Um dia especial – Por Humberto Mariano

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Um dia especial – Por Humberto Mariano

Plaza_de_MayoVinte e oito de março do ano da graça de 1954, um domingo de sol radiante na cidade de São Paulo e um sol tímido na cidade de Buenos Aires. Pelas calles calmas do bairro Flores, o garoto caminhava em direção ao Parque Chacabuco onde tinha marcado um encontro há tempos desejado. Eram quase uma da tarde e ele não podia se atrasar. Depois daquele encontro ainda tinha outro ainda mais especial, no bairro de Boedo, dois quilômetros adiante do Parque.

Chegando ao parque escolheu um banco à sombra, afastado dos caminhos mais percorridos pelas centenas de pessoas que naquele horário já buscavam suas casas para a parrillada de domingo. Tivera grande trabalho em convencer a mãe que não iria almoçar em casa, aliás, em lugar nenhum por conta dos dois compromissos do dia, que para ele tinha tanta importância quanto entrar na faculdade de Química no ano seguinte. Filho de um italiano com uma argentina, também descendente de italianos, tinha pele e olhos claros, e cabelos pretos que já davam sinais que não durariam muito. Nunca lhe incomodara os sinais precoces da futura calvície, aquela testa mais exposta que a de seus amigos, mas agora não era a sua opinião que importava.

IsmaliaPensou em Ismália. Também filha de imigrantes, dezesseis anos, linda, rosto angelical, sempre com vestidos floridos, um andar seguro, uma voz macia e o adorável sotaque portenho, que ele não absorvera porque em sua casa pouco se falava o castellano. Imerso em seus pensamentos, não percebeu a aproximação do objeto da sua paixão e devoção. Quando o delicado perfume lhe atingiu virou o rosto e a viu. Tímido e desajeitado, cumprimentou-lhe estendendo a mão e convidou-a, educadamente, para sentar. Conversaram por quase meia hora as coisas triviais da adolescência – aulas, cinema, tango, o próximo baile da escola – e se despediram. Mais uma vez ele não tivera coragem de falar em namoro, que ficou para a próxima vez. Já estavam no terceiro encontro, no mesmo parque, com os mesmos assuntos e ele não conseguira. Tudo bem, agora é hora de seguir para Boedo.

Em quinze minutos estava lá. Era sua segunda casa, El Gasòmetro, o estádio do seu querido San Lorenzo de Almagro, que para ele será sempre o grande e magistral El Ciclón. El Gasómetro era o maior estádio da Argentina, setenta e cinco mil lugares, onde assistira, sempre no mesmo lugar, ao lado de seu pai, á todas as partidas da inesquecível campanha do título nacional de 1946. Como esquecer as jogadas do Terceto de Oro? Que ataque fabuloso formado por Chueco Farro, Rinaldo Martino e seu grande ídolo René Pontoni. Quantas goleadas. Alegrias só comparadas á sua vibração com as cestas que o pai fazia jogando basquete pelo San Lorenzo no ginásio ao lado do estádio. O ano de 1946 apresentara-lhe outro trio fabuloso e inesquecível – Zizinho, Heleno e Jair – trio atacante da seleção brasileira que jogara três vezes em El Gasómetro no Sulamericano daquele ano. Estivera lá nas três partidas e pressentiu que aquela seleção ainda ia dar muita dor de cabeça para seus patrícios. Mas isso ainda ia demorar alguns anos. Por ora “somos los mejores”.
El_Viejo_Gasometro
Em compensação, 1954 não estava sendo um grande ano. Persistia o jejum de título desde o ano encantado. Oito anos sem um título de expressão, exceto a Copa de La Republica em 1943. Mas o que doeu neste 1954 foram as despedidas de Chueco Farro e do grande Pontoni, este em melancólico fim depois de perambular por seis anos em equipes estrangeiras. O ídolo maior de El Ciclón nunca mais foi o mesmo depois da grave contusão de 1948; saiu da Argentina, esteve na Colômbia e no Brasil. No Brasil jogou na Portuguesa de Desportos, onde conheceu um médio chamado Santos. Um dia, andando pelas ruas do clube, Jorge o encontrou de cabeça baixa, quase arrastando uma das pernas (aquela fraturada no jogo contra o Boca em 1948). Tomou coragem e dirigiu-lhe a palavra. Conversaram por alguns minutos. Falaram do passado e recorda-se bem de uma frase de Pontoni: “Guarda esse nome, Santos, um médio com quem joguei lá no Brasil. Em pouco tempo, ele será o maior médio direito do mundo e nunca mais haverá outro como ele. Você irá ouvir falar dele para todo o sempre ou então um dia você estará muito perto dele”. O jovem Jorge nunca esqueceu seu ídolo, nem aquela frase.

