Acordo de Deuses – Por Humberto Mariano

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Acordo de Deuses – Por Humberto Mariano

Em Maio de 1962, o nível de stress de João Havelange, então presidente da CBD, estava nas alturas. No seu melhor momento a frente da CBD, recebia, diariamente, irados telefonemas do presidente da FIFA, o britânico Stanley Rous, cobrando-lhe uma solução para um problema que na realidade nem era seu. O problema que atormentava Mr. Rous era, para Havelange, uma clara solução. Desde Junho de 1958 a imprensa estava em lua de mel com a seleção de futebol. Não apenas a imprensa, mas especialmente o povo brasileiro. Desde então, a seleção entrara em campo 32 vezes e saíra vitoriosa em 27 dessas partidas. Nem mesmo a perda do Sulameriacano de 1959 abalou a lua de mel entre a massa e a seleção canarinho. Afinal, fomos escandalosamente roubados na decisão com a Argentina e voltamos vice-campeões invictos.

Nem mesmo o mais pessimista dos brasileiros, nem mesmo o corvo Edgar se na época existisse, duvidava que a seleção seria bicampeã do mundo. Era praticamente o mesmo time de 58, com um adicional que fazia toda a diferença: Ele e Garrinha, titulares absolutos, eram, na ocasião, disparados os dois melhores jogadores do mundo. Na forma que estavam, cada um deles, sozinho, já seria suficiente para trazer a Copa. Juntando os dois, então, a ida ao Chile se transformara quase num passeio, um convescote como se dizia na época.

O problema de Mr. Rous era que o mundo inteiro pensava exatamente como a torcida brasileira. As casas de apostas de Londres estavam às moscas, a aposta no Brasil não pagava quase nada e nos outros quase ninguém apostava. Um francês tentou apostar na seleção inglesa; a casa recusou. Teria que pagar 10.000 libras para cada libra apostada. O gerente quis aceitar, mas a diretoria da casa não permitiu correr o risco, ainda que tão improvável quanto a quarta aparição da Virgem de Fátima, desta vez em Copacabana.
StanleyRous_JoaoHavelange
Se fosse apenas a situação das casas londrinas, Mr. Rous não estaria tão preocupado. O fato é que a Camorra napolitana estava no jogo e cobrava de Mr. Rous uma solução para turbinar as apostas. Mais que cobrava, ameaçava. Se continuassem a perder dinheiro daquele jeito, alguém ia pagar por aquilo e Mr. Rous era o primeiro da lista. Havelange tinha seus sonhos de poder, mas ainda não tinha cacife para confrontar o ainda todo poderoso presidente da FIFA. Foi ao governo buscar ajuda e levou uma descompostura: trazer a Copa era sua obrigação; o governo Goulart, pressionado pela UDN, pelos EUA, pelo FMI e pelos quartéis precisava desesperadamente de uma Copa que lhe garantisse sobrevida até as eleições de 65. Voltou abatido à CBD e chamou um velho jornalista para se aconselhar. Cronologicamente nem tão velho, mas sua sabedoria era a dos velhos anciões; profundo conhecer da alma do povo, especialista na psicologia do subúrbio, dos desejos mais recônditos da massa, em particular de mulheres e homens simples, tal como aquele inacreditável ponta direita do Botafogo.

Quatro horas da tarde do dia 17 de Maio. No dia anterior a seleção tinha vencido o País de Gales no Maracanã em sua despedida do Brasil, naquela mesma manhã tinham sido feitos os últimos cortes e a delegação estava fechada. Antes da chegada à Cidade do México uma passada em Brasília para a tradicional foto com o Presidente da República. Da janela de sua sala, JH vê o jornalista, vindo da Avenida Presidente Vargas, atravessar a Rua da Alfândega em passos lentos observando as pessoas e a vida como elas são. Era o homem certo para ajudá-lo naquela enrascada. Sabia, por amigos comuns, que ele não enxergava bem, mas como acreditar nisso lendo seus relatos fantásticos e profundas análises de partidas no Maracanã. Fora o primeiro a enxergar num crioulinho franzino a majestade e autoridade de um Rei. Fazia de uma partida de meio de campeonato entre Olaria e Madureira, numa quarta feira á tarde na Rua Bariri, uma epopeia digna de Homero com requintes de uma tragédia de Sófocles. Para ele, a mais sórdida pelada era de uma complexidade shakespeariana.

