A despedida – Por Humberto Mariano

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A despedida – Por Humberto Mariano

Sexta feira, passado um pouco de oito da noite. Prestes a começar o Jornal Nacional. Cumprindo um ritual de 20 anos, o homem entra em estado de concentração. A partir de agora, só sairá de sua casa no domingo de manhã direto para a Pampulha e dali para São Paulo. Domingo será um dia pra lá de importante, dia de final de campeonato e de sua carreira de árbitro profissional de futebol. Não atende telefonemas, não acessa a internet, não lê jornais e não recebe visitas. A única concessão é o noticiário noturno, desde que não veja nada sobre a partida. Todos em casa conhecem a rotina e o ajudam a preservá-la.

Sentado no sofá vê aparecer na tela da televisão Senhor e Senhora Bonner lendo as manchetes do dia. A grande decisão, é claro, está nas manchetes e ele se organiza para ir ao banheiro exatamente quando entrar a reportagem do jogo. Antes disso ouve algumas notícias, mas não consegue se concentrar. Pensa no jogo e nas decisões que terá que tomar. Sabe que a principal ele já tomou quando viu seu nome na escala. Só ele sabe qual foi. Ninguém mais sabe, soube ou saberá, nem antes nem depois do jogo. Não era um juiz corrupto, nunca recebera um tostão e olha que lhe ofereceram diversas vezes, mas, em compensação, o coração não lhe dava tréguas. Estava acima de suas forças deixar de amar o seu time de criança.

Erros95O problema não estava no amor ao seu time, coisa que todo mundo tem. O problema é que não conseguia separar aquele amor de suas obrigações como árbitro. Há dez anos sentira isso no mesmo Pacaembu do jogo do próximo domingo. Com o apito na mão, senhor do destino dos 22 jogadores, trinta e cinco mil torcedores no estádio e milhões grudados na televisão, vingara-se dos algozes de sua infância sofrida de torcedor. Escandalosa e premeditadamente tirara o título daqueles que lhe infernizaram a vida nos anos sessenta. Fez sem remorso, sentia que tinha direito. Quantas noites de choro, vergonha de aparecer na escola no dia seguinte, rádios quebrados, bandeiras rasgadas, brigas na rua, gozações sem fim. Aquele domingo dormiu aliviado.

Quatro anos depois, tentou de modo estabanado, como era seu hábito, compensar o erro de 95. Escalado para outra final, prejudicou descaradamente o time que favorecera naquela ocasião. O que uma coisa tinha a ver com a outra, somente a mente amargurada e traumatizada deste trágico homem podia entender. Aproveitou-se que o primeiro jogo era no campo do adversário e “operou” o pobre alvinegro ─ aquele que tem coisas que só acontece com ele. Não marcou pênaltis, validou gols ilegais, desautorizou bandeirinhas, expulsou jogadores, enfim deixou a festa pronta e definida para o segundo jogo. E nem se pode dizer que eram erros da Juventude; o infeliz já tinha 37 anos.

Infeliz, trágico, estabanado, mas com sorte. Entre uma lambança e outra, disfarçando as cores do coração, ia ganhando prestígio em seu meio. Já era árbitro FIFA. E até apitou jogo inaugural de Copa do Mundo. Agora, sentado no sofá, a três dias da aposentadoria, pensava em como terminar a carreira mantendo intocada sua imagem, arduamente lustrada com presentes e favores para diretores de arbitragem, palavras amigas e indiscrições para jornalistas cuidadosamente escolhidos. Dinheiro sujo nunca recebeu, é verdade. Ao contrário, gastara e muito para chegar aonde chegou.

Sua primeira ideia ao ler a escala foi apitar imparcialmente. Seguir estritamente as regras, apitar o que visse, socorrer-se dos bandeirinhas e do quarto árbitro, enfim que vença o melhor, ou aquele que merecesse. Manteve-se assim por dois dias inteiros, mas na quinta feira folheando papéis antigos, achou um velho ingresso do Maracanã. Fechou os olhos e recordou: sua primeira vez no Rio de Janeiro; mineiro embasbacado com o marzão azul, alpercatas deixadas no calçadão junto com o saco de pão de queijo que a mãe preparara, pés na areia, a calça rancheira levantada até o joelho, sentiu o frio da água do mar e lembrou das cachoeiras de Timóteo. Nem ligou quando voltou e deu pela falta dos pães de queijo. Mais tarde entrando no velho e colossal Maracanã, viu pela primeira vez, ao vivo, o seu time de coração. Sentiu uma ponta de tristeza ao ver seu grande ídolo com a camisa do adversário. Coisas da vida, pensou. No final vibrou com o empate e a vitória nos pênaltis. Era um tempo em que ainda sonhava em ser jogador profissional de futebol. E naquela tarde chuvosa de Dezembro de 1976, sonhou alto: um dia vou dar um título ao meu time.
Invasao76
Dito e feito. A oportunidade enfim chegara e a três dias de sua aposentadoria. Era agora ou nunca. E assim se fez. Ao voltar para Belo Horizonte, no domingo a noite, trazia em sua mala uma faixa de campeão brasileiro, matreiramente comprada já no táxi de volta onde entrara disfarçado com óculos escuros e boné vermelho, Ao chegar em casa, abraçou a esposa e os filhos, banhou-se e foi dormir o sono dos “justos”.

Humberto Mariano, um ateu que acredita, um santista que treme, um burocrata apressado, um economista que tem coração, enfim, um sujeito enviesado, ainda que privilegiado.

Imagem 1: manchete sobre a final do Campeonato Brasileiro de 1995
Imagem 2: arquibancadas do Maracanã na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976, entre Fluminense x Corinthians, no episódio que ficou conhecido como a “Invasão do Maracanã”