Sobre hinos, vértebras e fair play: as três cenas de Brasil x Colômbia

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Sou a pior pessoa se para falar dos aspectos táticos de um jogo de futebol. Entendo tudo desentendendo, se é que vocês me entendem. Ao escrever sobre um jogo, prefiro falar das pequenas cenas que estão acima da questão técnica. Cenas que possibilitam que um simples jogo se transforme numa narrativa cheia de emoções (naquele naipe: Haja coração! bem típico de certo narrador esportivo) e carregada de humanidade (tão desbaratinadamente perdida hoje em dia). Esta pequena introdução verborrágica (sim, estamos falando difícil hoje) serve para alertar o leitor que não irei falar sobre o reencontro da seleção com o meio campo e muito menos vou questionar a sanidade mental do Felipão ao manter Fred como titular. Irei me deter em três cenas que talvez sejam, para mim, as grandes representantes do jogo.

CENA 1 – O hino

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Crédito: Revista Brasileiros

Desde que o primeiro estado nacional moderno foi criado, hinos nacionais e cantos patrióticos representam o orgulho de pertencem a uma nação. São símbolos de identidade e identificação de um país. Quando se vaia este pedaço tão representativo de um país, se ofende a própria história e o povo daquele país. A torcida brasileira presente no Mineirão fez isso com o Chile no jogo das oitavas de final.

A redenção silenciosa de nossa parte, não só aos chilenos, mais aos povos que estamos recebendo aqui, foi apresentada pelos cearenses na sexta-feira. O silêncio respeitoso da torcida brasileira no estádio durante a execução do hino colombiano foi como um pedido de desculpas pela falta de educação do último jogo.

E aqui vai um pequeno comentário: é engraçado que nos gabamos tanto de como a torcida canta a plenos pulmões nosso hino, mas não pertimos naquele dia que os chilenos fizessem o mesmo. Bravos chilenos que seguiram cantando sob a chuva das vaias tolas da torcida anfitriã (supostamente mais educada e diferenciada do que torcidas dos nossos times locais).

CENA 2 – A vértebra

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Crédito: G1

O jogo estava bom para a gente. Ainda não é onde a seleção pode chegar, mas estava bom. Talvez faltou a estrela de certo garoto do litoral paulista brilhar com seus dribles e sua genialidade muito apregoada a quatro ventos. Não sei, mas, para mim, leiga, estava bom (tirando a inabilidade do juiz em controlar o jogo). Estava bom até o encontro inusitado de um joelho e uma vertebra e aí…vocês sabem o resto. Não irei reprisar em palavras a cena que todo mundo viu.

Aquela cena do menino Neymar caído se contorcendo em campo é simplesmente dramática. Talvez al, no frigir dos ovos, a gente nem teve a exata noção da gravidade. Nossa fé era que ele voltasse (mesmo para os nem tão fã dele como eu) no próximo jogo e estivesse ali só para ouvir o nome dele. Mas não a força que escreve a história dos homens (chame você o nome que chamar) não quis assim e carregou para fora das quatro linhas o menino que era a promessa (e, para mim, ficou na promessa).

De qualquer forma e acima de tudo, integro uma nova torcida junto com milhões de pessoas: a pela recuperação do Neymar.

CENA 3 – Fair play (ou como você quiser chamar)

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Crédito: Jornal GGN

Esta pequena cena está na minha galeria de favoritas. Não é nenhuma jogada genial ou lance incrível do jogo, mas de um ato que revela muito sobre como o futebol pode revelar sim o melhor de nós.

Já se findara a partida. Nós vencemos, eles perderam. No meio daquela ovação geral, chorava um menino que era promessa. James Rodrigues era o cara, segundo o que eu havia ouvido. O cara era apenas um menino e meninos podem chorar para aliviar a gigante carga de emoções.

Sozinho, dentro das quatro linhas, parecia inconsolável, mas não ficou muito tempo assim. Logo, veio o surpreendente consolo, mas não era de seus amigos. O zagueiro brasileiro David Luiz (awwwwn, seu lindo!) se aproximou para abraçar o rapaz e, num ato de desportividade, pediu para a torcida aplaudir o jogador da torcida eliminada. Por longos minutos, David consolou o jovem contou com alguma ajuda do lateral Daniel Alves.

Alguém vai dizer que é um gesto bobo, mas, para mim, revela a grandeza de espírito em se importar com a tristeza do próximo num momento de alegria pessoal. É uma daquelas cenas que esporte proporciona alguma humanidade aos supostos gigantes.

Tá tendo Copa e uma cheia de boas cenas.

#centraldacopa
Tarja_Jessica