O artilheiro da Mogiana – Por Humberto Mariano

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O artilheiro da Mogiana – Por Humberto Mariano (livremente inspirado num “causo” político de Sebastião Ney)

A paixão global pelo futebol não sobrevive e cresce apenas turbinada pelos grandes clubes e seus ídolos enriquecidos, entediados e entediantes. Nem mesmo dos pequenos e médios clubes profissionais, que disputam importantes torneios na condição de eternos coadjuvantes, mas fielmente acompanhados por obstinados torcedores.

Todos nós, amantes do futebol, pelo menos aqueles com mais de 40 anos, começamos a gostar do esporte num campo de várzea perto de nossa casa. Vem dali nossos primeiros ídolos, muitas vezes eternizados em nossas memórias. De modo particular, nos dias atuais, quando nos deparamos no Pacaembu ou no Maracanã com alguns jogadores profissionais, que mal sabem dar um passe de dois metros, lembramo-nos dos craques do time de nosso bairro: o toque de bola e os lançamentos de quarenta metros do meia esquerda, da categoria do Brasilia77zagueiro central, incapaz de um chutão, e os dribles desconcertantes de nossos pontas. Ainda hoje, num domingo de manhã, encostado na reluzente Brasilia 1977, à beira de um campo da várzea da Tiquatira vejo laterais melhores que Pará, Alessandro e outros, desarmando, passando e fazendo cruzamentos certeiros no segundo pau.

Mas, vamos ao que interessa. Cidão era um desses ídolos locais. Lenda na Alta Mogiana, goleador nato, centroavante rompedor com alguma técnica, inúmeros troféus de artilheiro e campeão, nenhum de melhor jogador dos torneios que disputou durante dezesseis anos. Começou a jogar ainda menino no Guaíra Esporte Clube, o melhor time da cidade. Com dezesseis já era profissional e foi artilheiro da quarta divisão, campeonato oficial da FPF. Nos dois campeonatos em que participou pelo Guaíra sua média de gols foi de 1,80 por partida, marca jamais igualada em torneios profissionais, com mais de dez times, exceto Just Fontaine na Copa do Mundo de 58. Mas a França jogou apenas seis vezes naquela Copa, enquanto Cidão jogou trinta e oito partidas naqueles dois campeonatos.

MogianaCom o fim do Esporte Guaíra, era hora de procurar novos ares, mas que não fosse longe de sua Guaíra, onde estavam sua família e amigos, o que mais prezava no mundo, mais que dinheiro, glória e fama. Ainda que não se importasse, sua fama já corria toda a Alta Mogiana e o Batatais Futebol Clube não mediu esforços para tê-lo no time: casa, emprego na Estrada de Ferro, mais um extra pago pelos empresários da cidade. Se na empresa ferroviária ele era apenas mais um funcionário fantasma, dentro da área dos adversários continuava sendo o terror, sempre presente. E vieram os títulos e os troféus de artilheiro. Tetra campeão da Liga Batataense, vice-campeão da Primeira Divisão, tricampeão do Campeonato da Alta Mogiana, maior artilheiro da história do Batatais. Por lá ficou doze anos, jogou 403 partidas, anotou 605 gols, só dois de pênalti e um de falta. Nenhuma expulsão, nenhuma suspensão e apenas duas ausências em jogos oficiais, tão somente para voltar a Guaíra para enterrar pai e mãe. Raramente batia faltas e pênaltis porque achava que não sabia chutar. Um poço de humildade e de saúde, o Cidão.

Todo ano era aquela romaria em Batatais. Dirigentes do Botafogo e do Comercial de Ribeirão, do Guarani, do Noroeste e da Ferroviária ofereciam mundos e fundos pelo passe do centroavante. Mas a Lei do Passe dava todos os direitos para o Batatais recusar. E vieram o Corinthians, o Flamengo, o Palmeiras, o Vasco, o Internacional e nada dos dirigentes cederem. Cidão também não fazia qualquer esforço para sair. Afinal sua querida Guaíra com família e amigos estava a menos de 100 quilômetros, era reverenciado na cidade, todo mundo parava para cumprimentá-lo, falava-se até que a Câmara ia lhe dar o título de cidadão batataense, embora ele não soubesse bem para que servia esse tipo de homenagem. Casara-se em Batatais, com moça bonita, de fino trato e que lhe dera dois meninos, cara e corpo de centroavantes. A média de gols não era a mesma dos primeiros tempos. Nos doze anos de Batatais ela baixara para 1,50 por partida, ainda assim um número respeitável, maior que o titular da camisa dez da Seleção Brasileira, Ele.

