Memórias Futebolísticas: Wesley Machado

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Dizem que a nossa memória é construída nos cinco primeiros anos de vida. E, paradoxalmente, a minha lembrança futebolística mais remota é da Copa do Mundo de 86, quando eu tinha, exatamente, meus cinco anos. E lembro que o pessoal da rua professor Mesquita, onde eu morava, no bairro da Pecuária, em Campos dos Goytacazes-RJ, se reunia na casa de uma vizinha que tinha uma TV a cores.

O que mais me recordo é da disputa de pênaltis nas quartas-de-final, na qual o Brasil perdeu para a França. Lembro-me da bola batendo nas costas do goleiro Carlos e entrando. Das cobranças da seleção brasileira não me recordo bem.

Outra lembrança daquela Copa, viva na memória, é de um dos golaços de Josimar, não lembro exatamente qual – depois soube que foram dois. Tenho a ligeira impressão que foi o gol contra a Polônia nas oitavas-de-final – o outro foi contra a Irlanda do Norte na 1ª fase.

Lembro-me vagamente que, como toda criança, estava brincando na sala, quanto avistei o lance na televisão. Um chute cruzado no ângulo. Josimar jogava no Botafogo e eu já começava a me identificar com o Alvinegro da Estrela Solitária.
Wesley_Naranjito
Até então, havia vestido algumas vezes a camisa do Flamengo, por influência do meu avô materno. Tornaria-me botafoguense, tal qual meu pai, em 89, não na final contra o próprio rubro-negro, mas num jogo da Taça Rio daquele ano em que o Bota perdia de 3 a 1 e buscou o empate com o Fla.

Mas, voltando à Copa de 86, recentemente lendo uma entrevista do Seedorf na Revista Placar, soube que o surinamês naturalizado holandês já tinha um carinho pelo seu atual time muito por conta de Josimar. Soube até que ele tinha um pôster do Glorioso no quarto.

Os anos se passaram e eu deixei de torcer para a seleção brasileira. A não ser quando tem algum jogador do (ou com relação com o) Botafogo como titular, como foi o caso da Copa de 98, em que o Brasil tinha Bebeto no ataque, apesar da campanha ferrenha pelo Denílson.

Naquela Copa, eu me encantaria por um jogador: Henry. Depois também seria seduzido pelo craque Zidane, nosso carrasco naquele mundial. E posteriormente descobriria que ele nascera no mesmo dia e mês do que eu, 23 de junho.

Daí concluí que a eliminação do Brasil na Copa de 86 me marcou também porque foi no dia 21, próximo ao meu aniversário. Neste mesmo dia, anos depois, o Fogão encerraria um jejum de 20 anos sem títulos oficiais e se sagraria campeão invicto sobre o Mengo.

O 21 de junho ainda guardava outra relação com a seleção brasileira, pois foi nesta data em que o Brasil se sagrou tri-campeão mundial em 70 no México, com o botafoguense Jairzinho marcando em todos os jogos.

Em 2010, passei a Copa toda secando a seleção – confesso – e torcendo para o Uruguai por causa de Loco Abreu. Nas quartas-de-final contra a Holanda, torci para o Brasil para que, se passasse, pegasse exatamente a Celeste Olímpica do já ídolo do Botafogo. Mas quem acabou com a festa brasileira foi justamente um chará meu Wesley Sneijder.

Para 2014, certamente teremos Jéfferson como goleiro reserva de Júlio César, que falhou em 2010. Que me desculpem os patriotas, mas vou torcer para que Júlio César não tenha vida fácil e para que Jéfferson ganhe a vaga, por mais que exista uma síndrome de Barbosa pela Copa de 50. Há dez anos, em 2003, quando Jéfferson estava na Seleção Sub-20, substituiu o então titular Fernando Henrique, do Fluminense, durante a competição (Mundial), e foi campeão contra a Argentina na final.

Alguns vão me criticar por isto. Mas é que, com o tempo, percebi que, para mim, atualmente, o Botafogo é mais importante do que a seleção da CBF.

Na foto que ilustra o texto, eu com meus pais, no meu aniversário de um aninho, com o tema do mascote da Copa de 82 na Espanha, o Naranjito.

Por Wesley Machado – jornalista com especialização em Literatura. Autor do livro “Saudosas Pelejas”.