A insustentável leveza de ser Seleção Brasileira

0
701

A insustentável leveza de ser Seleção Brasileira – Por Mirelli Fernandes

Um planeta. Trinta e duas seleções [16% dele?]. Delas, trinta e uma a caminho de um – tão suprassumo, quanto controverso – evento esportivo: a Copa do Mundo no Brasil. Sim, trinta e uma. Essa uma, a faltante, a caminho de uma guerra declarada. Impiedosa. De determinismos. Subentende-se que – desde sempre –, aos seus soldados, nada mais resta, além da condenação – no caso de um fiasco. E que o povo sucumbe junto. Que todo o nacionalismo não pode ser exposto de forma vexatória – não por causa de uma partida de futebol. Os soldados não podem sentir. Não podem chorar. Falhar. Afinal, eles ganham tão bem, né? Que paguem as lágrimas do povo com seu [sangue] suor. Fazer bonito é mais do que uma possibilidade: é obrigação.

Seleção Brasileira é o ideal pueril. Ser escalado para ela já é, por si só, deveras meritoso, digno de apreço. Daí, a leveza. Desde que não perca. NUNCA. Daí, a insustentabilidade dela.

Cruel, não?

E por que é tão difícil perder? Não sei dizer, mas olho pra esses olhos e morro um pouquinho:
InsustentavelLeveza
Quando a Costa Rica entrou em campo, contra a Holanda, achei linda aquela leveza. Entraram flutando. Não havia cobrança, nem qualquer obrigatoriedade. Pra mim, já disse antes, foi o jogo mais emocionante da Copa – e, intimamente, atribuí a ela o título de Campeã Moral. Claro que, pelo histórico do Brasil, não seríamos permissivos a tal ponto, mas, assim como tudo na vida, julgo eu – despretensiosamente –, que toda cobrança excessiva, sufoca. Ofusca o brilho.

Que não sirva de justificativa para um placar tão largo, mas convenhamos: não houve qualquer passo, nessa Copa, que não fosse uma tragédia anunciada – mesmo que [quase] nada tenha se concretizado, felizmente. O evento estava fadado ao fracasso – e surpreendeu a mídia incrédula, que massacrou na mesma proporção que enalteceu [quando viu que tudo estava nos seus conformes, ou até além deles]. Discursos odiosos vieram de toda a parte. Até os corações ávidos e fervorosos, titubeavam, ante o anseio velado.

Eu não me envergonho da seleção. Sinto, sim, pelas pancadarias, pelos ônibus queimados e depredados, pelos tumultos injustificáveis. Pelas vaias e injúrias gratuitas. Pelas laranjas atiradas ao ônibus da seleção – como se só o placar constrangedor não bastasse. Me envergonho pela agressão que fez com que um torcedor alemão perdesse a audição do lado direito, pelo soco que tomou, ao comemorar um gol, no Mineirão. Me envergonho, mais ainda, quando ele – esse mesmo torcedor – diz sentir menos a lesão, do que a impossibilidade de ter visto o resto da partida. Como assim, alemão? Admiração, por ti, define.

[Ainda nessa leva de tentativa de remissão, sinto muito pelo discurso racista, pedófilo e sexualmente abusivo, sofrido pelo jogador colombiano Zuñiga, e sua família.]

A tristeza é genuína. Eu fiquei triste pacas, mas tudo passa – já dizia o pescoço do Neymar.

A prepotência, entretanto, é nociva. E dela advém muita coisa, inclusive a birra exarcebada – e por vezes criminosa – de gente mimada.

Mirelli Fernandes é Especialista em Linguagens da Arte e pós-graduanda em Artes Visuais, Intermeios e Educação. Afora os títulos, ela não sabe extamente quem é, mas sabe que não vive sem arte, literatura e uma mala sempre pronta (não necessariamente nessa ordem).

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.