Ganhador do Oscar, argentino faz filme em 3D sobre futebol

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O diretor Juan José Campanella, 54, poderia ter feito o que desejasse após ganhar o Oscar de filme estrangeiro pelo ótimo thriller “O Segredos dos Seus Olhos”, em 2010. “Tive ofertas de grandes franquias, filmes com perseguições e explosões barulhentas, mas nada me interessou”, diz o cineasta à Folha.

Em vez disso, o argentino seguiu em frente com seu plano de fazer uma animação em 3D. E uma animação em 3D sobre futebol. Ou quase isso. “Um Time Show de Bola”, que passa hoje no Festival do Rio e estreia em novembro no Brasil, é sobre “a paixão perdida das peladas de rua jogadas quando éramos crianças”, como descreve o diretor.
Um Time Show De Bola
“Eu sempre quis fazer uma animação, antes mesmo do Oscar. Virou um gênero aceito por pais e filhos”, diz ele.

Na verdade, o desenho é a história do garoto Amadeo, um fanático por pebolim (ou totó, como é conhecido em algumas regiões), que precisa salvar sua cidadezinha de um conglomerado esportivo liderado por um inimigo de infância, o craque Grosso (“Espero que mudem o nome no Brasil, porque Grosso significa grandioso, e não perna de pau”, pede o cineasta).

Amadeo recebe a ajuda do time que controlava no pebolim e da população da vila para vencer uma partida. São amadores apaixonados contra profissionais treinados e milionários, numa espécie de “Rocky” futebolístico.

“A diferença é que no futebol você não pode ficar apanhando o tempo todo como no boxe e depois se levantar e decidir com um gol. É um processo lento, precisa empatar antes”, diverte-se.

Verde-amarelo

Há de fato um clima de nostalgia no filme, do futebol que muitos consideram morto em troca de um zumbi turbinado por preparação física, milhões de dólares e o pensamento de que “o gol é um detalhe”.

“Minha família é toda torcedora do Boca Juniors [time argentino] e não aceitávamos um jogador sair para jogar no River Plate [seu principal adversário]. Antigamente, um jogador passava dez anos no mesmo time. Agora, saem por qualquer proposta. Não há mais romantismo no futebol.”

Apesar do discurso, o argentino não se diz torcedor de futebol, nem mesmo do Boca Juniors. Talvez por isso ele tenha cometido um “erro”: a camisa do time de minijogadores que ajudam Amadeo tem as cores verde e amarelo. “Percebi tarde demais que eram as cores do Brasil”, gargalha.

“Havia um brasileiro na minha equipe e ele disse: ‘Ah, que legal. As cores da seleção verde-amarela’. Morri de medo que ficassem com raiva na Argentina.”

Mas não houve problemas. “Um Time Show de Bola” teve a melhor estreia de um filme na história do país, com 418 mil pagantes no primeiro fim de semana, batendo até os números do americano “Meu Malvado Favorito 2”.

Desde que entrou em cartaz, em junho, o filme acumulou dois milhões de espectadores, melhor bilheteria de um longa argentino em 2013.

Mas isso não credencia Campanella a escapar da famigerada pergunta. Afinal, quem foi melhor, Maradona ou Pelé? “Não sei dizer quem jogou mais, porque não entendo nada de futebol”, desvia o diretor. “Mas Maradona me deu muito mais alegria.”

Fonte: Folha de São Paulo – Caderno Ilustrada – Rodrigo Salem – 30/09/2013