Memórias Futebolísticas: Edi Fonseca

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Com os colegas da empresa onde trabalhou; Mario Fonseca é o 1º da esquerda para a direita, agachado, abaixo do goleiro, no campo do Nacional, no Bom Retiro, em São Paulo.

Meu pai – Corintiano Roxo
Meu pai era um homem e tanto! Honesto, trabalhador, criativo, carinhoso, intempestivo e corintiano! Aqueles que conheceram Mario Fonseca sabem bem o que falo e não me deixam mentir.

Amava os filhos, era apaixonado pela esposa e… pelo Corinthians! (Sorte da minha mãe já ser corintiana quando se conheceram.). Ele era intenso nas suas emoções, sentimentos e possuía um temperamento bastante instável – tudo estava bem, mas em 5 minutos tudo poderia ficar péssimo, logo em seguida tudo ficava bem novamente… e assim sucessivamente. Nas curvas sinuosas de seu humor, muitas vezes explodiu. Nesses momentos quem estava perto se calava, pois seus olhos azuis só faltavam pular das órbitas. Esbravejava, mas com a mesma facilidade se arrependia e pedia desculpas.

Como falei anteriormente, era muito, mas muito amoroso e cuidadoso com a família, contudo, um pouco radical em suas convicções. Por exemplo, ninguém teve a chance de escolher o time que torceria. Isso era um mandato que vinha junto com o nome e com os genes: todos os filhos nasciam corintianos. E nunca isso foi uma questão a ser discutida – era simplesmente óbvio na cabeça dele.

Lembro – me de uma vez quando pequena, ao ver meu time perder vários campeonatos dizer baixinho para a minha mãe: – Acho que não quero mais torcer para o Corinthians. Ela ficou desesperada que meu pai escutasse e também respondeu baixinho: – Pelo amor de Deus, não deixe teu pai ouvir uma coisa dessas!

Dia de jogo
Ao relembrarmos meu pai e seu amor pelo time, somos obrigados a falar de seu comportamento de torcedor. Dia de jogo era tenso! Ele xingava os jogadores com palavrões de seu repertório, gritava, fazia cara feia, às vezes silenciava com olhos de raiva pela falta de sorte ou inabilidade dos jogadores, pela incompetência ou escolha errada do técnico ou ainda pelas falhas do juiz.

O negócio era o seguinte: Se numa tarde de domingo o Corinthians ganhasse, no próximo jogo todos nós deveríamos sentar nos mesmos lugares e tudo o que estava ao redor dele voltaria para a mesma posição: radinho de pilha, jornal, maço de cigarro, isqueiro etc. Era uma loucura!!! A gente nem respirava! Se alguém resolvesse ir ao banheiro e nesse meio tempo saísse um gol do Corinthians, tudo bem – talvez esse alguém tivesse apenas o trabalho de levantar e ir ao banheiro mais algumas vezes durante o jogo na fé de que outros gols fossem marcados. Agora, se a saída coincidisse com um gol do adversário, pobre infeliz… Tudo isso virava piada depois, contada até mesmo por meu próprio pai que ria bastante de suas maluquices.

Bando de ‘louco’
Foi em 77 – ano que minha irmã nasceu e eu contava 10 primaveras completas – quando o Coringão saiu da espera dos 23 anos. Devo ter dormido durante a partida e fui acordada para ver o replay do gol de Basílio e a festa pela televisão em preto e branco. Foi emocionante ver a torcida alvinegra enlouquecida de felicidade… Morávamos no Bom Retiro em um prédio sem elevador. Meu pai desceu pra ver a folia na rua e quando voltou, trouxe a notícia que um primo seu tinha ido ao estádio, passado mal com a forte emoção e morrido de infarto.
Mal sabíamos que 4 anos depois ele também enfartaria (não num jogo do Corinthians, caro leitor) e nos deixaria com tantas saudades de sua presença sempre tão vibrante e de seu enorme amor.

Ao ouvir pela primeira vez: “Aqui tem um bando de ‘louco’, ‘louco’ por ti Corinthians…” achei que cabia direitinho pra ele. Em se tratando de time, era tudo o que eu tinha visto e aprendido desde pequena.

Na Libertadores e no Mundial do ano passado meus irmãos, minha mãe e eu nos telefonávamos ao final dos jogos. Todos nós ao atendermos gritávamos: Vai Curinthiá!!! E sem precisar comentar nada, lavamos a alma por ele também.

