Memórias Futebolísticas – Tiago Alves da Silva

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Era dia 26 de julho, o ano 1995. Naquela época, a internet e os celulares eram desconhecidos da maioria da população, restava às famílias se reunirem em frente as suas televisões de tubo com antena analógica. Nasci em Erechim, no Rio Grande de Sul,e por destino, estava fadado a duas opções de time a torcer, Grêmio ou Internacional.

Com os pais e mais quatro irmãos gremistas fanáticos, não há alternativas, se não torcer pelo Grêmio por indução, por obrigação ou por costume, afinal, em uma família totalmente fanática não se perde sequer um jogo do time. Todas quartas, sábados ou domingos, era em frente a televisão pontualmente, as quatro da tarde ou as dez da noite com uma bacia de pipoca e chimarrão, pra manter a tradição. Sempre o pai tomando a primeira cuia e depois passando com a mão esquerda seguindo a roda na direção direita.

O jogo era o primeiro de duas partidas das quartas de finais da Copa Libertadores entre Grêmio e Palmeiras. Com cinco anos de idade não entendia o que se passava. Percebia nos olhos deles, o fascínio e a paixão em ver aqueles jogadores entrarem em campo, no estádio Olímpico, com suas camisetas tricolores, enquanto a torcida Geral do Grêmio entoava seus cantos ensurdecedores, que até mesmo Galvão Bueno tinha dificuldades em falar. No interior do estado a cidade parava. Os torcedores do Grêmio acompanhando o seu time, e os torcedores do Inter, “secando” como manda a rivalidade futebolística.

Aquela quarta de final da Copa Libertadores tinha tudo se tornar uma bela partida. A equipe gaúcha tinha um time mais modesto, no comando Luiz Felipe Scollari, e com alguns jogadores mais famosos, porém com muita garra, que fazia a diferença naquela competição. Mas as entradas ríspidas levaram apartida a ficar “bem pegada”,como se diz lá no Sul. As confusões e expulsões prolongaram o primeiro tempo até os cinquenta e um minutos e o placar em dois tentos a zero para o tricolor gaúcho. Nem o torcedor mais otimista, imaginaria que o time gaúcho voltaria do vestiário e faria mais três gols, fechando o placar em 5 a 0. Ao fim do jogo via no rosto de todos, a tranquilidade e a certeza da classificação para a próxima fase. Ao final do jogo até mesmo os jornalistas e comentaristas já davam por certa a classificação do Grêmio. Lembro-me da matéria de capa do jornal Zero Hora, “Grêmio espera a definição do confronto da próxima fase.”.

O Palmeiras da época era formado por jogadores desconhecidos, mas que anos depois compunham a seleção brasileira. Nada mais nada menos do que Cafu, Roberto Carlos, Muller, Rivaldo, Amaral e Flavio Conceição entre outros. Os dois clubes eram sensação da década de 90, conquistando vários títulos. Mas depois daquela derrota vexatória, qualquer time fica sem qualquer poder de reação. Nenhum torcedor em sã consciência acredita em uma virada de cinco gols, mesmo sendo em seu estádio.

Novamente com família reunida, a cena se repetia uma semana depois, dia 2 de agosto, acredito que sentados no mesmo lugar e com o mate e a pipoca. O inverno era rigoroso, se não me engano naquele mesmo ano nevou forte em Erechim. Todos no sofá, debaixo de cobertas com o olhar fixo na TV. Dessa vez com mais tranquilidade, pois a vantagem era grandiosa e logicamente irreversível, mais ainda quando Jardel abriu o placar para o Grêmio nos primeiros minutos. Até eu que tinha cinco anos vi que a situação do alviverde estava complicada, aquele time que já havia sido goleado fora de casa, levava mais um gol diante de mais de oito mil torcedores, no Parque Antártica.

Não há jogador que resista a esta situação. O Palmeiras jogava bem, mas não conseguia chegar ao gol, até que Cafu abriu o placar aos vinte e nove minutos do primeiro tempo. A partir daí, aquele time desanimado ganhou um novo ânimo e esqueceu o resultado da semana anterior. Logo depois Amaral fez o segundo e o Palmeiras foi para o intervalo vencendo por 2 a 1. O segundo tempo foi dominado pelo Palmeiras, 3, 4 e 5 a 1. O que parecia impossível estava mais perto do que se imaginava. Vi aqueles jogadores de verde e branco, lutarem pelo seu clube e por sua honra. Aquilo mexeu comigo. Vi no rosto da minha família inteira aquela tranquilidade se transformar em angústia e pressa para que o jogo terminasse. O Palmeiras lutou bravamente até o final. Os jogadores puseram seus “corações na ponta da chuteira” e não desistiram sequer um minuto. Já nos acréscimos Mancuso arriscou um chute de fora da área que tinha destino certo, mas quiseram os “deuses do futebol” que a bola pegasse um efeito e subisse pouco acima da meta do goleiro tricolor. Ali foi o golpe final, estava tudo acabado. De nada adiantou todo aquele suor derramado.
Então o juiz apita, é fim de partida. O Palmeiras está desclassificado…

Ouvi a torcida palmeirense que presenciou aquele jogo histórico cantando e aplaudindo os jogadores mesmo com a desclassificação. Nem minha família e nem os jogadores gremistas comemoraram. Aquele time que lutou até o fim, não medindo esforços mesmo com todos dizendo que reverter o resultado seria impossível, despertou um sentimento dentro de mim. A paixão. Depois daquilo que presenciei, não tive dúvidas em qual time escolher.
MemoriasTiago
Deste dia em diante o Palmeiras faz parte da minha vida. Acompanhei títulos emocionantes, vitórias incríveis, derrotas dolorosas, rebaixamentos. Nada que me faça esquecer o que sinto, pelo contrário, reaviva ainda mais a paixão pelo verdão! Sinto arrepios e me emociono toda vez que ouço a torcida cantando. Sempre fui indagado de o porquê a escolha pelo Palmeiras se nasci no Rio Grande do Sul. A melhor resposta que encontrei até hoje foi do grande jornalista e palmeirense Joelmir Beting, “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível.”.

Tiago Alves da Silva – Estudante de jornalismo, gaúcho e palmeirense. Antes que você pergunte porque sou gaúcho e torço para o Palmeiras… Paixão não se explica!

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!