Sobre o Clima Anti-Copa às Vésperas da Copa (ou “Sobre a Evolução do Conhecimento Humano”)

0
591

Sobre o Clima Anti-Copa às Vésperas da Copa (ou “Sobre a Evolução do Conhecimento Humano”) – Por André de Castro Cotti Moreira

A Copa de 2014 chega no momento em que escrevo um livro sobre o processo de construção e disseminação do conhecimento humano, no qual defendo que o conhecimento, à semelhança de um organismo vivo, evolui com o passar do tempo (apesar das restrições impostas, particularmente pela ciência, à sua evolução).

Agora que se avizinha a finalização do livro, por vezes sou arrebatado pelo impulso de enviar o arquivo à lixeira virtual, versão moderna de “jogar os manuscritos no lixo”. Refreio o ímpeto ao suicídio literário por dois motivos: a) ao contrário de Freud, não tenho filhos que justificadamente desrespeitariam meu desejo, resgatando meus manuscritos do lixo e legando-os à humanidade; e b) muito ao contrário de Freud, a divulgação de meus resgatados manuscritos nenhuma diferença faria ao conhecimento humano. Assim, legitimados pela sua inerente inconsequência, eles verão a luz do dia.

Mas isso nada importa. O que me inspirou a escrever (o presente texto, não o livro) foi perceber que o clima anti-Copa enfraquece a tese da evolução do conhecimento e, assim, se soma às motivações do meu impulso “deletário” (neologismos…). Explico. Às vésperas da inesquecível copa de 1982, que tantas alegrias e tristezas gerou no menino que eu era aos 15 anos, a saudosa mãe de um grande amigo afirmou que estava torcendo para a vitória da seleção brasileira, porque ela alegraria o povo brasileiro. Sua torcida incentivou-me a torcer ainda mais pela seleção de 1982 e as muitas alegrias pelas vitórias, assim como a imensa tristeza pela derrota, muito contribuíram para a maturidade emocional daquele menino que eu era aos 15 anos. Torcer pela vitória da seleção para a alegria do povo é uma postura comum, mas nesse caso em particular surpreendente. Vinha daquela que considero a pessoa mais socialista que tive o prazer de conhecer, de alguém que nas décadas de 1960 e 1970 fervorosamente torceu para o Brasil não se sagrar vitorioso em copas pelo uso político que adviria, como de fato aconteceu. Hoje a admiro ainda mais do que à época, porque avalio sua corajosa mudança de opinião como evidência da evolução do seu conhecimento pessoal. Mas o clima anti-Copa atual me leva a considerá-la uma exceção e, tomando por referência o cego rigor do método científico clássico, mesmo uma única exceção descarta por completo uma teoria. A posição dominante entre os socialistas (ou marxistas, ou comunistas, ou petistas etc.) de então é a mesma que domina os socialdemocratas (ou neoliberais, ou capitalistas, ou psdbistas etc.) de hoje. Nem toda mudança é evolução, mas a ausência da mudança revela a inexistência da evolução. Tivesse o conhecimento da sociedade brasileira evoluído, a associação entre futebol e ópio há muito teria sido descartada. No entanto, ela persiste. Trocou de lado, “virou-casaca”, no antigo jargão futebolístico. Mudou para permanecer a mesma.

Me entristeço ao pensar nos meninos de 15 anos de hoje, nas oportunidades perdidas de viverem alegrias e tristezas que muito contribuiriam para se tornarem emocionalmente mais maduros. Felizmente, não acredito no cego rigor da ciência clássica. Apesar do clima dominante, tenho certeza de que em muitos lares mães de amigos estão incentivando meninos a torcer pela seleção brasileira. Que essa torcida lhes traga alegrias e, se for o caso, tristezas.

André de Castro Cotti Moreira, quem, aos 15 anos de idade, viveu alegrias e tristezas por ter tido o privilégio de torcer pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.