Tragédia de Erros no País dos Absurdos

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Terminou de forma melancólica o pior campeonato brasileiro da era dos pontos corridos. Uma violenta briga entre as torcidas de Atlético-PR e Vasco da Gama deixou três feridos, em coma, e por muito pouco não provocou uma tragédia de proporções muito maiores. A culpa é farta e pode ser distribuída entre muitos envolvidos. Faltam adjetivos para qualificar a organização(?!) de nosso futebol como um todo e o ocorrido na Arena Joinville em particular, mas vamos tentar.

Incompetência – incapacidade total na elaboração da tabela; enorme dificuldade na definição dos sistemas de disputa (vide os estaduais); péssima qualidade das arbitragens; sistema de justiça desportiva arcaico, tendencioso e moralista; absoluta falta de bom senso nas definições do que não foi previsto; gramados em péssimas condições; total despreocupação com o “consumidor” no que diz respeito as condições de transporte, higiene, segurança, opções de lanche e conforto. Aqui a culpa maior recai nos dirigentes da CBF e presidentes das federações estaduais;

Conivência – salários fora da realidade, quase sempre atrasados; aprovação de regulamentos esdrúxulos que depois serão criticados por quem os aprovou; negociações obscuras com empresários de jogadores das categorias de base; total falta de ética na contratação e demissão de técnicos e jogadores; ausência de qualificação e profissionalismo para as funções exercidas, falta de pulso. Esse é o retrato da grande maioria dos dirigentes dos clubes;
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Negligência – não fosse suficiente estarmos falando de uma partida da primeira divisão do campeonato mais importante do chamado país do futebol, prestes a receber uma Copa do Mundo, a partida era disputada por duas equipes ainda envolvidas em disputa por algo; o Atlético almejando a classificação para o G4 e a Libertadores da América e o Vasco tentando fugir do segundo rebaixamento em cinco anos. Não seria razoável imaginar o grau de tensão e a necessidade de um reforço no policiamento? Não só não havia reforço como nem mesmo o número “normal” de policiais estava presente. Quem é o responsável pelo evento? CBF? Atlético-PR, como mandante da partida?;

Selvageria – ao contrário do que muitos “críticos” agora querem fazer crer, a violência nos estádios (e na sociedade) não é exclusividade nossa, mas que sociedade é essa que gera pessoas capazes de chutar semelhantes caídos no chão apenas porque torcem para outros times? Veja, não se trata de tolerar qualquer nível de violência nos estádios, mas já nem estamos nos referindo mais a “troca de socos” entre os grupos de ambos os lados; o que choca é o grau de frieza e desumanidade de quem se aproveita de uma situação para “finalizar” o rival, para usar um termo na moda dos torneios de “artes marciais”;

É chegada a hora de efetivamente fazer algo para acabar com essa situação; sair dos discursos para a ação, realizar o cadastro dos torcedores; punir com rigor os marginais infiltrados; cortar toda e qualquer ajuda que os clubes ofereçam a esse tipo de “torcedor”, que afasta mulheres, crianças e famílias do futebol; criar as Delegacias dos Torcedores nos estádios e até mesmo, se for o caso, punir os clubes com a perda de pontos.

Temos a melhor fábrica de jogadores do mundo, ainda que a quantidade de jovens craques esteja diminuindo e continue difícil manter os talentos por aqui; temos mais de uma dezena de clubes considerados grandes, com tradição, títulos internacionais e possibilidade de disputar o troféu no começo do campeonato, rivalidades com mais de 70, 80, 90 anos, dias ensolarados e clima favorável de Norte a Sul, torcidas entusiasmadas, imprensa organizada… Será tão difícil assim organizar e vender um campeonato com esses atributos?