Clichê – Por João Gabriel

0
484

Quando estreei no Futebol-Arte, ainda nem existia 7 a 1.

O ser humano tem o costume de marcar seu tempo em repetições cíclicas. Desde as colheitas, as chuvas, as estações, até o calendário romano, os aniversários, os feriados. Desta forma conseguimos lembrar o passado, parecemos saber o futuro e a nossa vida gira em ritmo de céu, de estrela, de planeta, de roda, ou melhor, de bola. Não a toa de bola, a invenção que supera em muito a roda, este utensílio que alguns dizem revolucionar a humanidade quando apenas faz o que a bola já fazia e pior, com a limitação da única direção.

Em Janeiro anterior, quatro estações e um mês atrás do presente momento, este que vos escreve publicava seu primeiro texto no blog Futebol-Arte a convite de Ricardo Roca, ao qual os agradecimentos serão sempre insuficientes e, por isso, também sempre necessários. Começamos discutindo o cuju e o kemari, o nascimento da peleja, passamos pelos povos pré-colombianos e seu jogo dizimado pelos colonizadores, percorremos todos os dribles, os gols e os impedimentos da bola até chegar aqui ou no futuro, com este texto já publicado e vossa excelência já o lendo.

A cada ciclo completo temos o hábito da recordação (hábito este que por vezes nos falta em momentos outros). Com um ano completo de parceria, não haveria como este texto escapar do clichê de fazê-lo. Contudo, não escrevo este em Janeiro (o aniversário de um ano), mas em Fevereiro, já passado o tempo necessário para a razão analítica superar a emoção precipitada.

Desde o primeiro toque da tabela, passaram-se textos, alguns calafrios, prazos apertados (e até esquecidos), mas de mês em mês sempre recebi a bola de volta. A camisa pesa, a pressão da torcida é sempre grande, no domínio a bola é pedra. Consegui, contudo, tocar de volta e, sob a batuta do professor Roca, sempre tive espaço no time. Tanto que na Copa – o mais importante de todos os ciclos – fui convocado para integrar o escrete do Futebol-Arte, uma honra.

Tão grande honra (e Copa), que merece destaque maior. O chocolate Holandês, a eliminação da campeã, Costa Rica bicho-papão, Suárez comendo a bola, os guerreiros argelinos, os incríveis colombianos, los hinchas hermanos… São tantos momentos inesquecíveis que até não lembramos de alguns. De muitos, há apenas um eterno. Começamos duvidando do campo e acreditando no time; terminamos em excelente gramado, mas com nosso canarinho manco. Não há como negar que o amarelo de nosso manto precisará de excelente lavagem para limpar a mancha histórica que foram os sete tentos germânicos que quase furaram as redes então novas do Mineirão. Humilhação sem par na história da seleção, o 7 a 1 foi a marca da Alemanha, que juntou-se ao Brasil como únicos países a vencer um mundial fora de seu continente. Mas ah, que saudade da Copa!

Tendo dito o passado e tendo escrito o presente finalizo este texto clichê com outro clichê, a previsão. Ao prever o ser humano (ou neste caso eu e meu umbigo) se sente mais poderoso, sabedor do futuro e capaz de planejar com precisão, quando na verdade é tudo mentira. Mesmo assim, as expectativas são de mudança no futebol brasileiro, da preparação para as Olimpíadas (e o medo de um vexame nacional). Principalmente, a expectativa maior é para a próxima Copa e, antes, para o próximo texto.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.