Histórias da História do Futebol – Cuju e Kemari

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Quem acompanha o Futebol-Arte sabe que aqui o futebol é visto como uma metáfora da vida, palco do imprevisível e do acaso. Esse ano, mais precisamente essa semana, minha pequena Ceci começou uma nova etapa de sua vida de estudante, em uma nova escola. No final do ano passado, curioso para saber como eram os estudantes formados por ali, fui assistir a apresentação das monografias dos alunos do 3º colegial e, além de MUITO satisfeito com a qualidade e maturidade dos estudantes, tive o prazer de assistir a apresentação do João Gabriel, que versava sobre as origens do futebol. Rapidamente (antes que se torne um escritor ou jornalista famoso) o convidei para compartilhar esse conhecimento e talento conosco. Aproveite!

O Primeiro – Por João Gabriel

Hoje, último dia do primeiro mês de um novo ano, estreio no blog Futebol Arte, a convite de Ricardo Roca e, por isso, meu muito obrigado. De agora em diante (ou, tomara, pelo menos enquanto a Terra dançar ao Sol) terei a honra de fechar os meses por aqui e, para começar, nada melhor que voltarmos ao início de tudo, à Bola-Mãe.

Anos, séculos, milênios antes da primeira Copa do Mundo ser disputada no Uruguai, uma bola pulava do outro lado do mundo. “No futebol, como em quase tudo, os primeiros foram os chineses” (Eduardo Galeano). Isso mesmo, os primeiros dribles foram escritos em mandarim, mais precisamente sob o nome de tsu-chu ou cuju (traduzindo: chutar a bola). Apesar de longínquo, ele é um dos jogos mais parecidos com o futebol atual e sua evidência mais antiga data entre os séculos II e III a.C. (um manual de exercícios militares chinês!). O jogo era disputado com uma bola, dois times que se enfrentavam, um objetivo – acertar a bola dentro de uma ou mais balizas, elevadas a nove metros do chão -, e não podiam ser usados mãos nem braços. Um jogo considerado extremamente difícil para a época.

Acredita-se que o jogo tenha sido criado muito antes, pelo Imperador Amarelo (Huangdi; 2697 a.C. – 2597 a.C), um dos Cinco Imperadores, lendários, conhecidos por serem sábios e moralmente perfeitos. Além do “faça-se a bola”, Huangdi também é considerado o prógono da civilização chinesa, introduziu o antigo calendário chinês, criou o taoismo e o feng-shui e desenvolveu a medicina e a astronomia chinesa, dentre muitos – muitos mesmo! – outros feitos menos importantes que o futebol.

TsuChuSabe-se que o jogo tinha duas funções: uma militar e uma recreativa. Imagine se nosso exército treinasse jogando bola? Seríamos, sem dúvida, o império mais temido do Hemisfério Sul e travaríamos batalhas épicas com os hermanos, uma força rebelde separatista originária do sul do Império. Além de estar nos manuais e nos exercícios militares, ele também era jogado como forma de diversão de homens, crianças e mulheres, da elite às classes baixas. Inclusive, alguns imperadores da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C., dinastia responsável por popularizar e difundir o jogo por todo o Império) eram praticantes fiéis do jogo e se gabavam por serem bons de bola. Não existem histórias, porém, de derrotas imperiais; ou porque o imperador chamava-se Pelé, ou então porque ninguém sobreviveu para contar. De qualquer forma, na época, existiam clubes profissionais, masculinos e femininos, que jogavam em campeonatos, celebrações e até particularmente para o imperador. Por tudo isso, muitos campos de cuju foram construídos em casas, palácios e praças e surgiram até variações do jogo, antes que este finalmente entrasse em declínio, na dinastia Ming (1368–1644), que era como aquele seu vizinho chato, que não gosta de futebol e não te devolve a bola quando você a chuta por cima do muro.

Já ao leste, os japoneses também tinham sua versão do futebol, o kemari (“mari” significa bola)! Há divergências sobre qual dos dois veio antes: apesar da evidência mais antiga ser do tsu-chu (as primeiras evidências do kemari datam de 500 a 600 anos mais tarde), o jogo japonês era muito mais simples do que o chinês. Portanto o cuju poderia ser uma evolução do kemari que, por isso, teria vindo antes. Datas à parte, no Japão o jogo não era um combate, mas uma roda de até oito jogadores que, também sem mãos e braços, deviam manter a bola no alto, tocando entre si, sem deixá-la cair. Nada muito diferente do que fazemos num churrasco. Entretanto, acredita-se que o kemari começou de maneira peculiar: soldados chutando o crânio dos derrotados pelos ares, após a batalha. Sim, antes dos samurais, jogava-se bola, já que por lá o jogo também funcionava como treinamento militar.
Kemari_Atual
A era de ouro do kemari foi dos séculos X ao XVI, quando o jogo alcançou as classes baixas e também arranhou a literatura japonesa. Nela existe uma passagem que conta sobre um imperador que, com seu time, manteve a bola no ar por mais de mil toques – dizem que a bola parecia “pendurada no céu”. Não se sabe ao certo se é verdade mas, reza a lenda, era entregue das mãos do imperador uma condecoração a cada jogador, de acordo com seu desempenho. Os japoneses até hoje praticam o jogo como forma de manter a tradição viva, replicando a bola e inclusive a roupa que era usada.

Todavia; contudo; porém!… A primeira pelota pode não ter surgido no Oriente. Existem outras possíveis origens do futebol, uma delas muito mais perto de nós do que imaginamos. Estamos falando de uma cultura antiga, um povo extinto; a lenda fascinante da guerra entre vivos e mortos, do mito da criação do mundo.

Tanta prosa, porém, não cabe num lugar só, e creio que já me alonguei demais para um debutante. Então, deixemos nossos vizinhos boleiros para outra conversa, em algum lugar no futuro próximo, de um ano, que agora, já não é tão novo assim.

João Gabriel, 18 anos, terminou Equipe, passou Jornalismo e espera Letras. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com/), desde 2012. Agora fecha meses em Futebol-Arte.

Imagem 1: imagem extraída do blog http://worldinsport.wordpress.com/tag/where-did-football-start/
Imagem 2: imagem extraída do site http://www.goldenjipangu.com/140104kyoto.html

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

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