Chegou, sentou e acendeu o cigarro. Calado, esperou o anfitrião introduzir o assunto. Não poderia haver naquela sala nem em qualquer canto do Universo dois homens mais diferentes. A roupa, o andar, a fala, mas especialmente o modo de enxergar a vida e o futebol. Em comum apenas o então aristocrático Fluminense, mas o que em um era paixão, no outro era quase uma obrigação. Só podia ser Flu. Quem o acreditaria ou imaginaria Botafogo, Vasco, ou, louvado seja Deus, Flamengo? Tal como outro João, o Figueiredo, o afrancesado Havelange tinha ojeriza ao cheiro do povo. Já o jornalista não apenas amava o povo, como fazia questão de ser parte dele.

Nelson_RodriguesCheio de dedos, JH começou: O que o senhor acha? Temos chances no Chile? Pensou em responder “Que pergunta mais cretina”, mas conteve-se; limitou-se a soltar uma baforada der seu Continental sem filtro. O aristocrata insistiu: Vamos ganhar? O título é o óbvio ululante, meu caro presidente. Nem o Sobrenatural de Almeida nos tira essa. O senhor não me chamou aqui para fazer essa pergunta, ou voltamos ao complexo de vira-latas?. Oui, oui, não é isso. Eu também penso como o senhor, mas isso está nos criando um problema. O calejado jornalista apagou o cigarro e em seguida buscou outro no maço.

Fechou os olhos e ouviu por alguns minutos JH explicar seu problema. Depois falou com sua voz rouca e profunda como as grutas de Sabará. O senhor está disposto a perder a Copa para proteger um inglês que acha que aqui no Brasil andamos de tanga durante o ano todo e que a bossa nova é uma invenção do Louis Armstrong? Non, non, meu caro jornalista. Não é perder, é torná-la pelo menos um pouco mais difícil. Como? Com Pelé e Garrincha, você pode colocar mais nove do Bonsucesso e ainda assim a gente ganha. Pois é, o problema é os dois jogarem. Um vai ter que sair, ou pelo menos, espalharmos o boato da saída, uma contusão, sei lá. Esqueça, doutor Havelange, Ele está no auge, tem uma saúde de vaca premiada. E Seu Mané está nas nuvens, de amor novo, capaz até de levá-la ao Chile. E Seu Mané feliz, doutor, ninguém segura. E, por último, não conte comigo prá nada que atrapalhe a seleção. A pátria já calçou as chuteiras.

Posso contar pelo menos com o seu silêncio sobre essa conversa? Aquele homem a sua frente lembrava-lhe a grã finas de narinas de cadáver. Sentiu um misto de raiva e pena por uma alma tão vazia, incapaz de inspirar nem mesmo uma crônica, de caráter muito pior que o cunhado canalha. Aquiesceu; ficaria calado, não valia a pena levantar um assunto tão infame, a menos que percebesse alguma movimentação para sacar os dois ou um deles do time. Aí sim, botaria a boca no trombone, convocaria até o Conselho de Segurança da ONU, mas com o escrete ninguém brincaria.

Por sua vez, JH não ficara totalmente frustrado com a conversa. Sem querer, o mal arrumado, mal nascido e provinciano jornalista lhe dera uma ideia. Até as franjas da bata do Cristo Redentor sabiam que o fraco de Seu Mané, antes mesmo da cachaça, era mulher. E ele estava de mulher nova. Bastava descobrir quem era ela, um dinheirinho na mão e ela talvez convencesse seu Mané a desistir de ir ao Chile. Ou pelo menos arrumar uma confusão antes do embarque, que desse ânimo aos apostadores. Sabia como descobrir, bastava uma ligação para a Revista do Esporte e procurar a famosa Candinha.

Elza_GarrinchaA ficha veio completa, com nome, sobrenome e endereço. Elza Soares era o novo “cacho” de Seu Mané. Cantora já famosa, bela morena, gênio forte, ela era a mulher ideal para um homem sem freios e que não sabia dizer não, nem às mulheres, nem aos amigos, mesmo os falsos. Como abordá-la? Mulher vinda do povo, como o rude jornalista, não falava a linguagem dos salões, nem sabia controlar primários instintos. Se errasse na abordagem, JH corria não apenas o risco físico de umas bofetadas, mas o risco maior da notícia cair na imprensa e na boca do povo. Estaria liquidado.

