Memórias Futebolísticas: Silvana Augusto

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O Palmeiras voltou para a série A. Ufa! Não, não sou palmeirense. Mas ainda assim, fico aliviada. E não é só pela identificação, porque eu sei o que é estar na segunda divisão. Não é só por solidariedade aos que sofrem a hecatombe da derrota e ainda tem que suportar a humilhação das piadinhas maldosas dos “amigos” que nessa hora resolvem ligar. Pior! Que aguenta os vizinhos ressentidos que ficam se esgoelando das janelas dos prédios e explodindo rojões de contentamento, mesmo que isso não signifique, diretamente, a vitória de seus times. É por outro motivo, bem mais antigo.

Esse motivo tem a ver com o fato de eu ter crescido em um lar de são-paulinos roxos. Eu já era corinthiana e não vem ao caso saber como esse acidente aconteceu. O fato é que eu não era exatamente roxa. Eu cumpria o meu papel, mas não achava a coisa mais sensacional do mundo acompanhar, por dois tempos – e quando a gente é criança, parece que demora ainda mais! –, um bando de homens que eu mal conhecia correndo atrás de uma bola. Mas eu queria ocupar aquele lugar e fazia minha parte, pelo menos o que eu achava que era o papel de torcedora naquela época.

Um dia meu pai e meu irmão se preparavam para ver um jogo muito importante. Já tinha sido anunciado o fim da minha sessão de TV. Muito lógico! Na época só tinha uma TV na casa, e se tinha jogo, não podia haver motivo que superasse em importância a tal da partida e que justificasse outro programa. Sem argumentação. Era uma final e o São Paulo estava lá! Você, leitor, não me pergunte qual era o tal de jogo. Importa saber que no dia da final do campeonato, estavam lá os dois, meu pai e meu irmão, plantados na sala. Meu pai com a roupa de pai de fim de semana. Meu irmão, de uniforme completo do São Paulo, meia esticada até o joelho – ele a usava até num calor de 35 graus, se precisasse – e chuteiras. Pai e filho sentados em frente à TV, como manda o figurino, cheios de expectativas e de orgulho tricolor.
O jogo começou e eu só torcendo contra, rindo das bolas na trave, fazendo catiça nas marcações de faltas, mandando uruca nos chutes a gol, zicando as ameaças de pênalti, enfim, explorando no limite da criatividade os parcos recursos que eu, menina tímida, tinha aprendido a imitar. Uma briga normal aqui, uma discussão ali, tudo estava valendo. Até praguejar.

Lance83Foi lá pelas tantas que eu percebi que a coisa não ia muito bem. Meu irmão parou de responder. Meu pai, de xingar o juiz. Os dois já nem me respondiam, vidrados que estavam na tela da TV. E quando já estava perto do final, os dois nem se sentaram mais. Eu fiquei olhando-os de costas. Nenhum sopro, nem suspiro. Silencio de morte. Ruído incômodo da arquibancada, lá longe. E aí o choro do meu irmão. Ai, que tristeza! Meu mano! Ele desatou a chorar alto e não parava mais. Meu pai o abraçou pelo ombro, e dizia, com a responsabilidade de um pai afetuoso: “Não chora, não chora. Nós jogamos muito melhor, é isso o que importa. Esse juiz roubou o jogo”. Só que ele dizia isso também chorando. E eu nunca tinha visto meu pai chorar. Pelo menos até aquele dia, nunca! Aquele homem grande, forte, o meu pai. O pai da gente também chora! Eu vi meu pai e o meu irmão em frente a TV, abraçados e chorando com os jogadores do São Paulo na final daquele tal de campeonato que eu nem sei qual é.

Nesse dia eu aprendi o que é ser torcedor. Entendi que torcer a favor do meu time, definitivamente não é a mesma coisa que torcer contra o outro time e que a gente perde muito mais do que uma partida quando o time da gente perde. Mesmo quando meu time ganha, eu ainda sinto a derrota dos torcedores. Até dos meus vizinhos que berram na janela. É por isso que hoje eu digo: “Ufa, seus porcos! Que bom que vocês voltaram”. E ao povo que vai cair … hei, caras … “não chorem, não chorem”.

Silvana Augusto é educadora, pesquisadora em educação, assessora, professora de professores, como se diz às crianças, corinthiana e aprendiz de escritora nas melhores horas vagas.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!

3 COMENTÁRIOS

  1. Claro que todos notaram o detalhe da manchete. Os oportunistas da chamada “democracia corinthiana” (tavam de brincation!) listados um a um, com exceção de um ou dois cartolas e “intelectuais” de apoio.
    Vamos perguntar ao ex-goleiro Rafael o que ele acha da “democracia corinthiana”? Não é só a ele, não! Vamos perguntar a qualquer ex-jogador do timeco, com exceção dos 4 ou 5 populistas, é óbvio.
    O povo caiu como patinho… ou melhor, gaivotinha… que vexame, hein!
    Até alguns artistas conceituados, até aquele momento, claro, morderam a isca!
    “Boi, boi, boi
    Boi da cara preta..
    Segunda divisão e camisa violeta!”
    Cai fora, gambá! Deixa o país evoluir!

    • Marcos,
      Tudo bem? Obrigado pela audiência e por seu comentário.
      Se acompanha o blog percebeu que meu time é o Palmeiras. Nem por isso deixo de ver as falhas do meu Verdão e os méritos de outros times, inclusive dos principais rivais: Corinthians, Santos e São Paulo.

      Todo e qualquer movimento pode ser questionado, inclusive o que ficou conhecido como Democracia Corintiana. No entanto, se leu mesmo o texto vai perceber que o enfoque era outro, o tema era outro: a compaixão. Nesse caso, assim como mencionei sobre o blog, a autora do texto, conta a experiência que a fez, mesmo torcedora de um time, solidarizar-se com os torcedores rivais.

      De qualquer forma, penso que mais importante do que definir se os jogadores deveriam ou não ficar concentrados e o valor do “bicho” que cada um deveria receber, o maior legado da tal democracia corintiana foi o exemplo e os valores que transmitiu para o imaginário popular em um momento tão importante e crucial de nossa história. Se era falso por dentro ou não não tenho como afirmar, mas com toda certeza o movimento influenciou positivamente as pessoas, torcedoras de todos os times.

      Quanto aos termos que você usa “gaivotinha” ou “camisa violeta” e os sentidos que pretende empregar ao usá-los, sugiro que leia http://54.198.123.184/opiniao/gaivotas-da-fiel-a-homofobia-continua/ e http://54.198.123.184/opiniao/voce-tem-medo-de-que-ou-homofobia-em-pleno-seculo-xxi/.

      Finalizando, parafraseando a própria autora, sua frase “Cai fora, gambá! Deixa o país evoluir!” soa um pouco ressentida. Talvez possamos conviver melhor com as diferenças.

      um abraço,

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