Efeito telão

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Nunca fui em jogo com telão.

O que Narciso diria sobre o telão? Sem dúvidas muda a maneira como se assiste jogos no estádio. Não importa o resultado, se é começo, fim ou intervalo, o indivíduo confere periodicamente o telão como quem confere o celular, esperando a fama instantânea de três segundos. É incrível o efeito dele nas pessoas, a cara de abacate podre torna-se um carnaval em Salvador. Esse tipo de torcedor não vai para ver o jogo da arquibancada, é muito longe para ele, ele quer o telão! Se pudesse, pagaria mais caro só para ficar mais perto. É o caso de grande parte da torcida brasileira que vai aos jogos da Copa, que não é nem a torcida de arquibancada nem a de numerada, é a torcida do telão. São os que tiram selfie no metro.

Aliás, só uma pessoa que vai com essa expectativa pode chegar em cima da hora do jogo e ainda perder quinze minutos procurando seu lugar marcado. Pergunte a qualquer torcedor que vai aos jogos do seu clube. Se ele chega em cima da hora ou, pior, atrasado para o jogo, a última coisa com que ele se preocupa é seu lugar. Muito provavelmente ficará na boca do túnel ou no máximo esperará um tiro de meta e correrá para a primeira cadeira vazia que vislumbrar. Claro, não para sentar, pois assistirá o jogo de pé.

Em completa oposição temos muitas torcidas americanas – não estadounidenses, americanas, das Américas! – trazendo faixas, bandeiras e cantos para empurrar sua seleção. Os argentinos não deixam dúvidas que vieram para empurrar. Os chilenos tampouco e nem colombianos e mexicanos ficam muito atrás. Essa torcida é a que vem pra Copa não porque é cool, mas porque acredita que sua presença nas arquibancadas de fato fará diferença no resultado do jogo. E não faz?!

Claro, a Copa hoje é um evento elitizado a tal ponto que este tipo de generalização não se sustenta. Pelo preço, aposto que muitos hermanos não puderam vir, sorte destes loucos mochileiros que conseguiram. A torcida brasileira de arquibancada, essa que senta no molhado, aliás, fica de pé faça chuva ou faça sol, essa que empurra, que não desgruda o olho do campo nem um segundo, essa torcida não pode vir. E não é culpa da nossa Copa não, é culpa de quem administra o futebol, pois são eles que decidem preços desta, da última, da próxima e sabe-se lá de quantas copas mais. Aposto que foram eles os primeiros a instalar um telão num estádio de futebol.

E como uma epidemia, a coisa pegou. Agora é telão pra cá e pra lá, com um poder demoníaco de sedução comparável só ao da televisão. Este demônio das imagens lança seu feitiço até sobre os torcedores de verdade e estes tem que lutar muito para não ceder à bruxaria. Uma das melhores coisas do intervalo no estádio é virar para o lado e começar a debater o primeiro tempo com quem estivesse ao seu lado, um momento de paz único que pode até transmutar-se, após a partida, em uma passada no bar para comemorar a vitória ou afogar a derrota. O estádio permite um espaço reflexivo que não existe em casa pois nela o intervalo é cheio de propagandas. Aliás, o estádio permitia, pois o telão acabou com isso. Nem isso mais o verdadeiro torcedor pode, pois agora aqueles quinze minutos sagrados foram profanados por anúncios de picanha em promoção, caminhão com taxa zero ou até um banco que, dizem, vai financiar seu negócio.

Não ficaria surpreso se quem projetou um estádio com telão nunca foi ao estádio. Este mesmo arquiteto deve ter tido a ideia de colocar apoio de copos nas arquibancadas e, se pudesse, tinha colocado cadeira de cinema reclinável e tudo, pois nem para o campo você precisa olhar mais, o estádio virou cinema, olha só que tela grande! Aos poucos as transformações vem atingindo nosso campeonato nacional que vai se elitizando. Aos poucos a CBF vai criando seu padrão inspirado na Fifa. Aos poucos vão se instalando telões. Aos poucos eles tentam destruir nosso futebol.

Viva a Copa, pois ela é muito, muito mais que um telão!

 

 

#centraldacopa #Copa2014Tarja_Joao

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.

1 COMENTÁRIO

  1. Acredito nessa nova rapaziada, da qual você faz parte, João Gabriel e que poderá fazer igual reflexão.
    Acredito nessa rapaziada que investe seu tempo e humor repercutindo e dando uma repaginada nesses valores, como o amor ao futebol, o compromisso com a camisa de seu time ou do time de seu país se utilizando das novas linguagens virtuais ou não que estão à mão.
    Acredito e continuo me emocionando com vc e seus textos. Sua avó

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