Passadas as eleições, como fica o futebol? – Por João Gabriel

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Minas vai bem no esporte e é decisiva na política. Na eleição mais disputada desde a redemocratização do Brasil, nem futebol, nem esporte foi pauta de grandes discussões, mesmo tendo uma Olimpíada pela frente. Entretanto, temos também que admitir que o país tem questões mais urgentes a resolver, mas que nos últimos anos vem progredindo na direção de descontar o atraso histórico deixado em sua conta.

Nem por isso devemos esquecer nosso amado futebol, até porque este faz parte da cultura brasileira (apesar de não ser tratado como tal). Faz parte da cultura brasileira pois está presente no imaginário coletivo da grande maioria das crianças do país, quase não existe favela sem um terrão e, por que não, videogame sem jogo de futebol. Os motivos que fizeram do Brasil solo fértil para o florescimento em abundância do esporte não entram em questão, mas sendo este fato consumado e, pior, vivendo hoje o futebol sua maior crise nacional, não há como fugir da especulação sobre o seu futuro.

Nesta semana mesmo, Bom Senso e governo foram driblados por clubes e CBF na discussão sobre a nova Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). A entidade máxima do futebol brasileiro não só fugiu de uma reunião, como alterou a parte da Lei que diz respeito à fiscalização e punição e a mandou para o Congresso Nacional como urgência, tudo isso sem o consentimento de atletas nem governo. Governo e Bom Senso correm atrás do prejuízo dentro da Casa Civil, tentando fazer com que emendas no texto sejam inseridas antes que este seja votado.

Mas então, para onde caminha nosso futebol? Sem dúvidas, para o buraco e em ritmo alucinante. O baque do 7 a 1 de nada serviu, pelo menos para a CBF, que logo de cara já convocou o empresário de jogadores Gilmar Rinaldi e o ex-xerife do banco Dunga, dois símbolos do atraso, o administrativo e o tático respectivamente. Assim como versão esvaziada da Lei enviada ao Congresso, que causaria a imagem de uma reforma no futebol mesmo sem fazê-la, os resultados da seleção nos dizem a mesma coisa. Uma equipe que joga como 94 (quando Dunga era inclusive capitão), porém com muito mais talento potencial do que tínhamos naquela época. Ora, nosso time tem qualidade, inclusive com uma excelente defesa com Thiago Silva, David Luiz e Miranda e com um ataque de grande poderio liderado por Neymar e acompanhado de Lucas, Coutinho e Oscar, além de Willian e Everton Ribeiro e, porque não, o último meia clássico, Paulo Henrique Ganso. É saber organizar as 22 canelas nos lugares certos e fazer todas as pernas correrem para as devidas direções nos momentos mais indicados. Não mandar todo mundo correr pra trás o mais rápido possível quando perder a bola e, quando recuperá-la, “dá no Ney que ele resolve”.

Tendo em vista que da CBF a mudança com certeza não virá, nos resta que ela venha dos atletas ou do Palácio do Planalto. O Congresso está difícil, além de ser o mais conservador desde a Ditadura, tem sua bancada da bola liderada pelo vice presidente da FPF (Federação Paulista de Futebol), Vicente Cândido (PT-SP). Creio que para o futebol e para o esporte, a melhor opção caiu já no primeiro turno, com a candidata do PSOL Luciana Genro, que chegou a se reunir inclusive com Juca Kfouri para debater sobre o futuro da pelota verde e amarela. Felizmente, o pior não triunfou desta vez. Aécio Neves era sem dúvidas, de todas as opções, a pior. Não por acaso, assim que este passou para o segundo turno, quem veio rapidamente de Miami até aqui? Ricardo Teixeira, em busca de uma reunião com o candidato tucano e, quem sabe, um cargo dentro do esporte ou apoio para retomar as rédias da CBF, que hoje é comandada pelo filho da Ditadura, José Maria Marin e seu braço direito, Marco Polo del Nero. Apesar de tudo, é possível que com Teixeira a situação melhorasse, porque, apesar de ser um cartola da pior espécie, ao menos de futebol ele entende, enquanto os atuais chefes pouco ou nada entendem de como manter a bola rolando.

A candidata reeleita, Dilma Roussef, não é a melhor opção, mas creio que pode ser de grande importância para o futebol brasileiro nos próximos anos. Já de início faço uma ressalva. A escolha de Aldo Rebelo foi péssima; Aldo, apesar de bom político, não entende de esporte e entregar o Ministério a ele foi um equívoco, ainda mais pré Copa e Olimpíadas. Não a toa a política olímpica brasileira vem muito mal, o esporte quase não cresceu nos últimos anos e, dentro dos campos e quadras, o Brasil corre risco de fazer feio, ao contrário das últimas potências que sediaram os Jogos Olímpicos (todas elas tiveram grande crescimento do esporte nacional preparando-se para a competição). Entretanto, Dilma conseguiu realizar fora de campo uma excelente Copa. Claro, não podemos esquecer nunca das desumanas desapropriações de terra e do elitismo que tomou conta do interior dos estádios e do qual ela foi vítima na abertura do torneio. Mas economicamente Copa do Mundo e das Confederações injetaram bilhões de reais no PIB, o país saiu com uma imagem excelente fora de campo, o que contribui para o turismo, e obras de infraestrutura e mobilidade urbana foram construídas e/ou aceleradas. Além disso, Dilma por vezes peitou Marin e chegou a fazer reuniões importantes sobre a Copa sem a presença de representantes da CBF. Ela representa uma porta importante de diálogo e de articulação entre Bom Senso e governo e, talvez, o surgimento de uma força equivalente e contrária à Confederação Brasileira de Futebol.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.