Figurinha de Quatro Faces – Por João Gabriel

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Tempo de Copa é tempo de troca! – Por João Gabriel

Ele acorda com o céu negro inteiro furado, sai antes do galo cantar e chega primeiro do que o sol. Fica no ponto estratégico entre a avenida dos negócios e a rua dos bares, caminho da escola, perto do metrô, na frente do ponto de ônibus, ao lado da faixa de pedestres. É a banca da cidade. Este é o jornaleiro. Levanta a porta de ferro, recebe o jornal e, antes que perceba, já vendeu o primeiro cigarro e o primeiro jornal. Mas hoje é diferente, hoje começa o álbum, não qualquer um, mas o da Copa! Antes do cigarro já vendeu o primeiro pacotinho, o primeiro álbum e viu a primeira troca acontecer na esquina. Ele não admite, mas sempre esconde um ou dois pacotinhos para si, dentro da registradora, embaixo de 50 reais em notas de 10. As pessoas não param de ir e vir. Vê gravatas, decotes e estampas coloridas; torcedor do seu time, torcedor do rival; tem vezes que ele mesmo troca figurinhas, tem outras que vende cem de uma vez ou até vezes que a compram é na moeda. Do seu balcão, às vezes precisa se levantar para atender ao pequeno garoto, às vezes é obrigado a contar duas vezes o número de pacotinhos para convencer o velho desconfiado de que não estão lhe roubando. É preciso dizer que às vezes perde a conta, derruba-os no chão ou então eles acabam, e deste momento até o fim do dia ele só verá caras tristes saindo de sua banca. Ao fim do dia pega os escondidos, fecha a banca e volta para casa.
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Este outro acorda animado. É dos poucos dias do ano que isso acontece. A mãe gosta. Se arruma, come, mochila nas costas, sai com os pais. Este é o menino. Ele está indo para a escola, mas não será um dia qualquer, porque hoje é o primeiro dia de figurinhas, que não são figurinhas quaisquer, são da Copa, são seus craques! Pais e filhos sabem que nesse dia precisam sair dez minutos mais cedo, precisam passar na banca, comprar o álbum, abrir todos os pacotinhos, colar as figurinhas e, se der tempo, fazer uma lista das que faltam. Ele chega na escola feliz, vê o Pedro pegando seu bolo para trocar com Rogério, que está tirando o elástico de prender figurinhas. Logo se junta. Começa o mercado de negócios. Até os mais novos parecem dominar completamente o conceito de oferta e procura! Do Brasil vale duas, aquela que falta pra você completar o time também. Camisa 10 vale três e brilhante, quatro! No bafo não vale canoa, gancho nem lambida, brilhante só com brilhante. Fica tímido quando a menina de quem ele gosta aparece com suas repetidas e, para piorar, tem aquela que lhe falta pra completar o Brasil! Talvez seja o maior impasse que já viveu. Decerto ficaria vermelho como um tomate se pedisse pra trocar com a garota e era possível até que acabasse dando a ela todas as suas repetidas. Por outro lado, sabe que não quer voltar pra casa sem ter a seleção escalada. Na hora do almoço toca o sinal, ocorre uma ou outra troca final e assiste menina e figurinhas irem embora. Volta pra casa, cola as que faltaram, atualiza sua lista e se prepara: “amanhã eu troco com ela!”

Esses dois acordam antes do filho. Certamente estou falando do pai e da mãe. Enquanto um prepara o café o outro acorda a criança e os três tem pressa! Hoje também não é um dia normal pra eles, eles sabem que a felicidade do filho depende de passar na banca, porque hoje, já sabem: é dia do álbum da Copa. Tinham planejado dez pacotes, mas dão quinze e prometem mais cinco na volta da escola. Fazem algo mais. Enquanto um abre os pacotinhos com o menino, o outro vai rapidinho comprar mais, só que pra eles. O álbum a mãe pegou no jornal cedinho e o pai escondeu no armário. Não veem a hora de deixar o filho na escola e correr de volta para casa com as figurinhas que ela comprou e escondeu na bolsa. No trabalho, ao invés de cartões de contato, trocam-se figurinhas. Alguns dizem que estão trocando para o filho que está doente e não foi à aula, mas todos sabem que é mentira. Depois de pegar a criança na escola, o ritual de compra escondida se repete e, após o pequeno adormecer, ela pega as figurinhas, ele o álbum e os dois começam a colar.

FigurinhaPele
Existe ainda mais um que pode muito bem ser avô ou nem sequer conhecer aquela família. Não tem hora para acordar, mas quase sempre o faz cedo, vai à padaria, compra pão ou come um na chapa lá mesmo acompanhado de café, por favor. Este aqui é o colecionador. No caminho do café faz um desvio – afinal, é um dia especial. Conhece o jornaleiro mais ou menos desde as figurinhas no chiclete e, ao pisar na banca, um já sabe o que o outro quer e o outro já sabe quanto vai lhe custar. Não precisa de lista, sabe de cor e salteado todas as que tem, quais faltam e as que o chapeiro, o zelador e o padeiro querem. Sabe também as repetidas que cada um deles, tem anotado todas as feiras de trocas do mês inteiro e, na volta pra casa, ainda revive a vontade juvenil de se aventurar no mercado negro, ao estilo O Gênio do Crime. Chegando em casa, vai colar cada uma com a precisão de um médico e o tempo de um poeta. Depois, vai rever um por um todos os seus álbuns, desde 50, passando por Garrincha, Pelé, Sócrates, Zico, Maradona e Zidane.

FigurinhaGarrincha
Verdade seja dita: hoje o jornaleiro recebe o jornal na noite anterior, o céu é cinza seja dia seja noite, figurinha custa uma fortuna. A criança mal conhece os jogadores do Brasil ou então os conhece tão bem quanto os dos outros países e, às vezes, prefere até outra seleção à nossa amarelinha. Os pais se desdobram para conseguir o dinheiro necessário para completar o álbum e ainda tentam reviver a infância completando um para eles mesmos. O colecionador tenta manter a tradição viva, quiçá passá-la para seu neto colecionador em potencial, sempre fingindo que o capitalismo não corrompeu até a poesia que existia em abrir um pacotinho.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

3 COMENTÁRIOS

  1. João Gabriel! regressei à minha infância em que a euforia e o desafio de se ter um álbum de figurinha da Copa e conseguir completá-lo era uma questão de honra! Meu pai, meus seis irmãos e eu conseguimos preencher alguns por inteiro. Lembro-me do gosto da cola feita com farinha e água! O dinheiro ou a falta dele nos conduziu à partilha: um album pra toda família! Grata, mais uma vez! Com amor, sua avó Hebe

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