No final do seu décimo segundo ano de Batatais um mal estar durante uma partida obrigou Cidão a submeter-se a uma bateria de exames. Quando entrou no hospital da cidade, acompanhado do presidente do clube, do médico, do diretor de futebol e do prefeito da cidade, todo o corpo clínico veio recebê-lo à porta. As enfermeiras paravam nos corredores e os doentes saíam das portas dos quartos e da enfermaria. Foi embora no final da manhã e os resultados, dois dias depois, foram entregues ao Presidente do clube, que de imediato convocou uma reunião da Diretoria.

Reunião tensa. Os resultados apontaram uma grave cardiopatia. Poderia morrer em meio a uma partida ao fim de um pique. Iniciaram-se as discussões e as sugestões: desde a aposentadoria, dele e da camisa 9 do Batatais, com direito a um amistoso no jogo despedida contra um dos grandes da Capital até a venda para outro clube, escondendo a doença do comprador, e, por fim, a concessão do passe livre, pequenas benesses e Cidão que se virasse. Por mais incrível que possa parecer, pelo menos para aqueles que não conhecem os escrúpulos da cartolagem, prevaleceu a última.
ReuniaoBatatais
E assim se fez. Com a conivência comprada do chefe da torcida organizada, alegaram falta de verbas para o ano seguinte, que os empresários não estavam colaborando como antigamente, que lhe manteriam na folha da estrada de Ferro e, como prêmio pelos doze anos de gols e glórias lhe deram o passe livre. Ninguém na cidade, fora os canalhas da cartolagem, entendeu os motivos, nem aceitou facilmente aqueles argumentos. Passeatas, pichações na sede do clube, coleta de assinaturas para CPI na Câmara, tudo foi tentado, mas a ignomínia se realizou.

Cidão não abriu a boca, nem entendia as razões de um lado e do outro. Achava que merecia ficar no Batatais, mas também não se julgava merecedor daquela idolatria pela parte boa da cidade. Sempre se achara um grosso de bola com alguma sorte. Craque mesmo foi o Zé Lopes, que tinha retrato com moldura na sede do clube, líder do timaço de 34, o “Fantasma da Mogiana”. Se dependesse da sua vontade, voltaria para o Guaíra Esporte Clube, mas este não existia mais. Para a Associação Atlética não iria, era o clube da elite da cidade, não combinava com ele. À boca pequena, depois de algumas semanas, a verdade foi aparecendo e os convites que antes jorravam como água de cachoeira não mais apareciam.

De volta à Guaíra, com mulher e filhos, instalou-se no modesto sítio que fora de seus pais e resignou-se com a “aposentadoria”, que no caso era o de funcionário fantasma da Mogiana. Não era muito, mas dava prá viver com certa dignidade. Não gostava de bares, nem de beber e seu dia a dia era jogar dominó na praça central com os amigos. Inválido aos trinta e cinco anos, sem capital para começar um pequeno negócio, o jeito era se conformar. Mas, de acordo com Murphy, tudo o que está ruim pode piorar. E assim foi. Alguns meses depois lhe chegou a carta da Companhia desligando-o do quadro de funcionários. Pensou em ligar para o presidente do seu ex-clube, mas desistiu. Da última vez que ligara para pedir ingressos para um Batatais e Francana, nem lhe atendeu. Mandou dizer que não estava, deu até prá ouvir do outro lado da linha.

