Resposta Histórica – Carta do Vasco da Gama contra o Racismo (90 Anos)

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São vários episódios recentes de racismo no futebol (e na sociedade), tanto no Brasil quanto pelo mundo afora. Casos como os dos atletas Tinga, Arouca e do árbitro Márcio Chagas são apenas a face mais visível dessa postura horrenda. O mais triste é constatar que décadas já se passaram desde a Abolição da Escravatura e as coisas não mudaram lá tanto assim.

Na última segunda-feira o Vasco da Gama, clube historicamente ligado a essa causa, comemorou os 90 anos da carta enviada pelo clube à Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), equivalente a atual Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Tal carta dizia que o clube preferia não participar do campeonato caso tivesse que excluir seus 12 jogadores negros. Não era bravata e o clube disputou uma “liga paralela”, sagrando-se bicampeão da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT).

Confira a íntegra da carta, que se encontra na sala de troféus do clube e imagem de uma reprodução feita recentemente.

Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.

Ofício nr. 261

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle

M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos
As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado

(a) Dr. José Augusto Prestes
RespostaHistorica
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