Para além do imaginário

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Para além do imaginário – Por Mirelli Fernandes

O imaginário coletivo do brasileiro jamais atuou em tanta consonância como nos últimos meses. “Imagina na Copa” assombrou os pensamentos canarinhos, dos mais incrédulos aos mais ávidos. Quando precedido de uma hashtag, então, danou-se. É que #imaginanacopa deixava de ser uma expressão dita despretensiosamente nas rodas sociais – sim, à mesa do bar, por exemplo –, para ganhar a efervescência do [raivoso] universo das redes sociais. A repercussão, recheada de reivindicações legítimas e de outras um tanto quanto vagas e duvidosas, colocava o país num estado de apreensão. E o tempo, tão inexorável, quanto inevitável, nos carregou até o evento. Deixamos de imaginar. Passou a ser a vida em tempo real. Daí, o que vou lhes contar.

Em janeiro deste ano, quando eu estava no Irã, uma amiga e seu marido me contataram, dizendo que iam comprar ingressos para o jogo Irã x Nigéria, em Curitiba. 16/06 me pareceu uma data um tanto quanto distante, mas fiquei entusiasmadíssima – mesmo com todas as interrogações que rondavam os #imaginanacopa que eu lia por aí.

Detalhe importante e relevante: somos, nós três, brasileiros. Eu e ela já vivemos no Irã – e temos apreço e amor inestimáveis por esse país, ainda que ele sempre esteja à margem do mundo. Ele, historiador e profundo conhecedor da cultura persa, é tão apaixonado quanto.

Pois, então, eis que chega o dia. Fomos devidamente uniformizados com os aparatos do bom torcedor. Curitiba, como sempre, linda. E mais cosmopolita do que nunca. Muito além das paredes do estádio, em suas imediações e pela cidade toda, o que víamos era um minimundo. A humanidade compactada. Gente de toda a parte. E eu, como amante incorrigível da diversidade cultural, estava muito bem, obrigada.
MirelliFabianaAndrew
Eu, Mirelli, minha amiga, Fabiana Laduano, e seu excelentíssimo marido, o Prof. Dr. Andrew Traumann

[Em tempo 1: eu não deixei um salário no meu ingresso. Paguei R$ 60,00 – nada diferente do que já paguei para acompanhar um jogo da Libertadores ou do Brasileirão, por exemplo.]

Fizemos o esquenta no Shopping Estação. De lá, fomos a pé para o estádio, o belíssimo Arena da Baixada. Não havia filas e sobrava hospitalidade. O jogo, de seleções pouco populares, dividia a atenção do torcedor brasileiro, que ora entoava o nome do Irã, ora o da Nigéria. A entrada de ambas, em campo, foi um espetáculo à parte: jogadores de semblantes urgentes, encantados com tudo aquilo que representava estar na Copa; sobretudo, numa Copa do Mundo no Brasil.

Com poucas investidas, muitas jogadas aéreas e dificuldade no domínio de bola, foi um jogo tecnicamente bem criticado – e com razão. Terminou num morno 0 x 0, mas aqui dentro – de mim – foi festa. Seja pela solidariedade dos torcedores brasileiros que, vendo que torcíamos com fervor pelo Irã, intercediam por nós quando os brados eram para a Nigéria; seja pela satisfação de partilhar da alegria de um povo sabidamente renegado, mas naquele momento muito feliz, desconstruindo os estereótipos que os cercam; seja pela torcida do Atlético Paranaense que, diante da calmaria que se fez em campo, ferveu o Caldeirão, e fez eriçar os pelos até da alma; seja, senão principalmente, pelos brados que entoávamos como bons torcedores brasileiros – o que somos, afinal. Enfim, seja lá pelo o que for, que assim seja. Que assim sejam os dias que pularam para fora do imaginário.

Sempre respeitei reivindicações – concordando ou não –, pois acredito na legitimidade que elas representam, para cada um que clama por algo. Entretanto, também acredito que boa educação cabe em qualquer lugar – dentro de um estádio ou num feed de notícias. E o que vi por lá, não me desapontou. Afora dois torcedores infelizes, que tentaram iniciar um coro malsucedido contra a Presidenta Dilma, todo o resto foi mais bacana do que o meu imaginário poderia supor. Talvez, eu tenha desapontado a equipe do “vou ler um livro que é melhor”, mas o povo iraniano – que fez de sua casa, a minha, por alguns meses – foi feliz por 90 minutos. Sendo assim, meu coração estava com ele – e os meus livros não se importariam de esperar um cadinho.
TorcendoMundo
Só para finalizar, hoje recebi uma mensagem de um amigo, que me fez feliz, e que dizia assim: “No dia do jogo do Irã, aconteceu de surgir ao meu redor umas 4 ou 5 vezes o assunto ‘mas aquele Irã opressor, assassino e monstruoso’, e rebati a opinião pré-concebida lembrando do que escreveu sobre suas passagens por lá”. Pois. De tudo isso, fiquemos com o melhor de cada povo, sem receios e reservas. Porque agora, haja peito para suportar todos os noventa minutos que nos aguardam. Seja pelo Brasil, seja pelo canto do mundo lhe apraz.

[Em tempo 2: Afora essas partidas, sou – sim, sempre – brasileiríssima!]

Mirelli Fernandes é Especialista em Linguagens da Arte e pós-graduanda em Artes Visuais, Intermeios e Educação. Afora os títulos, ela não sabe extamente quem é, mas sabe que não vive sem arte, literatura e uma mala sempre pronta (não necessariamente nessa ordem).

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.