Venceremos. Ah!, se venceremos

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Venceremos. Ah!, se venceremos – Por Daniel (Mangabeira)

É sabido desde tempos imemoriais que o futebol é jogo que se joga muito além da marca da cal. A complexidade deste esporte transcende os limites do terreno. Percorre as arquibancadas. Adentra lares, trespassa corações e mentes para então alcançar o recanto mais íntimo de cada indivíduo, parte constituinte de sua identidade, ácido nucleico fundamental da humanidade – o futebol. E por sê-lo, depende desta construção monadológica para atingir seu fim: futebol é jogo que se finaliza no gramado, no soprar do apito último, mas que se inicia dentro do peito, uma emanação cósmica da porra.

O Brasil pegará a Alemanha em uma das semi-finais da Copa de 2014 amanhã, terça-feira. A opinião geral é a de que a coisa ‘tá meio ruim pro nosso lado. Sobretudo agora, sem o nosso mitológico capitão Thiago Silva – alijado do confronto como se eliminado em uma partida de queimada – e sem o nosso Neymar. O Júnior. Neymar: o último resquício de brasilidade em uma seleçãobrasileira já tão pouco brasileira. Neymar: ferido pela patela alada que singrou o ar seco de Fortaleza para moer-lhe a L3, um gênesis às avessas onde não foi a costela mas a vértebra a origem de toda a soturnez. Neymar: imolado em campo e oferecido em sacrifício aos deuses do futebol tão ressentidos da falta de autenticidade que cintila no jogo brasileiro, dentro do gramado mas também, ou principalmente, fora dele.

Já tava ruim com o Thiago. E com o Neymar. Sem eles, pior. Mas o futebol tem daquelas coisas que fazem duvidar o tinhoso e eu aqui vos digo que mesmo no contexto de toda essa adversidade, nem mesmo ele, belzebu em pessoa, nu e fumando um beck, será capaz de impedir o triunfo do escrete canário sobre os teutônicos.

Os ingredientes do drama que é o futebol, a essência da paixão que faz o jogo – estes estão todos lá. O time inferior, o mesmo Brasil, que há pouco mais de um ano e antes do começo da Copa das Confederações não era mais do que o vigésimo-segundo colocado segundo os critérios do ranking da Fifa, que supera os adversários mais fortes se valendo de forças tão ocultas e misteriosas quanto profundas – este continua lá. O mesmo time inferior inflado pela metafísica da paixão autêntica – a mesma Fortaleza que agora em 2014 viu-se impalar o Neymar – de sessenta mil brasileiros cantando à capela o hino nacional, em torcida patriótica qual uma hinchada argentina, dimanando vibrações positivas e mostrando a cada um daqueles atletas que, aqui, somos duzentos milhões e que por isso somos foda. E que, juntos, ganharíamos de todo mundo, de um jeito ou de outro.

E, ainda na Copa de então, a partir desse momento, viu-se em campo um time entorpecido, tocado pelo cão, multiplicando-se a ocupar espaços, diminuindo jardas, transpirando plasma e babando bile, assombrando o inimigo em alegoria fantasmagórica, traçando sulcos profundos na relva e atiçando repetidamente a meta adversária, aquecendo as cordas do gol para então celebrar em êxtase junto ao público. Celebrar em êxtase junto ao público – coisa que já não vemos em 2014. Se na Copa das Confederações a celebração de cada tento era quase que um reconhecimento do papel exercido pela massa, quase que uma aquiescência à importância vital da magnética, quase que um agradecimento por mais uma assistência, em 2014, as celebrações – e gols houveram para serem celebrados – são egoísticas. Quase egotísticas. Já não jogamos juntos – jogam eles lá, assistimos nós de cá.

O hino? Este se canta ainda, à capela, coisa bonita de se ver, mas ele agora é protocolar e previsível. Um incidente necessário. Olha, é agora, é a hora do hino, filma aí e coloca no facebook. Já não se canta com a autenticidade das paixões mas com a superficialidade do flerte. A nossa energia, a canalizamos para as selfies no Instagram, enquanto lá dentro, na cancha, nas quatro linhas que se erguem feito paredes invisíveis mas inacessíveis, a nossa Seleção perde o espírito a olhos vistos – mas não os nossos olhos, estes mais preocupados em tietar a própria imagem refletida no telão.

