Memórias Futebolísticas: Luiz Henrique Gurgel

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Memórias de um velho Santo André x Palmeiras

A primeira vez em que fui a um estádio ver jogo de futebol, tinha 8 anos. Coisa marcante na vida da maioria dos brasileiros. Sem querer exagerar muito, é quase como a primeira experiência sexual. Por muito tempo ficou esfumaçado na memória, vinham flashes da torcida, dos astros em campo e até do meu pai vibrando com o jogo. Só mais tarde – consultando os arquivos de um amigo – descobri que era o dia 28 de julho de 1974.

Estádio Bruno José Daniel, em Santo André. Para quem não conhece bem esse nobre espaço ludopédico, naquele tempo ele só tinha arquibancada num dos lados do campo. Era toda coberta, com torres de iluminação modernas (para a época). Só uns dez anos depois, creio, é que se construiu o tobogã do lado oposto. Recentemente, em 2013, um prefeito, de triste memória, demoliu a histórica parte coberta, deixando o estádio manco de novo.

Mas naquele ano, meu pai, que nunca fora muito interessado por futebol, aceitou de bom grado a incumbência de me levar. Um amistoso entre o Santo André e o Palmeiras. O time paulistano era uma maravilha, bicampeão brasileiro (ou em vias de tornar-se) formado por Leão (o que hoje é técnico, polêmico, com passagens por vários times e até pela seleção), Dudu (tio do técnico Dorival Jr.), Luís Pereira (zagueiraço da seleção, que brilhou na Espanha e no fim da carreira passou pelo Ramalhão – esse é o apelido do Santo André, para quem não sabe), Edu, Leivinha (tio do Lucas Leiva) e o magistral Ademir da Guia, entre outros. Do Santo André eu apenas ouvira falar de Fernandinho e Tulica, que se destacou, mais tarde, com a camisa do Fluminense. No ano seguinte alguns daqueles jogadores do Ramalhão seriam campeões paulistas da antiga Primeira Divisão, atual A2. Acima dela havia a Divisão Especial, atual A1 (mudanças de nome que só interessam à cartolagem, mal eterno do futebol brasileiro).

Minha identidade futebolística era confusa. Meu pai não torcia por ninguém, tinha uma simpatia pelo Santos e via futebol quando a Seleção Brasileira jogava. Meu avô era um palmeirense fanático e meu tio um sãopaulino doente.

O Bruno estava lotado e o Palmeiras deu um show: 4 a 0, com dois gols de Ademir da Guia, um de Leivinha e outro do Edu. Saí meio contrariado, mas extasiado com o espetáculo, vendo todas aquelas estrelas (eu colecionava figurinhas dos jogadores e jogava futebol de botão com aquelas caras todas), hoje personagens históricos na galeria dos melhores de todos os tempos.
Palmeiras_StoAndre
Curiosamente, apesar do show verde, eu fiquei apaixonado pelo time de camisa amarela, então a cor do uniforme principal do Ramalhão. Minha família achou estranho, não havia lógica. Meu avô não acreditou. Meio que nelsonrodriguiano: se os fatos estão contra mim, danem-se os fatos, teria dito mais ou menos isso o ilustre torcedor do tricolor carioca, cronista que escrevia sobre futebol como se falasse de uma tragédia grega.

Não sei explicar. Não era apenas por ser o time da minha cidade natal. Também lembro que o professor de Educação Física da minha escola era torcedor e nos incentivava a acompanhar o time. Mas outro tipo de magia deve ter se instalado. Mesmo depois de dizer ao meu avô que o Santo André era meu time do coração, ele continuou conversando comigo como se eu fosse palmeirense. Não levava a sério aquela torcida.

O fato é que ainda hoje, toda vez que jogam Santo André e Palmeiras, sou assaltado por essa lembrança. Quase tive um enfarto quando fomos campeões da Copa São Paulo de Juniores de 2003, em cima deles. Depois, em 2004, demos um show no Parque Antártica num empate heroico por 4 a 4, na Copa do Brasil, quando eliminamos a equipe verde e avançamos até o título do torneio frente ao Flamengo em pleno Maracanã. Nossa maior conquista até hoje. E quem poderia esquecer da goleada que aplicamos no time do gigante Marcos – um dos maiores goleiros do país em todos os tempos – de novo no vechio Palestra Itália, Paulistão de 2010 (eu tava lá!): 3 a 1, com direito a um gol de letra maravilhoso do inesquecível Rodriguinho (não canso de ver no Youtube):

O mesmo Paulistão em que fomos fragorosamente assaltados por uma bandeirinha que anulou gol legítimo na final contra o Santos de Neymar, Ganso e Robinho. Gol que nos daria o título (sem falar na bola na trave que o mesmo Rodriguinho colocou, nesse jogo, aos 44 do segundo tempo. Ninguém merece!).

É difícil explicar as razões de certas lembranças insistentes. O mais comum é aparecerem, sem querer, numa livre associação de ideias em que perdemos o controle. E feito criança ouvindo história, adoro relembrá-las e repeti-las cabeça adentro, pelo gosto de sentir aquele mesmo prazer experimentado lá em 1974. Às vezes acrescento imagens e situações que não recordara antes, feliz por reencontrar mais detalhes da história. Depois vem a dúvida atroz e fico sem saber se de fato ocorreram ou se são apenas desejos irrealizados, tão fortes que a gente acaba concretizando na própria memória.

Por tudo isso, resta agradecer: muito obrigado, Palmeiras, por ter me tornado um Ramalhão.

Além de sofrer torcendo pelo Santo André, Luiz Henrique Gurgel é jornalista, ex-editor de almanaque e ex-pesquisador da história do samba. Atualmente escreve para professores de língua portuguesa.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!