Óbvio que não tinham amigos comuns que fizessem a aproximação. Mas conhecidos, sim. Procurou Sandro Moreyra, contou-lhe só meia verdade. Queria conhecer a cantora, afinal Seu Mané era um patrimônio nacional, tinha que ser bem cuidadoso. Marcou-se o encontro. Ela exigiu que fosse em sua casa. Recebeu-o apenas de toalha enrolada no corpo ainda respingando água dos cabelos. Não tinha muito tempo, o show começava às 9h. Depois de quinze minutos de enrolação e sem coragem, e sem uma brecha, para avançar no assunto, JH arriscou: A senhora vai ao Chile? Sorrisinho maroto de volta. Mas, é claro, já agendei uma temporada na mesma época da Copa. E Dona Nair? Quem? A esposa, de Pau Grande. Mané vai começar o processo de separação quando voltar. Dona Nair a as oito filhas vão ficar com tudo que é dele, mais a maior parte dos salários. Não me importo, nunca dependi de dinheiro de homem. Mas o escândalo pode prejudicar sua carreira. Que papo é esse, qual é a sua, doutor? Preciso que você não vá ao Chile, pode atrapalhar o desempenho do Mané. Uma gargalhada explodiu na sala. E foi tamanha que a toalha caiu. JH, vermelho como a camisa do América, virou as costas, ficou de frente para a janela, enquanto Elza dizia: Você não entende de nada, paspalho, muito menos de amor. Quando o Nenê passa a noite aqui, no dia seguinte ele estraçalha o jogo. E olha que a gente não dorme nem um pouquinho. Passa fora, você não me conhece e, também não conhece o Nenê, para vocês Mané.

Outro fracasso, não havia mais o que fazer. O embarque era amanhã. Mister Rous que se virasse com a Camorra. Afinal, se Stanley fosse enviado dessa para melhor, talvez ele antecipasse seus sonhos. E se isso ocorresse nada melhor que mais um título mundial para cacifar sua candidatura. Resolveu esquecer-se do assunto e programar suas férias na Suíça. Não iria ao Chile, detestava esses latino-americanos e suas exóticas roupas, comidas, maneiras e língua. Nada como os restaurantes alpinos, os vinhos de Piemonte, a neve e gente branca em todos os lugares. Segundo sua crença, Deus fizera apenas a parte do mundo acima da linha do Equador. A parte de baixo se formou com as rebarbas, sobras e aparas que a gravidade fez escorregar. Se a plebe ignara queria mais um título de futebol que lhe seja concedido. Talvez com isso até conseguisse a realização de mais uma Copa por aqui, Aí sim o dinheiro iria rolar solto e, sob o seu comando, ou mesmo de um genro já que a filha já estava crescida pronta para o casamento. Sonhou alto: estádio com seu nome, presidência da FIFA, patrocínios, altas comissões, recepção com Chefes de Estado e ao final, mantendo a presidência de honra, uma merecida aposentadoria no cantão de Bas Valais, um pedaço da sua França na Suíça.

A seleção embarcou, treinou dez dias no Chile e estreou. Completa, nos cascos, Garrincha e Ele passearam em campo, o México colocou nove na defesa, o veterano Carbajal foi o melhor em campo e o mundo apenas teve a certeza do que todos já sabiam. Veio o segundo jogo, o adversário era um pouco melhor que o México, resistiu bravamente o primeiro tempo e conseguiu manter o zero no primeiro tempo. No segunto tempo, uma tragédia, Ele sentiu uma fisgada e pôs a mão na coxa. O Brasil prendeu a respiração, em Nápoles espocaram rojões, o velho Stanley num hotel de Santiago abriu uma champagne; na Suiça, Havelange abriu um Beaujolais 1875 e em Copacabana o velho jornalista carioca, sentou-se em frente à sua Remington 1938 e preparou-se para a batalha. O jogo terminou zero a zero. Garrincha, boa praça que era, mesmo sem serem íntimos amigos, entristeceu-se com a dor daquele menino e Garrincha triste era pouco mais que um Cafuringa. Ainda bem que sua tristeza nunca durava mais que quinze minutos.