EsposaCidaoO que fazer? Procurar emprego? O que sabia fazer? Nada, além de jogar futebol. Sentia-se bem fisicamente, mas o diagnóstico fora definitivo: poderia morrer em campo. Então, pensou. Os meninos já estão na adolescência, em breve poderiam trabalhar. A mulher, ainda linda e vistosa, nos seus 33 anos, poderia refazer a vida, até mesmo voltar a trabalhar e casar de novo. Ele, Cidão, já não fazia tanta falta. E morrer fazendo a coisa que mais gostava seria uma honra. E, além disso, poderia não morrer; médicos as vezes se enganam.

Arriscou uma ida a Brodowski, cidade pequena, também perto, onde tinha alguns amigos, especialmente no Brodowski Futebol Clube, vítima de uma infinidade de seus gols. Chegando, procurou os amigos, depois a Diretoria, que lhe fez assinar um termo de responsabilidade e começou a treinar na semana seguinte. Sentia-se feliz, arrasou nos treinos, a imprensa local se alvoroçou e fez o máximo de divulgação possível da presença do grande goleador na cidade.

Marcou-se a estreia para o domingo do maior clássico da cidade. Brodowski Futebol Clube x Clube Atlético Bandeirantes. Campo do adversário, o velho Estádio Mario Lima Santos, inaugurado em 1935, estava totalmente lotado. Os cinco mil lugares nas arquibancadas, as cem cadeiras de pistas para dirigentes e políticos acompanhados de seus parentes e agregados e ainda providenciou-se uma tribuna de honra para os herdeiros de Portinari, a família mais ilustre da cidade. Vieram os amigos de Guaíra, os de Batatais, a Francana mandou um olheiro (quem sabe, aqueles médicos estariam enganados) e até diretores do Batatais Futebol Clube, aqueles mesmo calhordas, vieram ver o jogo. A TV Ribeirão mandou uma equipe; iria transmitir para toda a região e os gols seriam mandados para ao Fantástico daquela noite. Uma hora antes do jogo, a polícia fechou as entradas da cidade; o pessoal de fora chegara de manhã, lotara os restaurantes, o Museu Casa de Portinari, a Capela de Santo Antonio, de Santa Cecília e a Igreja Matriz. Quem não foi ao campo, lotou os bares na Praça da Matriz, o restante ficou em casa grudado na televisão.

Quatro da tarde, trinta e quatro graus de temperatura, começa o jogo. Movimentado e disputado como sempre e todos os olhos voltados para o número nove do Brodowski. Muito bem marcado, Cidão passou o primeiro tempo em branco, mas colocou duas na trave para delírio dos brodowskianos. Seu marcador pediu-lhe a camisa no intervalo. Ele deu, engrenaram um papo; até pararam à beira da entrada dos vestiários para continuarem conversando. Chamava-se Jean Claude, vinte e um anos, morava em Guaíra também, era seu fã e um dia iria visitá-lo no sítio.

BatataisVeio o segundo tempo e o jogo continuava lá e cá. Cidão já não se deslocava tanto quanto no primeiro tempo, mas toda vez que pegava na bola a assistência levantava. Vibraram quando enfiou uma bola nas pernas de Jean Claude, mas o outro zagueiro chegou e derrubou-o sem dó. Noutra jogada deu um chapéu no mesmo zagueiro e aí foi Jean Claude quem o jogou no chão. Os dois se revezavam em bater e o juiz fazendo a maior vista grossa. Não havia essa estória de cartão amarelo nem vermelho e o pau corria solto. Expulsão só em caso de fratura exposta. No máximo, uma advertência inócua: “Mais uma dessa, chuveiro”. E o pau comendo.

Era um zero a zero que dava gosto ver. Goleiros trabalhando, defesas sem descanso, meio de campo fazendo a bola rolar e os ataques correndo, se deslocando e chutando. Se Fiori estivesse presente diria “Crepúsculo de partida, 43 minutos do segundo tempo”. Bola na defesa do Brodowski, que passa ao meio esquerda. Antes de dominar, o meia já ouve o grito do intrépido centroavante; “toca, toca” . E Cidão se põe a correr. atento para não ficar em impedimento, e a bola lhe é tocada com a perfeição dos meias de antigamente. Na corrida, Jean Claude já tinha ficado; veio o segundo zagueiro e tomou o drible da vaca, tentou agarrar com os braços, cadê Cidão? O lateral partiu na cobertura e mandou um carrinho visando as canelas do artilheiro. O breque e o corte para dentro foram desmoralizantes e o infeliz lateral só foi contido pelo alambrado. Desesperado, o goleiro sente que chegou sua hora. Sai para fechar o ângulo, mas o artilheiro não se dispõe a chutar. Então avança ainda mais e atira-se aos pés do centroavante. Um leve toque e o chapéu humilhante. De barriga no chão, vira a cabeça e vê a bola ser tocada pelo artilheiro para o gol vazio.

