Ora de meia, ora de papel

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Ora de meia, ora de papel – Por André de Castro Cotti Moreira

A primeira vez que o vi foi no Senac, começando o ginásio. Sentou-se na carteira ao lado e olhou o mundo da sala de aula como se a sala de aula fosse um mundo inteiro. Olhos ávidos, ouvidos atentos e espírito inquieto, puxou conversa sobre o assunto que mais rapidamente aproxima ou distancia garotos: futebol. No nosso caso a aproximação foi instantânea, apesar de eu ser corintiano e ele palmeirense, e quiz saber da sua história. Vinha da Casa do Pequeno Trabalhador. Contou-me da rigidez da educação, dos uniformes azuis-marinhos com botões dourados inspirados nos militares e, principalmente, da dificuldade diária em se relacionar com o “Seu” Sebastião, Diretor-Inspetor da escola, um negro que não conhecia o sorriso, botava medo pelo físico avantajado e intimidava pelo título que ostentava: campeão de boxe em 1920. Carlos Alberto (esse é o nome dele) contou-me que era um dos “favoritos” do seu Sebastião, favoritismo em parte gerado pela fama que lhe deitaram e que lhe rendeu ser injustamente acusado por artes de colegas, e em parte por razões reais que justificadamente lhe renderam a fama, como jogar ping-pong com os pés e gritar “gol” quando a bolinha estufava a rede da mesa… Em situações como essas, Seu Sebastião invariavelmente aparecia com o senho franzido e os olhos vermelhos, agarrava-lhe as orelhas e o levantava do chão, enquanto esbravejava impropérios.

Os anos se passaram e juntos passamos os anos. Fomos trabalhar na mesma empresa produtora de caixas registradoras, a NCR Brasil, eu no 2º andar e ele no 6º. Ao meio dia nos encontrávamos na frente do prédio localizado na avenida Ipiranga e, como naquela época o intervalo para o almoço durava duas horas, tínhamos tempo suficiente para alimentar o corpo e o espírito. Frequentemente íamos a um restaurante com comida boa e farta e permutávamos alguns itens. Como ele não tolerava leite, trocava o copo de leite dele com um bife meu, que ele saboreava com gosto, antes de se tornar vegetariano…).

No caminho para o restaurante, ainda mais animados com o futebol pelos recentes títulos mundiais conquistados pelo Brasil (era o ano de 1966) íamos bolotando, ora com bola de meia, ora de papel. Desde então admirei seu controle. Cruzávamos o Parque Shangai inteiro pelotando sem deixar a bola cair, aproveitando o gramado liso e vendo nas várias árvores então existentes os imensos zagueiros suecos ou tchecoslovacos, os quais driblávamos com facilidade. Atualmente esta é a área do Parque Dom Pedro, onde não mais se pisa em gramados, se controla bolas de meia ou de papel, ou se ludibria zagueiros em finais de copas…

A volta do almoço era o momento das conversas que fizeram com que nos aproximássemos mais e nos tornássemos íntimos amigos, o que somos até hoje. Cruzávamos as avenidas do centro de São Paulo, então tranquilas de serem cruzadas, conversando e tentando entender o mundo. Bem verdade que por vezes essas conversas eram inesperadamente interrompidas. Animava-me com o diálogo, seguia conversando e, no meio da Senador Queiroz ou de outra grande avenida, pegava-me falando sozinho. Olhava para trás e via Carlão parado na calçada, olhos ávidos, ouvidos atentos e espírito inquieto, tentando entender o que ocorreria com aquele mundo no qual se brincava com bolas, ora de meia, ora de papel.

André de Castro Cotti Moreira é mais um amante do futebol que, quando criança, achava que seria um craque, e que hoje, apesar de ter certeza que não seria, ainda gosta de sonhar o contrário.

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