No vestiário, consternação geral. Deu prá sentir que o negócio era grave. Talvez Ele não jogasse mais naquela Copa. Só um sujeito não tinha a cara amarrada e não demonstrava a menor tensão. No chuveiro cantarolava. “Se acaso você chegasse” imaginando como, mais tarde, passar pela recepção do hotel sem ser notado para ir encontrar sua amada Crioula. Saiu do banho, foi até onde Ele descansava com a coxa coberta de gelo, deu-lhe um tapinha nas costas e falou: Pô, vou sentir sua falta, a gente ia deitar e rolar, mas deixa comigo, eu ganho essa tacinha prá nóis. Só quero uma mãozinha sua hoje a noite. Como? Eu vou aparecer no seu quarto hoje as 10 da noite. O resto é comigo.

Dito e feito. Dez em ponto, Seu Mané entra no quarto. Dá uma piscada, fala baixinho alguma coisa e sai para o corredor em desabalada carreira, gritando: O Crioulo está mal, está estrebuchando. Dezenas de portas se abrem, e todos correm para o quarto d’Ele. Na frente, Doutor Hilton Gosling. Seguem-no, pela ordem, Mario Trigo, Aimoré Moreira, Paulo Amaral, Mário Américo, Ernesto dos Santos, Dr. Paulo, Didi, Jurandir, Zequinha, Vavá, Mengálvio, Coutinho, Pepe, os dos Jairs, Mauro, Gylmar, Altair, Bellini, Zózimo, Castilho, Zagallo, os dois Santos, Amarildo, e Zito. Primeiro, o torpor geral. O Crioulo convulsionava em cima da cama entre tremores, espasmos e olhos virados. Uma cena dantesca. Doutor Hilton se aproxima, encosta a mão na testa do paciente, nada de febre. Enfia-lhe os dedos na boca para prender a língua, mas não há nada de errado com ela. Está onde devia estar e sem sinais de mordedura. Subitamente as convulsões cessam. Como se estivesse saindo de uma anestesia, Ele pergunta: O que está acontecendo? O que todo mundo veio fazer aqui?

Doutor Paulo ordena a retirada de todos, inclusive do médico. A sós no quarto, aperta o Crioulo. Que mutreta é essa? Cadê o Garrincha? Com vinte e um anos, Ele ainda não aprendera a mentir e Doutor Paulo sabia disso. Foi ideia dele, Doutor Paulo, eu não pude recusar. Nós precisamos dele feliz para o resto da Copa. Se ele fica triste até o Ari Clemente marca ele. E eu não sei disso, Crioulo besta? Amanhã eu converso com ele, dorme e vê se não apronta mais uma dessa que eu te mando de volta. Na manhã seguinte, Seu Mané é chamado pelo chefe. Chega arrastando os chinelos, assobiando e diz: O que manda, dotô? O Crioulo melhorou? Recebeu de volta um dedo na cara e uma reprimenda: Olha aqui, Seu Mané, comigo ninguém tem privilégio. O senhor pode mandar no Botafogo, mas aqui é a Seleção Brasileira. Quero o senhor no hotel antes do café da manhã, todos os dias. E tenho dito.
Final_62
Seu Mané abaixou os olhos, saiu sem responder, foi até o quarto d’Ele, repetiu a promessa do vestiário. Em seguida, ligou para Sandro Moreyra, que lhe ligara transtornado, e confirmou que a distensão do Crioulo era verdadeira e tinha sido coisa do jogo, sem armação. Sandro repassou a informação para o velho jornalista, a tempo deste rasgar o artigo que, se publicado, incendiaria o pais. O resto é a história que todo mundo conhece. Seu Mané prometeu e cumpriu. Afinal um acordo entre deuses é uma coisa muito séria. Não haveria de ser um escocês rabugento, um franco-suíço afetado e uma dezena de napolitanos enfezados que iriam impedir.

Humberto Mariano, aristocrata são-miguelense e socialista convicto. Acredita num mundo justo, fraterno e igualitário no qual todo homem terá direito a uma Camila Pitanga no verão e uma Maria Fernanda Cândido no inverno. No outono e na primavera descanso, que ninguém é de ferro.

Imagem 1: Stanley Rous e João Havelange
Imagem 2: Nelson Rodrigues
Imagem 3: Elza Soares e Garrincha
Imagem 4: Comemoração do gol de Amarildo, substituto de Pelé, na final da Copa de 62