Corintiano tem cada uma

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Corintiano tem cada uma – Por Humberto Mariano

Entre os incontáveis e interessantes livros do talentoso e midiático corintiano Washington Olivetto, existe um, lançado em 2009, com o título “Corinthians x Outros.” Texto bem humorado, boas tiradas, um pouco de informação, enfim uma leitura agradável. Nele, o autor descreve quatorze hipotéticos confrontos entre o melhor Corinthians de todos os tempos, em sua opinião, contra o melhor de grandes times nacionais e internacionais, escalados por personalidades amigas do autor, torcedores do Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Barcelona, River Plate entre outros. Estes, segundo o autor, jogavam com os seus jogadores menos ruins, enquanto o alvinegro ribeirinho jogava com os seus melhores.

WO escalou assim o seu melhor Corinthians: Gylmar, Zé Maria, Gamarra, Roberto Belangero e Wladimir; Rincón, Marcelinho Carioca, Neto e Rivelino; Ronaldo e Sócrates. No banco ficaram Dino Sani, Casagrande e Tevez. Nem mesmo a subjetividade e o sagrado direito de escolha e opinião justificam a presença de Rincón e a ausência de Cláudio e Luisinho. Em 2009, Olivetto, nem era tão jovem que não os conhecia, nem tão velho que pudesse usar a senilidade como justificativa. A escalação do esforçado Zé Maria até se explica: o Corinthians nunca teve um lateral direito melhor que ele. Que coisa triste. Quanto ao Tevez, provavelmente, sua presença deve-se ao imorredouro desejo corintiano de deixar de ser um time de província, feito parcialmente conseguido apenas em 2102, ou seja, escalou um estrangeiro para se fingir cosmopolita.

Os confrontos iam se sucedendo nas páginas do livro e o Corinthians, mesmo com Zé Maria e Rincón ia vencendo todo mundo. Afinal, justiça seja feita, o autor nunca negou sua intenção de fazer humor. Por freudianas razões deixou para o final o confronto com o Santos Futebol Clube. E, vingando-se dos 11 anos de humilhações, do título paulista de 84 e do Brasileiro de 2002, Olivetto fez, com um boa dose de razão, o seu Corinthians vencer por 1 x 0.

Com uma dose de razão? Sim. Afinal, Fausto Silva, o técnico escalador do Santos Futebol Clube, incorporou o velho Lula e fez o que pôde com o parco material que tinha à mão. Fomos a campo sem nenhum jogador esforçado. Foram barrados Edu, Robinho, Toninho Guerreiro, Giovanni, Pagão, Antoninho, Pita, e Mengálvio. E ainda, Laércio, Cláudio, Cejas e Rodolfo Rodrigues, que poderiam pleitear suas vagas, uma vez que nosso goleiro titular tinha que se virar em dois para disputar este clássico. Na verdade, o que mandamos a campo foi um time improvisado: Gylmar, Carlos Alberto, Mauro, Ramos Delgado e Lima; Zito e Clodoaldo; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.

Faltava-nos poder de finalização, artilheiros mesmo, alguém que colocasse a bola prá dentro, um bom chutador de faltas, laterais que soubessem apoiar, um razoável cabeceador, uma dupla de atacantes com um mínimo de entendimento, um líder dentro de campo e por fim, um grande goleiro que tivesse experiência, de preferência com mais de 30 anos, a idade em que os goleiros começam a amadurecer. Portanto, resultado justo: 1 x 0 para o Corinthians. Nada a reclamar, apenas gargalhar.

O problema não está no resultado do jogo. Como escrevi antes, há um pouco de informação em cada um dos confrontos. E sempre através de uma minibiografia de um ídolo do time adversário. Por exemplo, no caso do confronto com Fluminense o biografado foi Carlos Castilho, um dos grandes goleiros dos anos 50 e 60. No confronto Santos x Corinthians o personagem era o imortal Gylmar dos Santos Neves, que dispensa apresentações, como goleiro e como esportista, e que, por sinal, no hipotético confronto, está no gol das duas equipes.

Um gentleman, um homem de caráter e ídolo de dez entre dez santistas e corintianos. Desses craques de quem se deve mencionar nome e sobrenome para que não o confundam com um mortal qualquer. Pois bem, ao narrar o episódio da saída do grande Gylmar, do Corinthians para o Santos Futebol Clube no final de 1961, o livro endossa e saúda a infeliz frase atribuída a Wadih Helou: “Quem não sabe morrer não merece viver”. Diz o livro que o presidente expressava o sentimento da torcida corintiana, que esta teria manifestado desprezo e aversão ao ex-ídolo. Que Gylmar devia ao Corinthians o seu sucesso como jogador.

Sou da opinião de que nem Pelé foi maior que o Santos Futebol Clube e assim pensam, também, os corintianos sobre Rivelino, Sócrates, Neto, Marcelinho Carioca, Ronaldo e Gylmar. Mas, daí a endossar a frase de um obtuso, nefasto e desprezível dirigente como Wadih Helou em detrimento de uma figura como Gylmar dos Santos Neves chega as raias do absurdo. O que pensará um jovem corintiano ao ler aquelas linhas? Que o grande Gylmar entregava jogos. simulava contusões, jogava contra seus próprios companheiros. Alguém, em sã consciência, compararia a contribuição ao futebol brasileiro de Gylmar dos Santos Neves e a de Wadih Helou?

Conheço uma infinidade de corintianos que viram Gylmar jogar em seu time. De nenhum ouvi palavras de desprezo e aversão, só de respeito e admiração ao grande campeão de 1954. Não é a toa que nenhum melhor Corinthians de todos os tempos foi escalado sem Gylmar, nem o melhor Santos Futebol Clube. Se o grande tetracampeão do mundo (pelo Santos Futebol Clube e pela Seleção Brasileira), hoje recolhido num apartamento em São Paulo, cercado pelo carinho e respeito da família e dos amigos, recordado por milhões de fãs, não pode mais se defender, fica aqui a minha tardia defesa, daquele que dela não precisa.

Humberto Mariano, santista desde o tempo em que quando o time da cidade ganhava do Santos o prefeito decretava feriado. Se empatasse, era ponto facultativo.