Minas – Por João Gabriel

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Os mineiros talvez nunca imaginassem.

A festa era sempre dividida, causava um certo constrangimento em alguns. Famílias inteiras chegavam no fim do ano em clima tenso: uns eram só festa no natal, outros só ressaca. Em 1971 os alvinegros festejaram sozinhos a conquista da nação e em 2013 tomaram as Américas. A raposa já conhecera os quatro cantos americanos em duas oportunidades, 1976 e 97, e o Brasil já fora presa cruzeirense em 1966, 2003 e 2013. E o mundo continuava girando, as piadas continuavam rindo, os copos de cerveja tombando e a bola rolando. Estavam todos acostumados com a lei de que era impossível agradar a todos, afinal o futebol é injusto mesmo.

Tudo isso antes de 2014, o ano das delações premiadas. Talvez o ano com maior número de mortes notáveis, sendo a mais recente delas, Chaves, passando por Manoel de Barros, Luciano do Valle e lembrando que Pelé vai escapando por pouco. Foi também o ano de uma senhora Copa do Mundo, da Flalemanha (apelido que se mostrou mais preciso a cada vitória dos germânicos de samba no pé), do Mineirazzo (ai que dor), da Costa Rica, da Argélia e da Colombia, seleções que dificilmente esqueceremos (ai que saudade). O ano mais longo da história de todos anos teve tempo até para eleições, em dois turnos, e mais uma vez se viu a regra sendo cumprida: 51,64% dos que votaram ficaram contentes com a vitória da presidenta atleticana, o resto estarreceu a derrota do candidato cruzeirense. Vale lembrar ainda que o ano começou com protestos contra a Copa das elites e termina com essa elite enlouquecida pedindo para voltar 50 anos no tempo, porque pobre não devia nem poder ir no estádio, quanto mais andar de avião!

Mas Minas Gerais, este estado grande, o Minas e o Gerais de Milton (mais uma vez observamos a regra das metades sendo cumprida), resolveu que era hora de mudar, afinal regras foram feitas para serem quebradas. De agora em diante, ou pelo menos até o próximo clássico lotar o Mineirão e dividir Belo Horizonte, Minas festeja sublime e absoluta. Não há mineiro, a não ser o torcedor do América, que ande cabisbaixo. É algo inédito, de repente os dois venceram juntos mesmo jogando um contra o outro. Não amigos, Minas acaba de nos ensinar que para um vencer o outro não necessita sucumbir, distribua a eles uma Copa do Brasil e um Brasileirão que os dois saem felizes e classificados pra Libertadores!
Galo_Raposa
A raposa teve a difícil missão do bicampeonato nacional. Se viu ameaçada pelo São Paulo, mas continuou forte liderando quase o torneio inteiro. Um trabalho excelente de Marcelo Oliveira, o qual o sucesso de 2013 não subiu a cabeça e que usou a base já campeã para construir uma equipe ainda mais forte. Méritos também à diretoria que nestes tempos de dívidas conseguiu manter o elenco e reforçá-lo.

O galo andava de canto murcho no começo do ano, Jô e Ronaldinho não serviam mais, Tardelli tinha problemas e parecia que 2013 era mais longe que 2012. Tudo resolvido pelo mais novo personagem do futebol brasileiro, o simpático técnico Levir Culpi, que deu nova coloração ao antigo discurso dos treinadores rabugentos. Uma das campanhas mais incríveis da história, duas vezes seguidas desafiando a matemática, virando de 2 a 0 para 4 a 1 e na final triunfo sobre os maiores rivais.

Vivemos hoje a prova máxima de que rival não é inimigo, que jogo não é guerra de trincheiras e que estádio não é campo de batalha. O país, ao que parece, tem muito ainda que aprender com os mineiros.

Minas tomou o Brasil e agora o Brasil é mineiro.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.