorte de dificuldades para ele, que acabou tendo uma das piores atuações de sua carreira. O golpe final veio aos 42 minutos do segundo tempo, quando em contra-ataque rápido foi levantada na área em direção ao seu amor. Em condições normais, o craque poderia escolher entre dominar com carinho, fintar o goleiro e fazer o gol ou bater de primeira, estufando a rede. Mas o que não houve foi a tal da “condição normal”; Pilkon mudou sua trajetória em alguns centímetros e acelerou um pouco sua chegada aos pés do craque.

Desencontro! Tuza furou, como ainda se dizia quando o jogador não acerta na bola. No minuto seguinte, a Pilkon se ofereceu a Leôncio, centroavante do time rival, que, de canela, a empurrou para as redes.

O jogo acabou, o time do craque perdeu o campeonato e todo os olhares foram para Leôncio.

Alguém pode imaginar que estamos diante de um caso de traição ou de um triângulo amoroso. Engano. Tuza, aborrecido com o resultado e com sua atuação, fez a única coisa que um amante do futebol faria. Caminhou em direção a bola, pegou-a com carinho e levou-a pra casa.

#futeboleliteratura

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