Copa do mundo: festa popular ou da repressão?

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Copa do mundo: festa popular ou da repressão? – Por Giva

Estamos  a  poucos  dias  para  o  inicio  da  copa  do  mundo,  aquela  mesma em  que os brasileiros alheios ao que acontecia durante a preparação dessa festa em outros países, pintavam as ruas do país, se vestiam de verde e amarelo e esperavam ansiosamente para o apito inicial, torcendo para que a seleção brasileira estivesse entre os dois escolhidos para o momento de receber o apito final e, de preferência, que fosse a seleção do Brasil a levantar a taça Jules Rimet.
 
Não tenho lembrança de que o período da copa, fosse algo relevante para que as ruas das cidades brasileiras se cobrissem de uma cumplicidade superior ao nosso dia a dia, esta simpatia era simbolizada pelas cores ufânicas da pátria “única” e “integrada”. Falo do tempo, porque nestes dias que antecedem o momento inicial, o céu tem estado cinza, cinza que, na minha avaliação, expressa muito mais as incertezas que virão do que as súbitas mudanças de tempo que têm nos acometido nestes últimos anos.

Esta angústia, que talvez seja individual, ainda que minha percepção indique que seja coletiva, me parece e sinto que vem da realidade que tem se apresentado aos poucos de forma cruel, que aos poucos vai sendo desvelada e apresentando os aspectos mais claros dessa “festa” para a qual a maioria esmagadora do povo não foi convidada.

As primeiras ações foram feitas ainda em fase de preparação da Copa, ambulantes foram retirados do centro aos milhares (mais de 20 mil), dando lugar para as grandes empresas explorarem livremente com os seus produtos, previamente licenciados pela FIFA, que em troca recebem sua parte desse bolo. Uma dura política de expulsão do centro com perseguição de moradores de rua, criminalização de travestis, transsexuais e usuários de drogas, demolição de moradias populares e expulsão de diversos moradores pobres do centro das cidades, absurdo aumento da violência policial, sendo estimulada e autorizada a criminalização de qualquer grupo que ouse denunciar os abusos cometidos pelo Estado, em nome dos interesses privados da máfia chamada FIFA.

Os primeiros dados já constam em relatórios de pesquisas, como é o caso da pesquisa do insuspeito (já que foram alinhados ao Governo do Estado de São Paulo) Instituto Sou da Paz, que mostra que a letalidade policial aumentou mais de 206% em relação ao mesmo período do ano anterior, independente da enorme redução dos crimes violentos. Esse dado do Instituto Sou da Paz trouxe-me de imediato as imagens do filme Tropa de Elite 1, quando, às vésperas do Pan Americano no Rio de Janeiro, em nome da “segurança” dos turistas, o BOPE passou a uma sádica diversão de matar as pessoas por prazer e, a exemplo, tirou a vida de dezenas de pessoas, respondendo assim aos senhores e senhoras da elite.
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Não foram poucas as violações, nem serão poucas as que virão, o que deixou claro até agora que esta não será a Copa das Copas, os mais de dois bilhões de reais gastos em segurança deixam evidente que esta será, sim, a Copa da Repressão, a Copa das Remoções, a Copa da Criminalização, a Copa da Exploração Sexual, a Copa das Mortes de trabalhadores em suas obras (14 mortos), a Copa do Tráfico de Seres Humanos, a Copa dos Ricos e de tantos outros absurdos! Esta com certeza não será a Copa do Povo, por isto que, mesmo que o sol saia em dias de jogo, ele aparecerá plúmbeo e triste para a maioria do povo brasileiro, que teve roubado o seu prazer em assistir e vibrar, com os dribles desconcertantes dos nossos garrinchas, com a precisão mágica de nossos sócrates, com a ousadia dos nossos reinaldos, com a malandragem dos romários e toda a magia dos estádios, que começava nas várzeas e eternizavam-se nos campos profissionais.

Os trabalhadores, que popularizaram este esporte, transformand­o-o no principal esporte do planeta, terão que se deparar com a amarga realidade de que não mais poderão entrar nos modernos estádios ou como define melhor tal futebol moderno, Arenas, que não mais abrigarão aqueles apaixonados gritos e cânticos de incentivo aos seus times, provocando em muitas vezes mágicas jogadas em resposta à apaixonada plateia incendiária. No máximo o que sobrará para o trabalhador, é uma passada e olhada de longe, com a desconfiança daqueles que cuidam desses templos modernos do capital, com um deles podendo chegar para perguntar, como diria o Zé Ramalho sobre o mundo do capital, “tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?”.

Talvez sejamos campeões, mas infelizmente o povo já foi derrotado! Se Neymar vier a levantar a taça, dela escorrerá sangue, repressão, criminalização e muta dor daqueles que um dia pensaram na concretude da vida a partir das metáforas futebolísticas.

Givanildo M. da Silva – Giva, militante do Tribunal Popular, Comitê pela Desmilitarização da Polícia e da Política e do Comitê Popular da Copa

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