Edi Fonseca é pedagoga, contadora de histórias, atriz e corintiana desde que nasceu.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!

7 COMENTÁRIOS

  1. Edi…que linda história. Eu estou fazendo parte dessa família oficialmente à 12 anos e não conheci o seu pai, mas lendo seu relato, parece que eu estava vendo a cena e me emocionei , mesmo porque ele é sempre citado nas nossas reuniões de família. Tenho certeza que o Eduardo deve lembrar também de algum outro fato interessante para podermos publicar e rirmos juntos . Parabéns!!!

  2. Me emocionei…nao tinha como ser diferente… Apesar de ser a que menos conviveu com ele, me sinto muito parecida, sou intensa tbm nos sentimentos…mas diria que a proporção êh um pouco diferente…rsrsrsrs… Alias, meus irmãos tbm são assim… Como tinha 04 anos quando ele faleceu, o que sei dele êh pelo que os meus irmãos e pessoas me contam…e sempre gostei muito de ouvir…tenho sempre vontade de saber mais… O coringao eu amo de paixão, pois eh como se eu tivesse mais perto dele todas as vezes que assisto um futebol ! Teve uma vez que eu desfilei na gaviões da fiel e quando fui a quadra no ensaio em que aquela torcida imensa de bando de louco canta o hino e todas aquelas musicas de estádio maravilhosas eu pensei : Pai, eh pra vc ! Assim como no dia do desfile que dediquei a ele tbm !!! O mais engraçado de tudo eh que hoje sou casada com um torcedor do coringao que sem saber faz as mesmas coisas em dia de jogos… Tira tudo da sala que tem a cor do adversário, sai da sala e volta pulando com o pé direito, deixa tudo igual ao ultimo jogo se o resultado foi positivo…enfim…somos mesmo um bando de louco !!! Adorei o texto Di… Amo minha família… Amo fazer parte disso tudo. Obrigada por existirem e me ensinarem tanto. Beijos.

  3. Edi Curti muitão !! Teria dorado ver um jogo do Timão com seu pai, especialmente porque sou filho de um palmeirense parecido, cuja tristeza na vida era ter um filho corintiano, mas filhos homens são sempre mais contraventores !! Linda estória ! que bom que vc postou. Grande beijo

  4. Realmente filha, parabéns pelo texto e eu confirmo tudo pois vivi com ele quase 26 anos entre namoro e casamento, saudades com certeza.
    Um homem que gostava de mim pra caramba e eu dele, como seria bom se estivesse aqui, vivendo com seus filhos, criaturas especiais cada qual com suas potencialidades e desenvolvimento, eu tenho orgulho dos três, imagino ele, com todo seu entusiasmo.
    Corintiano de mão cheia, herdou essa herança de seu pai, Francisco.
    Edi, beijos no seu coração minha filha!!!

  5. Eu estava lá no dia dessa foto, assim como em todos os jogos que ele participou. Não há como lembrar e escrever sobre isso sem chorar. Lembro-me que contava os dias para chegar o sábado e irmos até o Nacional. O legal é que antes dos adultos jogarem eles faziam uma partida com os filhos dos jogadores. Um dia, no intervalo de um jogo, eu fui para o gol e ele começou a chutar a bola devagar para eu defender (eu tinha 8 anos). Aí veio o jovem que esta na foto agachado à direita e começou a chutar também. Acontece que teve uma hora que esse cara chutou muito forte e bateu na minha barriga me fazendo cair para trás. Meu pai saiu correndo atras dele e começou a socá-lo, mas teve um soco que pegou na trave e o deixou com a mão toda inchada. Os outros jogadores logo vieram apartar a briga. O legal é que esse cara era nosso vizinho lá no Imirim… Ficou um clima bem legal… Rsrsrsrsrsrs
    Meu pai, meu Herói!!!!
    Um dia, ouvindo o jogo do Timão pelo rádio, passei boa parte do segundo tempo fazendo figa do azar quando o adversário atacava e a figa da sorte quando o Coringão atacava…. E ai de mim se eu me atrapalhasse nas
    figas….
    Fui em muitos jogos com ele no Pacaembu. Ele sempre dizia que o Corinthians nunca perdeu quando íamos juntos ao estádio. Tenho muitas saudades dele!!! Sou Corinthians, nao sou fanático, mas herdei muitas loucuras…rsrsrs
    Um beijo Di. Muito obrigado por me fazer lembrar desse tempo.

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