Abertura: das Copas, qual Copa?

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Promessa é dúvida, e vice versa.

Existe uma diferença entre a Copa no Brasil e a Copa do Brasil. A Copa do Brasil seria aquela que sonhamos, aquela que queríamos, aquela que até quem não gosta de futebol ia ser beneficiado. A Copa no Brasil é a que vai acontecer. A Copa do Brasil seria aquela em que, nos sete anos de preparação, seriam construídos aeroportos, o transporte aumentaria qualitativamente, o povo ganharia para além do futebol e de quebra 32 seleções viriam disputar o maior campeonato de futebol do mundo. A Copa no Brasil é essa, que a Fifa lucra e vai embora, que a Odebrecht ganha o Maracanã de presente, que as grandes corporações fazem o negócio da década, que comunidades inteiras são desumanamente expulsas de suas casas pela Polícia Militar.

A parcela da corrupta Fifa já era prevista. Todos os países sede sabem que ela não gasta nada e lucra absurdos, que patrocinadores são impostos, coisa e tal (confesso, no entanto, que registrar “Pagode” me surpreendeu). Mas existe parte da Copa que a Fifa não controla. Entretanto (como lembrou Juca Kfouri): na França, em 98, o presidente do Comitê Organizador Local era Platini, maior jogador francês até então; na Alemanha, Beckenbauer foi quem assumiu o cargo. Aqui no Brasil – já que não temos um grande ex-jogador – Ronaldo (ufa, não foi Pelé!) é só o vice do COL, subordinado de José Maria Marin, ex-governador de São Paulo durante a Ditadura Civil Militar. Ah, e por acaso Marin é também presidente da CBF . Veja que beleza: uma parte do que não cabe a Blatter administrar cabe à CBF, a Fifa brasileira.

Sem sentido são as arenas. Para a Copa no Brasil foram construídos (ou totalmente reconstruídos) todos os 12 estádios, mas a única coisa com que o Brasil não precisava se preocupar era com estádios! Um retoque ali, outro aqui e o Morumbi estava pronto. Brasília não tem time nem na Série C, mas tem estádio para 72 mil pessoas. O Maracanã foi demolido e no lugar colocaram uma arena, o Beira Rio foi inteiramente refeito. E por aí vai…

Por outro lado, as coisas muitas vezes parecem pior do que são. Por exemplo, o gasto de dinheiro do BNDES com estádios já foi pago (e com sobra) somente com a Copa das Confederações (que gerou 9,7 bi de reais para o PIB). Do Orçamento Geral da União (dinheiro de impostos) não foi deslocado nem um centavo – nem da Saúde, nem da Educação, nem de nada – para a realização da Copa do Mundo, todo o dinheiro envolvido é empréstimo do BNDES e portanto retornará, com juros. Muitas obras de infra-estrutura já eram previstas antes mesmo da Copa, só foram adiantadas por ela. Ou seja, Saúde e Educação estariam como estão tendo Copa ou não; a infra-estrutura estaria ou igual ou pior.

O mais estranho ainda é que, no país das ideias fora do lugar de Schwartz a Copa do Mundo é provavelmente uma das ideias mais no lugar que já passaram por aqui. O país mais vezes campeão e berço do maior jogador da história é o país certo para receber a festa. A discussão sobre se vai ou não ter Copa é como discutir o toldo de casamento de Antônio Prata e o legado é a lista de presentes que você torce para ganhar, afinal, já gastou um monte na festa. Ademais, a Copa não vai derrubar presidente nem eleger, gol do Brasil não é gol de ninguém que não da seleção e esta não é de ninguém senão nossa. Do mesmo modo, torcer para tudo dar errado não faz sentido. É como torcer para seu seu vizinho morrer só para você poder comprar a casa dele. Dar errado não vai fazer dar certo; quanto pior, pior, não melhor. Se não tivesse Copa não quer dizer que teria Educação. O erro é pensar as coisas como excludentes ou como causa e efeito. Que fique claro: é absolutamente legítimo se manifestar, a distorção dos fatos por parte da mídia é inaceitável. Mas por outro lado, demonizar a Copa clamando que esta não vai acontecer é visão míope e ignorante. Como disse Jânio de Freitas em seu artigo Melhor, mas pior (Folha de SP, 29/04), abre aspas: “Se, apesar da situação melhor, o sentimento é pior, claro que se trata de sentimento induzido. Contrabando ideológico”. Na ocasião Jânio escreve sobre Passadena, mas pode-se muito bem usar tal raciocínio para refletir sobre a cobertura da mídia na Copa e nas manifestações. Lúcio de Castro, da ESPN, ainda lembra: em 50 e 70 criaram uma imagem do Brasil muito melhor do que a realidade, mas agora estão conseguindo fazer parecer muito pior do que é. Do mesmo modo como se superestimou o legado, se subestima a importância da festa Copa para um povo do qual o futebol é parte da cultura.

Aleluia, o futebol promete!! Não vou apostar em ninguém, peço apenas que caso à final cheguem Brasil e Argentina, deixem ambulâncias de plantão nas ruas, se for pros pênaltis já tragam duas, uma para mim e outra para meu pai: Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Eu posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante. (Bill Shankly). Afirmei, logo antes, que não acredito que a vitória do Brasil seja voto. Pois bem, um novo Maracanazo também não, mas certamente será o novo maior desastre da humanidade, 200 milhões de mortos mais feridos e um povo desaparecido.

Já percebes, no entanto, que escrevo antes de tudo começar. Tenho medo da abertura, espero que passe rápido como o susto quando se vê um bicho horrível, mas logo ele voa, e de repente já é Brasil e Croácia e gol! Daí em frente torcerei cada minuto, cada instante (mesmo não tendo sido sorteado para comprar ingressos) como se estivesse no estádio. Daquele fundo de sentimentos fortes mas medrosos (como a declaração de amor ou o desejo de morte) surge também um grito de campeão. Como qualquer destes sentimentos, às vezes ele acaba engasgado.

Finalizo com o sentimento de promessa cumprida, mas de muito trabalho pela frente. Isso porque prometi a pelo menos meia dúzia de amigos que escreveria este texto e agora cumpro. Trabalho pela frente pois agora começa a Copa de verdade, para a seleção e para mim que, em todas as quintas-feiras até o fim dela estarei vestindo a camisa do Futebol Arte, sempre muito honrado de compor o escrete sob a batuta de Ricardo Roca!

#centraldofutebol
#Copa2014

Tarja_Joao

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.

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