Memórias Futebolísticas: Heloisa Ramos

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Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Sempre?

Flamenguista que é flamenguista é Flamengo até morrer. Assim dizem os versos do hino do Clube de Regatas do Flamengo, do Rio de Janeiro, de autoria do grande Lamartine Babo:

Uma vez flamengo,
Sempre flamengo.
Flamengo sempre, eu hei de ser.

[…]
Uma vez flamengo,
Flamengo até, morrer!

Anos 50. Rio de Janeiro, capital do Brasil. Era lá que eu morava, mais precisamente na então paradisíaca Ilha do Governador, com meus pais e cinco irmãos, numa ampla e confortável casa. Filha de um “carioca da gema”, torcedor fanático do Flamengo. Tão fiel que, até em jogos da seleção brasileira, ele torcia contra.

EstolaEm nossa casa tínhamos bandeiras, flâmulas e camisas do time. O senhor Moacyr gostava de presentear a dona Adelaide, sua “patroa”, como ele dizia, com roupas nas cores vermelho e preto. Eu me lembro, pelo menos, de três trajes da minha mãe: uma saia “godê”, de losangos vermelhos e pretos, de uma blusa justa, sem manga, listrada nas mesmas cores e uma “estola” double-face, de um lado vermelho e do outro, preto.

Todo domingo, era o mesmo ritual. De manhã, praia. No almoço, macarronada com carne assada feita pelas mãos de fada da minha avó e, de sobremesa, gelatina de morango. Refrigerante não se tomava, mas uma limonada servida bem geladinha, no calor de 40 graus, era sorvida com muito gosto. E, depois do almoço, quando tinha jogo do Flamengo na televisão, invariavelmente, meu pai chamava os seis filhos, do pequenininho, que aprendia a andar, à maiorzinha, que aprendia a ler e a escrever, que era eu, para se sentarem com ele, em volta do aparelho de tv. Muitas vezes cantávamos juntos o hino do Flamengo, que ele nos ensinava exaustivamente até sabermos a letra de cor.

Flamengo_MoacyrJogo iniciado, bico calado. Não podíamos falar para não atrapalhar a audição da narração da partida. Em algumas ocasiões, lembro-me de escutar a partida narrada pela voz inconfundível do Leo Batista! Se meu pai não gostasse dos comentários do narrador, tirava o som. Se o Flamengo fazia um gol, meu pai rodopiava, dava altos pulos e soltava urros de comemoração. O difícil é que ele esperava o mesmo de nós. Torcíamos para o Flamengo ganhar. Não tanto pelo time, porque, com nossa idade, nem sabíamos bem o que era isso. Mas pelo meu pai. Se o Flamengo perdesse, sua tristeza era tão profunda, que se recolhia ao quarto e lá ficava quieto, de “cabeça inchada”, como se dizia do torcedor apaixonado que não suportava ver o time amado perder uma partida.

Um dia, ele pede para minha mãe fazer um almoço especial. Estava trazendo para almoçar em nossa casa um jogador do time do coração. Se minha memória não me enganar, era o Dequinha, um dos mais importantes e queridos jogadores rubro-negros e que jogou no time de 1950 a 1960. Muito alegre, meu pai recepcionou o melhor que pode aquele representante do seu querido Flamengo. E nós, as crianças da casa, fomos orgulhosamente apresentadas ao atleta pelo anfitrião, mas não convidadas a partilhar a refeição na mesma mesa. Naquele tempo, quando tinha visita em casa, as crianças comiam na copa, antes dos adultos. Eu me lembro de ficarmos espiando de longe aquela figura cuja presença fazia meu pai tão alegre.

No início dos anos 60, nos mudamos para Campinas (SP). Não acompanhávamos mais os jogos na televisão, acho que porque ainda não havia transmissão de programas de um estado para o outro. Meu pai, corretor de café, viajava constantemente para fazendas cafeeiras do sul de Minas e interior de São Paulo. Sem jamais deixar de ser flamenguista, ele já não acompanhava as partidas como antes.

Aos poucos, fomos nos afastando daqueles dias de torcida fervorosa pelo querido time do meu pai, o Flamengo. Disse bem: “querido time do meu pai”, pois, assim que pude, nunca mais quis saber de torcer para time algum. Ressaca da infância.

Meu nome é Heloisa Ramos. Como leram na minha crônica, não me tornei torcedora de nenhum time de futebol. Mas, admito que o esforço do meu querido pai Moacyr não foi totalmente em vão. Além de torcer para o Flamengo, ele era praticante de esporte, viajante e amante da natureza. Vêm daí minha paixão por viagem, a busca frequente do contato com a natureza e a necessidade de estar sempre em movimento. Agora, a paixão pela leitura… bem, essa vem da dona Adelaide, minha saudosa mãe. E foi por causa dela também que me tornei professora de português.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!

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