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E o jogo de hoje? Por que viera? Força do hábito, talvez. Fazia dez anos que vinha a El Gasómetro. Fazia três o velho lhe permitia vir sozinho. O velho estava desanimado com El Ciclón. Lembrava-se dos bons tempos e se lamentava. Ele não. Tinha confiança que a época dourada voltaria. O adversário de hoje era um time brasileiro chamado Santos. Recordou a frase de Pontoni, mas descartou qualquer relação. Aquele era um jogador, este um time. Com história parecida com a do San Lorenzo, com a diferença que não era time da capital. Também amargava um jejum, mas tinha tido grandes times no passado. Como seu time, também enfrentava gigantes do futebol da província. El Ciclon batalhava espaços nos jornais com o Boca, o Racing e o Independiente. Aquele time de uma cidade de praia enfrentava o Corinthians, o São Paulo e o Palestra Itália, times da capital. Lera tudo isso no Clarin num artigo sobre o jogo de hoje. Simpatizou com o adversário, afinal era um simples amistoso. Se morasse no Brasil, Jorge teria dificuldades em escolher entre este time e o Palestra Itália. Provavelmente seu pai viraria palestrino e ele santista. Pensou nisso e sorriu. Qual o que? Quando me casar com Ismália nunca mais saio de Flores. Minha vida estará completa e realizada. Se Henrique IV havia dito que Paris vale uma missa, o adolescente Jorge se contentava com o espaço entre Flores e Boedo, seja para ir à missa, seja para o futebol.

Foi um bom jogo. Movimentado desde o início. O San Lorenzo saiu na frente e parecia que ia golear. Fez dois gols, com Silva e Coll, continuou indo prá cima, mas o Santos não se abalou. Tocou a bola e Álvaro fez um gol antes de terminar o primeiro tempo. Quando começou o segundo tempo e o jogo começou a rolar, definitivamente, Jorge abandonou qualquer dúvida. Se morasse no Brasil seria torcedor do Santos. Encantou-se com o toque de bola, a volúpia pelo gol e o jogo limpo como as camisas, imaculadamente brancas, cor de que gostava muito. O Santos envolveu o San Lorenzo e virou o jogo para 3 a 2, com dois gols de Vasconcelos. Desfilou categoria e competência no gramado e atendeu, mesmo sem saber, as súplicas de Jorge para que terminasse em empate o jogo de seus dois times para o resto da sua vida. Hélvio fez um gol contra no final da partida. Jorge foi pra casa cheio de alegria. Daquele time guardou alguns nomes: Formiga, Del Vechio, Álvaro, Vasconcelos, Tite, Hélvio, naturalmente, e Zito, que lhe chamou muito a atenção. Era um menino que mandava em gente grande, tão diferente do tímido Jorge, e este nunca mais esqueceria o dia vinte e oito de março do ano da graça de 1954.
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Naquela noite, antes de dormir e sonhar com Ismália, rezou para a Virgem Maria. Fez-lhe dois pedidos e uma promessa. O primeiro pedido era ajudá-lo a casar-se com sua deusa. O segundo que abençoasse o seu San Lorenzo e seu novo time e que, a critério de Nossa Senhora, qualquer um deles viesse a ser o melhor time de futebol de todos os tempos. Prometeu, também, que caso os pedidos fossem atendidos, ele dedicaria sua carreira aos jovens e faria de um de seus futuros filhos um padre ou freira, realizando, de forma enviesada, o sonho de sua mãe, o que ele não poderia fazer por causa do amor a Ismália.

O tempo passou, entrou na Faculdade, continuou tímido e encontrava-se, as vezes, com Ismália, no mesmo Parque Chacabuco, na mesma hora, sempre antes de ir para El Gasómetro assistir os vexames do San Lorenzo. Fora das aulas, além dos estudos e dos versos que escrevia para sua amada, vasculhava no Clarin as notícias de seu segundo time. E ficava feliz. A passagem por El Gasómetro fizera bem aos peixeiros. Era assim que, pejorativamente, os da capital, tratavam os santistas; mais um motivo para Jorge se apaixonar pelo time; não suportava injustiças e estava sempre do lado dos oprimidos. Oprimido, mas forte, o seu time “brasileno” já ganhara dois campeonatos da província, seus jogadores estavam sempre na seleção e até ouviu falar de um Menino, quatro anos mais novo que ele próprio, mas que já fizera sua estreia pela seleção fazendo gol na sua Argentina. Mas, como quase sempre acontecia, a Argentina tinha vencido.

