Futebol, redes sociais e o beijo gay

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Na última semana teve fim a novela Amor à Vida e, em uma de suas últimas cenas, aconteceu o chamado “beijo gay”, tão comentado, antes, durante e depois de ter ocorrido.
BeijoGay
Muitos comemoraram o que seria um avanço da mídia, notadamente a Globo, no tratamento aos homossexuais; alguns viram a cena como imoralidade e um passo na direção do “fim da família” e outros tantos, ainda que se digam sem preconceitos, permaneceram numa zona cinzenta, dizendo aprovar, mas fazendo algum tipo de piada, como se quisessem (ou precisassem?) reafirmar suas masculinidades.

A batalha de opiniões se deu mais claramente nas redes sociais, onde todos parecem estar prontos a defender seus pontos de vista. Houve (sempre há) os que criticaram até mesmo o fato de assistir a novela; possivelmente são os mesmos que criticam os que gostam de futebol, tentando atribuir a quem busca um desses tipos de diversão / distração a etiqueta da alienação. No mesmo raciocínio estaria implícita uma certa “superioridade moral” ou intelectual de quem não se deixa “levar” pelo “ópio do povo” ou pela “manipulação das mídias”. Fica claro que a intenção é boa, mas o discurso é raso, carecendo de qualquer tipo de substância que o mantenha em pé. Assim como é óbvio o direito de qualquer um gostar ou não de futebol, novelas, astrologia, aviões, ônibus, azeitonas, iogurtes, fundos de renda fixa… ou qualquer outra coisa, é simples e óbvio também que essas escolhas não tornam ninguém um alienado ou um inocente útil.

Voltando ao assunto central, mesmo correndo o risco de desagradar parte da audiência do Futebol-Arte, já nos manifestamos algumas vezes (com posição clara) sobre a questão da homofobia, como nos posts Você tem medo de quê? ou Homofobia em pleno século XXI? e Gaivotas da Fiel, a homofobia continua.

Facadas
Nos dias anteriores ao beijo entre Félix e Niko, dois dos poucos personagens que se salvaram na tal novela, as redes sociais apresentavam a questão: “A família brasileira está preparada para ver uma heterossexual trair o marido, matar uma idosa, esfaquear o amante na cama e indefeso, promover golpes dos mais sórdidos, envenenar o marido, maltratar uma criança, mas… não está preparada para um beijo gay?”

Maradona_Caniggia
Muitos lembraram então da comemoração entre Maradona e Caniggia, ambos então no Boca Jrs., na goleada por 4 x 1 no principal rival, o River Plate, em 1996.

Há uma clara distinção entre os beijos; o da novela ocorreu a partir do “amor romântico”, com a clara informação de que os personagens eram homossexuais, buscando “quebrar um tabu” e mostrar a normalidade da situação, enquanto o beijo dos craques argentinos trazia outro caráter, algo espontâneo, numa comemoração mais empolgada que o habitual, fruto talvez do bom resultado do jogo, sem nenhuma conotação sexual. Faz alguma diferença?

Assim, cabe repetir (sempre) a questão: você tem medo de quê? Por que a opção sexual dos outros incomoda tanto?

1 COMENTÁRIO

  1. Sobre a parte da alienação.
    Eu sou uma pessoa que não vê TV, passo longe do futebol, e novela não gosto nem do nome. Fato que isso não me faz menos alienada que vc, ou mais. Fato também que como futebol, carnaval, olimpíadas, novela também faz parte da cadeia do entretenimento, porém… isso não simplifica o resultado final em coisa boa ou ruim. O que vai resultar em algo é a bagagem do expectador e também quanto tempo de vida ele dedica a esse tipo de entretenimento.
    Haja visto o ditado popular que “violência gera violência”, vou tomar a licença de muda-lo um pouco, na minha opinião coisas ruins, geram coisas ruins (independentemente de ser violência). Não abstenho dessa classe os jornais sensacionalistas também. Houve uma época em que esse tipo de coisa na verdade retratava nossa vida, hoje eu acredito que muita gente assiste uma novela e passa a interpretar certas situações no seu cotidiano. Quanto maior a quantidade de coisas ruins a gente ver, maior será nossa aceitação diante de fatos ruins, afinal de contas, o mundo está cheio de coisas desse tipo. E por que eu não poderia fazer o mesmo? Afinal de contas um montão de gente faz isso por aí… E por favor, não se coloque como “o bom exemplo”: “ah… mas eu vejo futebol, novela, Cidade Alerta e não saio por aí fazendo essas atrocidades.”. Sim, concordo, aliás muita gente não faz… mas muitas outras fazem e baseados em tudo isso que eu disse.
    Exemplo real (passo por isso sempre!): Pessoas comentam com a maior naturalidade sobre algo incrivelmente maldoso que viram na TV. Eu, obviamente não vi nada e quando fico sabendo fico estupefata! E as pessoas se espantam com o meu espanto. Depois de 30 segundos já estão rindo e comentando sobre o futebol… como se fosse a coisa mais normal do mundo.
    Acredito que a maioria desses programas de TV foram inventados apenas para entretenimento, mas não cumprem mais esse papel – infelizmente. Como também é sabido que Copa sempre cai em época de eleição, e não é preciso ser nenhum gênio para saber o por quê! Todas as grandes cadeias tendem a aprisionar as pessoas da maneira que lhe é mais confortável. Precisa tomar muito cuidado com esse tipo de ferramenta. Quando se tem poder sobre a mente das pessoas, faz-se o que se bem entende. Quantos casos não vemos de gente matando em nome de Deus? Duas coisas que não combinam, mas alienação é tamanha que ninguém para e pensa no que está fazendo.
    Quanto à sua afirmação que as pessoas não se tornam “nenhum alienado”, dependendo da pessoa acho que se torna sim.
    Aliás, vc manifestou exatamente o que estou dizendo um pouco mais abaixo. Quando diz que a família brasileira está mais preparada para ver todas as atrocidades da novela do que um beijo gay. Mas é claro que está, já estão todos acostumados, virou coisa normal, isso passa o tempo todo na TV. E tanto a população sabe do poder que a TV exerce nas pessoas que criticou como “mal exemplo” o beijo gay, porque tudo que passa na TV vira coisa normal, mesmo sendo um absurdo (como os assassinatos). É um pavor para o público homofóbico que relacionamentos homossexuais virem uma coisa normal.

    Quanto às diferenças dos beijos que você citou, acredito que as pessoas vejam o relacionamento gay como uma ofensa a Deus, que criou o homem e a mulher para se “completarem” e terem filhos. No caso dos caras do esporte, eles não estavam se relacionando como homem e mulher, não pretendiam formar uma família. Acho que é aí que mora a maior parte do preconceito das pessoas. A quebra dos padrões. O padrão “normal” é homem + mulher = família (filhos). Quando há um relacionamento homossexual esse padrão se quebra.

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