Torcida e Criminalização do Povo

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Torcida e Criminalização do Povo – Por Giva

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”
Bertolt Brecht

Volto a esse espaço pretendendo que a minha colaboração seja mais permanente. Não posso me reivindicar um especialista sobre o tema, como o meu amigo Ricardo Roca, mas a minha vontade de palpitar em questões sobre futebol – sem ter que me preocupar com a história, as táticas ou estatísticas do futebol, e nem mesmo me preocupar como conhecedor dos jogadores dos times (inclusive do meu – o Corinthians) – me faz retornar a escrever apenas como alguém que gosta deste esporte, do bom futebol, claro! Digo do “bom futebol” pois há coisas que nem com toda passividade do mundo é possível achar bonito ou não ter nenhuma autocritica, como foi o caso do 7×1 que a seleção brasileira sofreu da Alemanha na Copa de 2014.

Sei que o desastre naquele 8 de julho, no estádio do Mineirão, marcou em definitivo a história do futebol brasileiro, assim como os 2×1 sofridos do Uruguai na copa de 1950, no Maracanã que, até hoje, mesmo sem muitos de nós termos vivenciado, lembramos dolorosamente. Imaginem o sofrimento que as futuras gerações, que nem saberão quem eram os jogadores da atualidade, ou mesmo o que acontecia no Brasil e o quanto custou a copa de 2014, sofrerão ao lembrar dessa histórica goleada.

Essa goleada não aconteceu naqueles 90 minutos. A derrota do Brasil já vinha e vem acontecendo há muito tempo: desde os calendários mal organizados, a evasão de recursos de vendas de jogadores, as eternas dívidas previdenciárias dos clubes, o processo crescente de mercantilização do futebol e o estimulo à violência por partes dos clubes e das “autoridades”.

É necessário afirmarmos que não é possível naturalizar a violência nos campos e jogar sobre a torcida a responsabilidade de algo que teve início exatamente com a ação dos times, ocorrido desde 1950, quando depois da inauguração do Maracanã foi dado o direito ao campeão do ano anterior – Vasco – a escolher o lado da sua torcida, que passou a ser quase uma regra de ter uma parte destinada a ela, que não era com o rigor de hoje, havendo então espaços comuns para os amigos e amigas de times rivais que desejassem assistir a um jogo juntos. Quero acreditar que essa ação era uma tática dos clubes, era também uma tática de pressão contra o time adversário, que no primeiro tempo a sua torcida o incentivava na busca do gol e no segundo tempo, pressionava o adversário atrás do gol.

Essa ação “ingênua”, ao longo do tempo, desencadeou um processo de rivalidade com a qual os clubes e as “autoridades” pouco se importaram, nem ao menos reviram a sua decisão equivocada que foi a separação das torcidas, impedindo que pessoas queridas frequentassem juntos os estádios. Esta separação gerou uma escalada de violência e ódio, ao critério, na década de 90 a separação total entre torcidas aconteceu, expulsando ainda mais torcedores dos estádios.

Agora, diante da escalada da violência nos estádios, novamente segue-se o caminho mais “fácil”: criminalizar a torcida. Uma ação política, cujo objetivo concreto é afastar os pobres dos estádios, assunto do qual tratarei em outro artigo. Este caminho “fácil” aparentemente resolverá os problemas da violência, mas é uma tentativa clara de dizer que é um momento diferenciado, que está apartado da sociedade aquele momento, em que 22 homens perseguem a redonda para consagrá-la entre as redes.

TimeUnico
O Estado e clubes se negam, fecham os olhos para o fato do Brasil matar 57 mil pessoas (mapa da violência 2013), em sua maioria jovens, que provavelmente muitos são torcedores e estão nas diversas torcidas espalhadas pelo Brasil. Isso nos coloca na condição de matar mais do que 12 países em guerra no mundo. Logo, circunscrever a violência que ocorre no país aos estádios é negar a tragédia que acontece diariamente nos bairros do Brasil, em que o estado só encontra resposta a violência com mais violência, e já demonstrando a sua ineficiência, pois, ano à ano esse quadro só piora.

É fácil atribuir a culpa de tudo àqueles que tem no futebol uma das suas únicas possibilidades de espaço e lazer frente a uma sociedade que massacra e oprime diariamente, desde o momento que acordamos, ao pegarmos o ônibus ou em longas e precarizadas jornadas de trabalho.

Não se faz uma profunda reflexão sobre o processo sócio-histórico e nem mesmo busca-se soluções que alterem a cultura da violência construída, propondo ações que levem a uma outro tipo de sociabilidade nos estádios. Evidentemente que essa disputa pela ampliação da criminalização cumprirá o papel que atende aos interesses de um pequeno grupo, que quer ver afastados dos estádios-shoppings aqueles que sempre foram jogados a margem da sociedade, que em sua maioria são negros, indígenas e deserdados de toda sorte.

Givanildo M. da Silva-Giva, militante do Tribunal Popular, Comitê pela Desmilitarização da Policia e da Política, Terra Livre e Amparar

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