Em Dezembro daquele ano de 1957, já graduado em Química, a estocada fatal. Ismália comunicou-lhe o fim dos encontros e das conversas. Tinha se apaixonado por outro rapaz, casaria-se em poucos meses. Para consolá-lo ainda declamou um verso: “E como um anjo pendeu as asas para voar; queria a lua do céu, queria a lua do mar”. Era o fim para Jorge depois de tantos anos de amor, de devoção, de entrega, para tudo acabar num banco do Parque Chacabuco. Reuniu a dignidade que lhe restava, levantou-se, partiu e não olhou para trás. Nunca mais olharia para trás. Ficou dando voltas pelo bairro do Bodeo até altas horas. Chegou em casa bem tarde, levou uma bronca e já no dia seguinte acordou tossindo, No hospital diagnosticaram grave pneumonia. Passou três meses por lá e saiu recuperado física e moralmente. O tempo de reflexão abriu seus olhos e seu coração. Descobriu sua vocação de menino tímido, solidário, intransigente com a injustiça, a empáfia e a hipocrisia. Finalmente iria realizar o sonho da mamma e, agora sabia, o dele próprio. Entrou no seminário, formou-se em Filosofia e Teologia e dez anos depois foi ordenado jesuíta.

No dia de sua ordenação recebeu, como já era costume, mais uma boa notícia do seu time brasileiro: o segundo tricampeonato da província. Naquela altura, Jorge já tinha comemorado uma penca de títulos provinciais, nacionais, continentais e intercontinentais. Esquecera-se até das agruras do seu querido San Lorenzo. Divertira-se muito no seminário contando a piada do sujeito que em Roma perguntava: “Quem é aquele sujeito que está ali do lado d’Ele? E o outro respondia: Sei lá, acho que é o Papa”. Pena que ele, um pobre jesuíta, jamais teria a oportunidade de encontrá-Lo. Era sua única frustração. De resto era só alegria, um sorriso contagiante, uma presença marcante numa caminhada incansável pelas favelas e pelos bairros pobres de Buenos Aires. Enfim, o jesuíta Jorge Mário Bergoglio era um homem feliz.

Voltando a São Paulo de 1954, o prefeito Jânio Quadros mandava bilhetinhos tentando melhorar o caótico trânsito, as ruas esburacadas, a falta de médicos na periferia, a falta de segurança na cidade, a falta de creches, as escolas de madeira e a corrupção, mazelas que existiam na época. Puro jogo de cena, porque o homem da vassoura só pensava naquilo: a Presidência, mesmo que precisasse dar uma passada rápida pelo Governo do Estado. E na periferia da Zona Leste, no bairro de São Miguel Paulista, no sábado 27 de março, o operário João Batista estava entre feliz e preocupado. Feliz porque em algumas horas poderia nascer seu filho ou filha. Preocupado porque era o sexto, mais uma boca para alimentar naqueles tempos bicudos. Já tinha três mulheres e dois homens. Torcia para que o jogo terminasse empatado e que não houvesse qualquer prorrogação. Acertou. A criança esperou apenas chegar o dia vinte e oito de março do ano da graça de 1954. Quando o domingo tinha apenas trinta minutos, um choro ecoou. João Batista abriu a cortina do quarto e perguntou para a parteira, sua sogra: É homem ou mulher? E ela, de pronto: É SANTISTA.

O garoto nasceu, portanto, no dia em que o jesuíta Mario Jorge Bergoglio se apaixonou pelo Santos e lembrou-se de outro grande Santos, o Djalma. Sujeitinho privilegiado, esse garoto. Ficou até amigo do Ricardo Roca alguns anos mais tarde.

Humberto Mariano, um ateu que acredita, um santista que treme, um burocrata apressado, um economista que tem coração, enfim, um sujeito enviesado, ainda que privilegiado.

Imagem 1: Foto antiga de Buenos Aires
Imagem 2: A jovem Ismália
Imagem 3: Antigo estádio do San Lorenzo
Imagem 4: Renê Pontoni
Imagem 5: Djalma Santos
Imagem 6: Time do Santos – Anos 50
Imagem 7: O então jovem jesuíta Jorge Mario Bergoglio

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