Do terrão à peneira: uma reflexão sobre nosso futebol – Por João Gabriel

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Desta vez mudaremos de assunto: trata-se de uma reflexão.

Continuaremos no futebol, certo modo, inclusive, na história deste. Depois de Charles Miller desembarcar no Brasil, de chuteiras, bola no pé e regras debaixo do braço, o jogo encontrou terra fértil para a bola de capotão, que germinou estrondosa como Pau Brasil e deu frutos, melhores que café tipo exportação.

Não sejamos pretensiosos a ponto de discutir que diabos havia na água e na terra brasileira ou por que o futebol desabrochou aqui como flores na primavera. Não. Focaremos uma área muito menor, de em média 100 x 70 metros, mas que pode muito bem ser uma rua estreita, uma praça redonda ou uma praia torta.

Durante anos parecia que nossa árvore dava frutos infinitos, que qualquer safra ruim era apenas passageira, e é certo que a CBF acredita neste mito da autogeração de craques até hoje. Mas nossa árvore está doente! Não deixa de ser forte, provendo um punhado de craques aqui e acolá, mas suas raízes estão enfraquecidas. Algo que se pode afirmar é que ela pegou uma praga chamada dinheiro europeu, que consome os frutos bons, isso quando não os derruba ainda verdes (e às vezes ainda cospe de volta o bagaço).

Porém, algo mais parece acontecer, algo que não atinge só a árvore, mas o ecossistema futebol como um todo. Suas raízes, antes fundadas em um belo campo de várzea, agora competem com o concreto dos prédios que, alimentando-se de algo chamado especulação imobiliária, transforma terra em cimento, gol em grade, grama em tinta. Amigos, o jogador brasileiro não nasce mais da terra, mas do concreto ou do society, que é o concreto que finge ser grama. Como muitos antigos jogadores contam, não existe melhor zagueiro que o buraco, melhor drible que o acaso e melhor escola que a rua, a terra, a várzea; se jogasse bem nos caminhos tortuosos de uma pelada, o moleque voaria baixo em um gramado liso e verde. Porém nossa várzea desaparece e, como disse Breitner em entrevista não tão recente, até a grama dos nossos campos está errada.
Varzea
Não bastasse a terra, as pequenas sementes de nossa árvore também estão sendo maltratadas. Se antes eram peneiradas, hoje são pesadas. Explico. Uma peneira seleciona de maneira qualitativa: passa o fino, fica o grosso. Já uma balança escolherá o que pesar mais, e nesta pesagem entra empresário, patrocinador, amigo e, mais pesado de tudo, o dinheiro que vier junto com a semente. Se antes nossa colheita era feita por olheiros astutos e habilidosos, capazes de identificar a semente que daria o melhor fruto, hoje a colheita é cega: ela acontece nas escolinhas particulares, e ali de novo o dinheiro aparece, pois só está nela quem pode pagar mensalidade, chuteira e grama sintética.

Claro, isso sem contar a filosofia pós-82. Foi como se de repente o mundo ficasse burro, esquecesse a poesia e a música silenciasse. Desde a queda de Telê e Sócrates, o futebol vem tentando se recuperar de uma doença grave que o pegou quando estava mais alegre. Tem-se tanto medo de perder que se abre mão de ganhar; quer-se tanto correr que nem se pensa para onde; vale tanto ser o mais forte, o mais rápido, o mais alto, que se esquece que futebol se joga com os pés e uma bola.

YggdrasilAh, Telê. Ah, Sócrates. Suas lágrimas ainda hão de irrigar solo fértil para nossa árvore-mãe, nossa Yggbrasil, para não perder a chance de uma piada ruim (para não dizer desprezível e de péssimo gosto).

Uma catástrofe nunca é um erro, mas uma enorme sucessão deles, culminando no clímax destruidor, seguido de um susto e um silêncio que parecem eternos. É justamente neste contexto que o Brasil recebe uma Copa do Mundo. Curioso: Roberto Schwarz escreveu sobre as ideias fora de lugar, mas a Copa deveria ser justamente a ideia no lugar certo, talvez até a mais acertada ideia, no mais certo lugar. É a prova de que tem muita, mas muita coisa errada.

Como disse de partida, “é uma reflexão”, reflexão que não deve acabar neste apito, neste ponto final.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.