Errar é preciso! – Por João Gabriel

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O futebol já chegou no Brasil com seu livro de regras.

Desde Charles Miller, que veio com o livreto de normas, pouco se alterou nos mandamentos do futebol. Alterou-se muito, é verdade, nas regras de arbitragem, adicionou-se quarto árbitro, carrinho por trás é amarelo ou vermelho. Entretanto, as regras fundamentais só foram alteradas significativamente duas vezes, uma quando se inseriu o cartão amarelo, mas principalmente com a adição do impedimento. Este último de fato mudou o jogo. A banheira ficou mais vazia, os goleiro agradecem.

Talvez por ter regras tão simples, o futebol permite ao jogador uma liberdade inexistente em nenhum outro esporte. As posições são meras convenções para aumentar a competitividade do time, mas com excessão do goleiro, todos os outros dez jogadores em campo dispõe dos mesmo artifícios, dos mesmos direitos, das mesmas ferramentas para atuar.

Não por menos a figura do juiz é tão central. Sem entrar no mérito da boa e da má arbitragem, o juiz desenpenha papel importantíssimo na partida, sendo sempre decisivo, seja pelo erro ou pelo acerto. Até porque, com poucas regras, o julgamento do legal e do ilegal torna-se necessariamente arbitrário e, por consequência, controverso. Que atire o primeiro cartão aquele que nunca xingou um juiz! Ora, foi na bola! Não estava impedido, mesma linha!

Não é de hoje então que a discussão em cima da arbitragem é tema das mesas de bares e dos churascos de pelada. A Fifa, a CBF, a Uefa, todos tentam criar novas formas de ajudar o alvo preferido das torcidas. Tentam reduzir a margem de erro, colocam um árbitro na linha do gol, escrevem e reescrevem o que deve ser punido com cartão amarelo e o que é passível de expulsão. E a diferença entre mão na bola e bola na mão?

Arbitro_TecnologiaPois é, recentemente a Fifa tentou resolver este problema e ditou que, bateu na mão dentro da área, é pênalti! Ora, já por princípio a entidade está mais uma vez errada, pois o pênalti só difere de uma falta normal por questões geográficas, se a infração foi cometida dentro ou fora da grande área. Mas deixemos esta questão de lado e aprofundemo-nos na questão. O que está em jogo aqui é a liberdade do jogador e, por conseguinte, do jogo. Obrigaremos os jogadores a colarem os braços ao corpo dentro da área? Você já tentou correr com os braços colados ao corpo? Mais uma vez o polo criativo suíço de futebol conseguiu atrapalhar o jogo.

O que me assusta mais é a questão da tecnologia. A verdade é, eu entendo a aplicação da tecnologia para saber se foi ou não gol, mas vejo a questão tecnológica com resseio. João Havelange, apesar de uma pessoa abominável, entendia do funcionamento do futebol, não há como negar. Numa das poucas coisas interessantes que disse (todas elas sobre futebol, nenhuma delas sobre política, economia nem culinária), Havelange dizia ser contra a inserção da tecnologia no futebol, pois o erro faz parte do futebol. É sutil, mas é fundamental. A injustiça, o erro, o gol de mão! O erro do juiz, o injusto é algo que faz parte do futebol e que o faz ser o que é. Agora, explicar o que é o futebol é tema para livros e livros de discussão.

Voltando ao ponto, meu medo da tecnologia é o medo de que o futebol se torne o futebol americano ou o basquete. Foi falta? Pede tempo, todos param, o juiz vai conferir no replay e da o veredicto. Não! Isso é estragar a dinâmica toda do futebol. Novamente, no caso da linha do gol, eu entendo, apesar de achar que a maior das injustiças (e portanto das mais fundamentais ao futebol) é um gol que não entrou ou um que entrou mas não foi dado gol, entendo que seja algo que também decide a vida profissional dos atletas, o que serve do contraponto.

Entretanto, creio ser este o limite, o gol. E apenas porque a tecnologia avisa instantaneamente o juiz se foi ou não gol. Se fosse necessária uma pausa no jogo, aí não pode. Nada pode interferir nos 90 sagrados minutos que não param. Mas mesmo mais tecnologia, tornará o jogo cada vez menos passível de injustiças e, portanto, cada vez mais parecido com tantos outros jogos.

Claro, o tema é controverso e, reitero, entendo e respeito quem defende a tecnologia. Apenas acredito que cada centímetro a mais de tecnologia dentro do futebol é um centímetro a menos de toda a mística que gira em torno do jogo.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.