Welcome to Gringolândia

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Quase nunca saio pra almoçar, mas, na véspera da abertura da Copa, me dei ao luxo de ir pra rua só para ver o clima das coisas. No meio da minha caminhada, identifico as inconfundíveis camisas feitas com toalha de piquenique (bullying!!!!) dos torcedores da Croácia, no nosso primeiro adversário. Eles iam caminhando na mesma direção que eu, sendo assim, resolvi, pelo bem jornalístico, acompanhá-los de perto e observar as reações do povo nativo.

Um trio de rapazes passou por eles gritando “Brasil, Brasil, Brasil”. Tudo numa boa e saudável como a torcida para qualquer esporte deve ser. A dupla de croatas riu e disse alguma coisa que não era inglês, nem espanhol e muito menos nosso português.

Mais à frente, sempre sob os olhares curiosos meus e de quem passava, nossos amigos encontraram outros croatas tirando foto com uma moça brasileira e logo, e eu nem sei se eles se conheciam, todos tiraram fotos juntos. “Ah, são os croatas”, um passante exclamou. “Nossa, os gringos!”, surpreendeu-se uma mulher que não se deu ao luxo de parar. “Welcome”, um homem com camisa do Brasil gritou estendendo os braços para cima como se fosse abraçar os dois. Os gringos se expressavam na língua universal do riso que fala por si só.

A caminhada não durou muito. Logo, vi mais toalhas de piquenique, digo, camisas da Croácia, reunidas num bar. Como uma torcida, eles gritavam e cantavam coisas que ninguém sabia o que era. Alguém comentou atrás de mim: “Eles devem estar xingando a gente”, acho que não, mas quem garante? A cantoria atraiu plateia e os gringos (todos homens) atraíram a atenção das moças, que não se fizeram de rogadas e pediram pra tirar fotos. De repente, alguém puxou um “Brasil, Brasil” ali e o povo nativo reagiu tentando lembrar aos gringos que eles estão em terras tupiniquins, território do adversário. O coro cresceu um pouco e, para a minha surpresa, aumentou quando os próprios croatas passaram a gritar o nome do país que os acolhera. Estamos de fato numa terra de boas acolhidas.

Fiquei mais um tempo ali, observando os gringos tentando se comunicar por sinais ou por um espanhol bem do Paraguai ou num inglês carregado de sotaque do leste europeu. Um trio trajado com a camisa laranja-marca texto da Holanda (mais bullying) se destacou na multidão. Passou quieto, apenas turistando como também fazia um grupo grande de equatorianos que eu havia encontrado nas escadas do Teatro Municipal. Dezenas de camisas verde-amarelas se destacaram na multidão nas suas mais variadas versões. E, de repente, percebi que eu estava no meio da Gringolândia dos trópicos. Esta cidade que já é a Gringolândia sem os gringos de fora (os turistas da Copa) está ainda mais gringa. O coração pulsante de São Paulo tem sangue novo, caras novas, cores e sotaques novos caminhando pelas ruas do centro velho.

A Copa, com suas qualidades e defeitos, começou antes da abertura oficial, talvez tenha começado quando o primeiro gringo desembarcou na nossa adorável confusão paulistana. Os personagens deste evento mundial não estão apenas dentro das quatro linhas do campo correndo atrás da brazuca (nome da bola oficial do Mundial). As figurinhas da Copa já estão na rua, fazendo barulho numa confusão de línguas que poderia ser o cosplay brasileiro da Torre de Babel. A isto, basta-me apenas dizer: Welcome to Gringolandia!

 

 

Tarja_Jessica

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.