Treme o estádio, pipocam os rojões, abraçam-se os amigos, as arquibancadas em delírio e o artilheiro estático na linha do gol, o olhar vazio, o peito ofegante, a cabeça girando. Pela primeira vez em sua carreira sente as pernas tremerem. Os companheiros não ousam aproximar-se. Imaginam que ele queira curtir sozinho aquele momento de glória. Em alguns segundos, a multidão percebe algo diferente no ar e silencia. O calor sufocante torna o silêncio ainda mais ensurdecedor. Nenhum pio, nenhum suspiro, nem um ai das quase dez mil pessoas ali presentes. Todos os olhos voltados para o grande jogador: o maior ídolo da Alta Mogiana, o maior artilheiro, querido e amado por todas as torcidas.

De repente, a queda. Seca, brusca e definitiva. Antes que o primeiro companheiro chegasse, jazia na grande área, morto, o grande Cidão, Alcides Salustiano da Silveira. Comoção geral, estádio esvaziado num silêncio comparável as tragédias do Maracanã e de Sarriá. Traslado para Guaíra, enterro com banda de música, bandeiras da cidade, do Batatais (que ignomínia) e do Brodowski Futebol Clube. O Batatais prometeu, e ainda não cumpriu, busto na entrada do estádio, a cidade Guaíra deu seu nome a uma rua da periferia da cidade e Brodowski ofereceu à viúva um busto com a figura do grande artilheiro entalhada em madeira nobre, um lembrança para toda a vida.
Homenagem ao inesquecível artilheiro Cidão
A vida seguiu seu curso. A viúva, agora paupérrima, mas ainda vistosa, continuava no sítio morando com uma tia mais velha. Na casa, o único objeto de algum valor, artístico e sentimental, era o busto entalhado do glorioso Cidão, solenemente instalado no centro de uma velha estante. Os meninos já estavam em Ribeirão trabalhando em usinas de cana e dormindo em alojamento de peões. Eis que numa tarde recebem uma visita. Era o zagueiro Jean Claude, que vinha prestar tardias condolências à recatada viúva.

Veio uma vez, veio duas, depois uma vez por semana, em algumas duas. Sentados embaixo da mangueira, conversavam boa parte da tarde e então Jean Claude tomava o caminho de casa. Um dia a prosa se estendeu, a noite chegou, a lua não veio, as nuvens cobriram o céu de Guaíra e o jeito foi Jean Claude entrar e esperar a chuva passar, torcendo, é claro, para que ela durasse tanto quanto o dilúvio dos tempos de Noé. Dentro de casa, a viúva ofereceu um café, ele aceitou, a tia lembrou: “Nosso gás acabou faz tempo”. A viúva não esmoreceu: “Use o fogão a lenha, tia”. De novo, a velhinha: “Tem lenha mais não, cabô hoje de manhãzinha”.

A viúva se levantou, deu uma olhada na velha estante e não titubeou: “RACHA O ARCIDES”.

Humberto Mariano, um ateu que acredita, um santista que treme, um burocrata apressado, um economista que tem coração, enfim, um sujeito enviesado, ainda que privilegiado.

Imagem 1: Brasília Azul sendo admirada em algum campo de várzea da Tiquatira
Imagem 2: Vagão de trem da Alta Mogiana
Imagem 3: Reunião da diretoria e de toda a sociedade batataense
Imagem 4: Esposa linda e vistosa, nos seus 33 anos
Imagem 5: “O pau comendo”
Imagem 6: Busto do grande artilheiro Cidão entalhado em madeira nobre