O fato é que os últimos acontecimentos talvez tenham rompido esse ciclo, trazendo de volta a alma ao nosso povo, e à nossa equipe. Não há, é verdade, como em junho do ano passado, o clamor das ruas, um patriotismo de protesto, uma vontade de país melhor transplantada pros estádios e a encampação desse sentimento pelos jogadores no afã de contribuir de alguma forma. Mas há, talvez, uma centelha deste sentimento que passou a bruxulear na cadência do vôo do Zúñiga. O grito de dor do Neymar despertando-nos a todos de um transe, a voz da torcida brasileira em uníssono se perguntando “que porra é essa?”

Ao passo em que nos vemos desprovidos das estripulias de nosso craque maior, e que nos vemos como uma equipe ainda menor, azarões em nosso próprio quintal, percebemos que a única chance que temos é jogar com os bagos. A grande verdade é que o time precisava ser novamente desacreditado. Precisava chegar novamente ao fundo do poço, afogar-se no drama, perder a credibilidade do povo para ter novamente o que provar. Para superar-se. Para fazer ressurgir a beleza do futebol, mostrando que o cerebral tático se amiudeza ante o transcendental dos sentimentos. Precisava novamente perder a credibilidade e esquivar-se da condição de favorito pra substituir o receio de perder pela vontade inafastável de ganhar.

A contusão do Neymar uniu novamente um país. Uniu-o pelo ululante sentimento da obrigação de dedicar à Copa aquele que tanto fez pelo time. Uma obrigação de retribuir e de jogar junto, de lançar aquele arsenal fonético das arquibancadas e fazer tremer os alemães do Mineirão à Berlim. E teremos novamente a força da glote ao nosso favor, senão no protocolo do hino, outrora o nosso haka, nas loas de ode ao nosso astro maior, uma horda de maoris tropicalizados intimidando o adversário pelo vigor de nossa loucura.

Se me perguntarem como se desdobra o jogo amanhã, digo, pois, sem pestanejar, que ganhamos. Não me pergunte como pois não o saberia dizer. Mas ganhamos. Petardos mágicos atingirão a meta de Neuer, vindos lá não se sabe de onde, mas tendo todos o barbante por destino. Exultaremos em deslumbramento e alegria. E, nas arquibancadas, um torcedor apaixonado vai apontar o dedo pro vazio, à guisa dos encachaçados, vai fitar o inexistente e com os olhos exsudando lágrimas, sangue, suor e cerveja dirá “isso aqui é Brasil, porra”. Seremos campeões. Não tenho dúvidas disso.

Daniel (Mangabeira) é cabra da peste que fala chiando. Potiguar de matizes capixabas, escreve por prazer quase mórbido. Recebeu educação católica, mas nunca mais foi o mesmo depois de escutar o Xegundo Xou da Xuxa de trás pra frente. Como o Tião Galinha, cultiva um cramulhão na garrafa e chama suas companheiras sexuais de “minha burreguinha”. Acha Zico fora-de-série, nunca engoliu a barrigada do Renato Gaúcho e se comprometeu em Cartório a batizar seu primogênito de Wallyson. Acha a Juliana Paes baranga, bate palmas pra Viviane Araújo e ovaciona alucinadamente a Ana Paula Arósio. Curte Cartola e Motorhead, com pitadas de Wagner e Chostakovitch no interregno. Cultua Chaplin e Didi Mocó. Reconhece Kubrick, acha que Woody Allen perdeu o elã e considera hierarquicamente superior a nouvelle vague. Acha sinceramente que há piores do que Paulo Coelho, mas que isto não signifique que reconhece algum talento no mago. É incoerente, mas por vezes faz sentido. É inconseqüente, mas sem ser destemido. É irreverente, e é geralmente muito metido.

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